Entrevista | 22-07-2020 15:00

“Uma solução para o vírus feita à pressa pode agravar o problema”

“Uma solução para o vírus feita à pressa pode agravar o problema”
ENTREVISTA COMPLETA

Na segunda parte da entrevista que deu a O MIRANTE, Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular, natural de Santarém, diz que o confinamento quase exemplar dos portugueses não resultou da adesão massiva a um plano colectivo ou por solidariedade com algum tipo de estratégia.

Combater o vírus sem matar a economia é o ovo de Colombo desta crise sanitária, económica e social?

Não gosto da dicotomia que põe o vírus de um lado e a economia do outro. Tentam justificar muito o desconfinamento com a economia mas não gosto de ver as coisas assim. Isso quase nos leva a pensar quantos mortos é que valem o prejuízo económico, a pôr um preço nos mortos, o que é uma coisa de péssimo gosto e desumana. O confinamento foi uma boa estratégia como primeiro impacto, era o que havia a fazer depois de se assistir ao que acontecia em Espanha e Itália.

Foi o medo que nos fechou em casa?

Sim, não foi a grande adesão a um plano colectivo ou a solidariedade com nenhum tipo de estratégia. Tivemos todos medo e fomos para casa. E isso protegeu-nos. Numa primeira análise foi bom.

E com o desconfinamento deu-se o contrário?

Tínhamos que desconfinar obrigatoriamente. E não era para recuperar a economia mas sim porque somos animais sociais. Temos é que recuperar a sociabilidade, não a economia. A economia serve o nosso carácter social. A economia resulta da nossa natureza social.

Mas as coisas não estão a correr muito bem.

Durante o confinamento devíamos ter concebido um plano ordenado e metódico de desconfinamento, que atendesse às características do vírus e àquilo que se sabe de qualquer pandemia, porque já aconteceram várias pelo meio, como a Gripe A, a Gripe Asiática, a Sida…

Acredita que pode haver uma segunda vaga, como se vai ouvindo?

Quando se fala em segunda vaga temos que saber se estamos a falar do aparecimento de outro padrão da doença associado a uma mutação do vírus, quase uma fase desligada da primeira, ou se estamos só a falar do facto de as pessoas terem saído de casa, o vírus ter mais pessoas para infectar e aumentar o número de casos.

O clima pode ter alguma influência, nomeadamente o tempo mais frio?

Tem influência sobretudo porque, e não sabemos se explica tudo, o trato respiratório fica mais fragilizado. Em princípio, fica mais propício para os vírus respiratórios.

Não será difícil ao cidadão comum, nomeadamente aos mais jovens, assimilar o apelo ao cumprimento de determinadas regras, quando vimos governantes na praia, às compras ou em espectáculos?

As pessoas, mesmo estando bem informadas e compreendendo a mensagem, por vezes tomam a opção consciente de correr o risco. Toda a gente sabe quais são os riscos do tabaco mas todos os anos há jovens que começam a fumar. Com a Sida também houve muita informação sobre os comportamentos de risco e no entanto várias pessoas continuaram a tê-los. Em todas as situações de saúde pública é preciso informar, mas mesmo assim não vai acontecer uma adesão massiva de todos os subgrupos e é preciso tomar medidas que vão para além da simples informação.

O folclore dos políticos ajuda alguma coisa nesse campo?

Julgo que não. Não creio que um Presidente da República a passear pela praia de Carcavelos e a chamar as televisões para filmar vá fazer grande diferença. Quanto muito, as pessoas interrogam-se se a missão do Presidente da República é olhar para a Praia de Carcavelos.

“A incerteza faz parte da vida”

Como homem de ciência que mensagem deixa ao cidadão comum nestes tempos de incerteza que vivemos?

Lembro que a incerteza faz parte da vida e que o facto de haver incerteza não é um falhanço das estratégias mais científicas. Porque nunca se conhece tudo de tudo nem se conhece imediatamente o que quer que seja. Estamos a viver numa situação de incerteza, de facto, mas grande parte dela resulta de ser muito recente. Por exemplo, não sabemos como vai evoluir a imunidade das pessoas que já estiveram expostas ao vírus, porque as pessoas há mais tempo expostas ao vírus foram-no, no máximo, há seis meses na China.

Ou seja, neste momento é difícil dar respostas que muita gente anseia.

