Entrevista | 05-09-2020 12:30

Uma história de amor de deixar os olhos em bico

Uma história de amor de deixar os olhos em bico
TÃO LONGE E AQUI TÃO PERTO
foto DR

Rita Borrego Yeh passou um ano no Japão a aprender a língua. Do país do sol nascente trouxe hábitos como andar sempre com o telemóvel sem som, para não incomodar ninguém, mas trouxe também o amor da sua vida. Em breve partem para Taiwan para nova aventura, desta vez em chinês.

Rita Borrego Yeh é uma apaixonada pela cultura nipónica. Para aprofundar os seus conhecimentos da língua japonesa, iniciados no Instituto de Línguas da Universidade Nova, em Lisboa, rumou ao Japão em 2018 onde ficou durante um ano. Sempre gostou de línguas e da Ásia, mas o interesse cresceu depois de uma viagem ao Japão, presente de aniversário dos pais. Assim que terminou o mestrado em Engenharia Agronómica partiu para Quioto e foi ali que se apaixonou novamente, não pela cultura, mas por Fuyi Yeh, um taiwanês que frequentava as mesmas aulas. Foi amor à primeira vista e depois de terminarem o curso rumaram a Taiwan, onde Rita passou dois meses antes de regressar a Portugal, no início de Fevereiro, para estar mais perto de Espanha onde se inscreveu no mestrado em gestão ligada à agronomia, na Universidade de Valência.

Veio sozinha e Fuyi combinou com os pais de Rita fazer-lhe uma surpresa. Chegou no final do mês de Fevereiro para a pedir em casamento. “Foi altamente romântico, mas ficámos os dois aqui fechados”, graceja Rita. O plano inicial seria ficar por cá até finais de Março, visitar a família e fazer a candidatura a uma bolsa de estudo para aprender chinês em Taiwan. Mas a pandemia e o consequente confinamento obrigatório trocaram-lhes as voltas. Com as fronteiras fechadas aproveitaram o tempo para fazer os preparativos do casamento que aconteceu a 7 de Agosto, um dia depois de completar 26 anos, na Quinta do Casal Branco, em Almeirim, numa festa pequena e familiar.

O plano agora é em meados de Setembro partir para Taiwan, formalizar o casamento nesse país, celebrá-lo numa cerimónia com a família de Fuyi, e ficar lá a viver. Rita soube, entretanto, que a sua candidatura à bolsa para aprender chinês foi aceite.

Entre o casal falam em inglês. Se não se fizerem entender passam para o japonês, mas qualquer dia vão conseguir comunicar em chinês e “se tudo correr bem ele também aprenderá o português”, conta Rita confiante.

Melões vendidos por dois mil euros

O que mais atrai Rita na cultura japonesa é a sua grande ligação à natureza. Apesar de trabalharem muitas horas e andarem sempre a correr de um lado para o outro, esse corrupio não se sente no coração da cidade de Quioto, onde há sempre um templo, árvores, ou o som da água a correr em cascatas. “É muito relaxante”, assegura, acrescentando que também a encanta a filosofia de vida dos nipónicos: pensar em si próprio sem afectar os outros, estar em harmonia com todos. “É o oposto de Portugal”, garante. De lá trouxe, por exemplo, o hábito de ter o telemóvel no silêncio e não atender chamadas nos transportes públicos, para não incomodar.

O que achou mais estranho no povo japonês foi a sua “submissão”. Por exemplo, numa situação de trabalho, o que o chefe diz é lei, ninguém questiona nem dá sugestões. Não querem incomodar e por isso só expressam uma opinião se lhe for pedida, com insistência. São um dos povos mais prestáveis, mas têm dificuldade em criar relações profundas porque nunca expressam a sua verdadeira opinião. Contudo valorizam muito quem quer aprender a sua cultura e os seus costumes. Exemplo disso foi terem oferecido as aulas e o equipamento de Kendo a Rita quando mostrou interesse nessa arte marcial, desenvolvida a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais.

Durante o ano que viveu no Japão Rita confessa que não foi difícil contornar as saudades de Portugal. Conseguiu vir de férias duas vezes, uma delas para apresentar o namorado aos pais, e também recebeu a visita dos pais na passagem de ano. Falou com familiares e amigos por videochamada e, quanto à comida, garante que não é só sushi e até encontrou um prato de massa fria, que se coloca num caldo de carne quente, que lhe fez lembrar a sopa da pedra. Rita conta que há várias influências portuguesas na gastronomia e na língua japonesas. Foram os portugueses que ali fizeram chegar o pão-de-ló que no Japão se chama “castela”. O próprio pão tem origem lusa e denomina-se “pan”. O jogo de cartas também foi levado por nós e “caruta” é uma carta.

O que não é muito atraente no país do sol nascente é o custo de vida. É muito elevado e alguns produtos básicos como frutas e vegetais podem alcançar um preço astronómico. Um pêssego custa nove euros e há melões que chegam a ser vendidos por dois mil euros. O ordenado mínimo ronda os 10 euros por hora e fica mais em conta comer num restaurante uma refeição básica de sopa, arroz, proteína, vegetais e sobremesa, que ronda os 10 euros. Rita não soube especificar o preço do arroz, mas sabe que é muito barato, porque praticamente toda a gente que tem um quintal cultiva o seu próprio arroz. Outra área que contrasta com Portugal é a da saúde, com uma consulta no hospital, já com medicamentos incluídos, a rondar os três euros.

Para ajudar nas despesas Rita trabalhou em part-time num restaurante de sushi e numa escola de música e dança para crianças, onde ensinava inglês.

“Antes de conhecer Taiwan, o Japão era o melhor país do mundo, mas depois de conhecer a antiga ilha Formosa, fiquei rendida”, conta Rita, acrescentando que o país sintetiza tudo o que gosta no Japão e ainda acrescenta alguns pontos extra: o custo de vida é muito mais baixo e tanto o clima como as pessoas são mais amenos.

“Vamos ficar por lá uns anos, quero ficar fluente em chinês e em japonês. Um dia devemos regressar e quem sabe dar continuidade ao negócio da minha mãe”. Rita Borrego Yeh nasceu em Lisboa, mas as suas raízes estão em Almeirim. É filha de Paula Borrego, directora da empresa de factores de produção agricultura Borrego, Leonor & Irmão, em Almeirim. “Formamos uma boa dupla, eu com conhecimentos de agronomia e gestão e Fuyi com conhecimentos de economia e finanças internacionais”, remata Rita.

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