Entrevista | 01-09-2020 07:00

“Abrantes tem um ambiente de vida feudal”

“Abrantes tem um ambiente de vida feudal”

Lurdes Martins é presidente da Associação Palha de Abrantes que este ano comemora 25 anos de actividade.

Lurdes Martins tem 58 anos e é presidente da Associação Palha de Abrantes, que este ano assinala o 25º aniversário. Integrou as diversas direcções nos últimos 15 anos e há quatro assumiu a presidência. Natural de Trás-os-Montes, teve dificuldade em adaptar-se a Abrantes e aos seus costumes. Considera as pessoas muito fechadas como se ainda vivessem num ambiente feudal. Juntam-se em grupos, mas não se misturam. Dizem que é agreste. Lurdes Martins não o nega afirmando que diz sempre o que pensa, mesmo que não gostem. A dirigente associativa confessa não conhecer nenhum local do país em que as pessoas do concelho não gostem da sua cidade, como acontece em Abrantes. Fala da relação difícil que sempre teve com a anterior presidente da câmara e considera Maria do Céu Antunes uma mulher ambiciosa, ao contrário de si, cuja única ambição está relacionada com os seus projectos culturais.

As pessoas de Abrantes são fechadas, vivem num ambiente muito feudal. Juntam-se em grupos e não se misturam nem convivem com outras. A opinião é da presidente da Associação Palha de Abrantes, Lurdes Martins, natural de Trás-os-Montes, que vive em Abrantes há cerca de 30 anos. Nesta entrevista a O MIRANTE recorda a dificuldade que teve em adaptar-se à cidade que a acolheu.

A dirigente considera os transmontanos mais acolhedores, mas também mais agrestes. “Dizem que sou agreste e sou. Digo o que tenho a dizer sem pensar se vão gostar ou não. Aqui há uma certa polidez e delicadeza, que também aprecio e aprendi a usar. Mas essa delicadeza por vezes esconde uma opinião e não gosto de esconder nada”, afirma.

Lurdes Martins diz não conhecer nenhuma cidade do país em que as pessoas do concelho gostem tão pouco da sua cidade. “Quando vou a uma das aldeias do concelho há quem se refira à cidade como ‘o cabeço’, de modo depreciativo. A cidade é o coração do concelho. Tem que estar bonita, florida, formosa, habitada e tem que estar preenchida de actividade. Quando isto acontecer todas as localidades vão sofrer por contágio e o concelho enriquece”, afirma.

Aos poucos começou a participar nas iniciativas da Palha de Abrantes como espectadora e foi assim que entrou para a direcção. É presidente há cerca de quatro anos. Defende que todos os elementos da associação foram importantes e a associação surgiu numa altura em que não havia muita actividade cultural no concelho. Lamenta que o “Festival do Imaginário”, criado com o apoio da câmara municipal, não tenha durado mais de dois anos. Lurdes Martins prefere não tecer muitos comentários sobre o assunto, mas afirma que a iniciativa não continuou porque “os egos são maiores, as pessoas entram em discordâncias e os projectos acabam”.

Tradutora de profissão, Lurdes Martins recorda que, a determinada altura, a Palha de Abrantes esteve em vias de desaparecer. “É muito importante lançar sementes à terra mas também é importante haver quem as regue. Não é só criar associações, elas têm que ser alimentadas”, sustenta. E acrescenta: “Quando há uma associação que tem um valor incalculável na história do concelho e uma memória como a Palha é muito triste deixá-la morrer porque não há quem lhe dê continuidade. Acredito que se não fosse a minha teimosia transmontana a associação talvez tivesse desaparecido”, confessa.

Lurdes Martins defende não existir falta de actividade cultural em Abrantes. O que falta é participação nessas actividades culturais. Outro dos problemas da Palha é o facto de não ter sede. Estão no “Senhor Chiado”, espaço junto aos paços do concelho, cedido pelo proprietário, mas que está à venda. Assim que o imóvel for vendido vão ter que sair. A associação gostava de ficar no centro porque considera que é nesta zona que as instituições devem estar, para movimentar a cidade. “Já devíamos ter reunido com o presidente para resolver este assunto, mas ainda não aconteceu”, explica.

RELAÇÃO COM ANTERIOR PRESIDENTE DA CÂMARA DE ABRANTES NUNCA FOI PACÍFICA

A relação entre a presidente da Palha de Abrantes e a ex-presidente da câmara, Maria do Céu Antunes, não foi pacífica. Lurdes Martins conta a O MIRANTE que nunca reuniu com o executivo municipal durante os três mandatos de Maria do Céu Antunes. “É muito estranho que uma associação com 25 anos não reúna regularmente com o executivo”, afirma. No entanto, já conversou com o novo presidente, Manuel Valamatos, que lhe garantiu apoio na resolução de um problema relacionado com o projecto Animaio.