Não se deve esperar da ciência que tenha uma linguagem sempre muito objectiva e pré-determinada, porque embora o método científico seja muito rigoroso, os dados de que dispõe nem sempre podem levar a uma certeza. Isso não quer dizer que não estejam a ser feitos esforços imensos. Desenvolver uma solução leva o seu tempo. Uma solução feita à pressa pode agravar o problema.

Há uma grande pressão sobre a comunidade científica actualmente nesse sentido.

Há, mas é preciso manter a cabeça fria porque o primeiro valor é o da segurança das pessoas. O risco maior é desenvolver uma solução que agrave o problema. Isto já aconteceu antes na história do desenvolvimento de vacinas e de medicamentos. É preciso ter confiança nas soluções, ainda que elas não apareçam rapidamente e sob a forma de certezas. Na ciência não é assim, noutros sectores sim!

Vai ser difícil pedir às pessoas para voltarem a fechar-se em casa, como aconteceu em Março.

Vai, porque mesmo que a situação piore um pouco as pessoas, psicologicamente, já não estão no quadro que estavam antes. Já não vão ter o medo que tiveram no início.

O cientista anti-vírus que a pandemia pôs em teletrabalho

Como cidadão, como tem convivido com as restrições à liberdade de movimentos que nos foi imposta pela pandemia? A sua vida também ficou virada do avesso?

A minha vida foi afectada, mas virada do avesso talvez seja um pouco exagerado. A minha vida profissional sim, ficou um bocado virada do avesso, porque estive em teletrabalho e o trabalho experimental da banca do laboratório não se leva para casa. Não vamos fazer experiências na bancada da cozinha. Obviamente, houve um impacto negativo na progressão do nosso trabalho. O que é um bocado irónico porque desenvolvemos muitos anti-virais e veio um vírus que nos impediu de trabalhar nos anti-virais. Agora estamos a retomar a actividade e a trabalhar em turnos para que a lotação do edifício esteja sempre abaixo de metade do habitual.

E em termos pessoais fez-lhe confusão estar confinado?

Fez, mas não me custou muito. Penso mais nos meus alunos e nas minhas filhas, que estão em idade universitária, por aquilo que perderam de sociabilidade, de fazer amigos, de tudo o que é a faculdade. Isso faz-me pensar que o prejuízo social é infinitamente maior para eles.

Deixa os sapatos à porta e tira toda a roupa para lavar, diariamente?

Não e não sigo nenhum procedimento especial. Uso máscara quando vou ao supermercado, porque são espaços fechados onde inevitavelmente se vai estar perto de outras pessoas. Também não sou maníaco do gel mas lavo as mãos com frequência. Já comecei a frequentar restaurantes e só não vou à praia porque não sou grande fã. O importante é a distância social e não o contexto em que as pessoas estão. O vírus não vê o contexto. Se tiver oportunidade de passar de uma pessoa para outra passa, se facilitarmos demasiado.

Convive com frequência com familiares mais idosos ou de grupos de risco e com amigos?

Tenho estado com frequência com os meus pais, que estão em boa forma mas já estão na faixa etária de risco. Preocupo-me com isso e uso máscara sempre que os vejo. Com os amigos não estive durante a fase de confinamento, agora retomámos alguma sociabilidade em esplanadas. Tentamos manter a distância e estar ao ar livre mas não sou um fanático. Não sou polícia de ninguém.

A contagem diária do número de infectados, de mortes e de casos recuperados não pode alimentar algum alarmismo social?

Por si só, acho que não. É importante que comuniquem os dados. É uma questão de transparência, desde que os dados estejam correctos. Naquela fase em que os dados não batiam certo também fiquei um pouco confuso. O que acho que está a falhar é que há informação a mais e mensagem a menos. Uma coisa é termos o número de mortes, de infectados e de recuperados. Outra coisa é saber como é que os responsáveis estão a interpretar estes dados. Como estão a converter os dados em decisões. O importante para ter a adesão das populações é explicar-lhes o que está a ser feito e porquê.

E isso nem sempre acontece…

Por exemplo, o campeonato de futebol feminino foi cancelado enquanto o masculino arrancou. Mas o campeonato masculino é que causa grandes ajuntamentos. Não se percebe exactamente a decisão de proibir a continuação do campeonato feminino, que em princípio não ia dar grandes ajuntamentos, e permitir o masculino que em princípio vai dar ajuntamentos que cheguem. Até pode ser uma decisão legítima, mas precisávamos de saber mais da lógica com que isto é feito.

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