A Palha de Abrantes tinha o projecto do cine-clube Espalhafitas, no cine-teatro São Pedro, suspenso em 2015. “Termos saído do cine-teatro foi uma estocada dada a projectos valiosos e isso não se faz. A justificação que nos deram foi que tinha pouca adesão e custava muito a aquecer e arrefecer a sala. Sendo nós promotores do Plano Nacional de Cinema em Abrantes, trabalhávamos com escolas e a sala enchia quando passávamos cinema”, garante.

Lurdes Martins explica que havia divergências na forma de estar da anterior presidente e ela própria. “A Maria do Céu é ambiciosa, inclusive pela sua carreira. A minha ambição não tem a ver com a minha pessoa e a minha carreira, tem a ver com os meus projectos, que são ideias minhas. São formas de estar diferentes e ambas legítimas”, esclarece.

A professora considera que o processo do cine-teatro São Pedro foi mal conduzido desde o início acrescentando que não se pode olhar para o espaço como um edifício, mas sim como equipamento cultural da cidade. “Abrantes não tem nenhum equipamento cultural na cidade. Mesmo que se construam museus, umas coisas não ocupam o lugar de outras”, considera, acrescentando que a resolução do processo estava lá desde o início.

“O valor dado hoje era o valor que poderia ter sido dado na altura sem alimentar guerrilhas. O actual presidente quis esta resolução porque também quer demarcar-se da política da sua antecessora. Dentro do mesmo executivo municipal há demarcações muito vincadas em relação ao mandato de Maria do Céu e o cine-teatro é talvez o exemplo mais gritante”, sublinha.

Deu aulas de alfabetização e ensinou Língua Portuguesa a imigrantes

Lurdes Martins nasceu a 3 de Maio de 1962, junto à barragem da Bemposta, em Trás-os-Montes. Até aos 20 anos viveu perto das barragens que iam sendo construídas na zona do Douro. Os avós, com quem foi criada, eram funcionários da EDP e quando terminava a construção de uma barragem seguiam para outra. Não tem um lugar que possa chamar de poiso e talvez venha daí a liberdade que tanto preza. No entanto, diz identificar-se muito com a aspereza e a dificuldade da geografia transmontana, que considera de uma beleza imensa.

Conheceu o marido, natural de Abrantes, no norte do país e casou aos 17 anos porque quis. Foi mãe aos 18 e o seu espírito livre levou-a, e ao marido, a emigrarem para os Estados Unidos da América. Não gostou da experiência por não se sentir segura onde vivia e regressaram. Entretanto, divorciou-se e não voltou a casar. Viveu uns anos na Suíça, mas sempre por períodos intermitentes. Assentou arraiais em Abrantes por ser a cidade onde o filho estava a crescer, mas não se considera agarrada a locais.

É fluente em várias línguas e por isso decidiu tirar o curso de Tradução, no ISLA em Santarém. Depois tirou o curso de Línguas e Literaturas Modernas. Estudava e trabalhava ao mesmo tempo. Escolheu Tradução por ser um tipo de trabalho que lhe permite gerir o seu próprio horário e trabalhar em qualquer local do mundo. Após o 25 de Abril de 1974 deu aulas de alfabetização em várias aldeias do país durante vários anos. “Foi um trabalho que me deu muito gozo”, confessa.

Com a imigração em massa para o nosso país, no início deste século, deu aulas de Português a estrangeiros, como ucranianos e moldavos. Trabalhou com os japoneses da Mitsubishi e com todos os estrangeiros que veiram para a Central do Pego. Deu aulas no ensino público durante pouco tempo. Também deu cursos de formação, embora não tenha gostado por considerar estarem mal estruturados.

Actualmente dedica-se a 100% à Associação Palha de Abrantes e é a mentora da “Escola do Ócio da Palha de Abrantes”, um ateliê de tempos livres onde as crianças estão durante o período escolar e também nas férias. Ali faz-se de tudo um pouco desde cantar, ler e sobretudo brincar. Um projecto que já tem 15 anos e que Lurdes Martins faz questão de manter.

Faz parte das listas do Bloco de Esquerda em Abrantes em lugares não elegíveis e não pretende filiar-se em nenhum partido. O seu avô era um homem muito atento à política e falava-se muito de política em casa. “As ideias que tenho de justiça, igualdade, oportunidades e atenção aos outros fui buscá-las todas a minha casa”, conclui.

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