Entrevista | 08-09-2020 10:00

A pandemia não pode ser desculpa para a imobilidade

A pandemia não pode ser desculpa para a imobilidade

A ADN – Acções e Dinâmicas com Nexo, de Alverca, é uma pequena associação cultural com um coração de gigante, que tem dado nas vistas nos últimos 17 anos

A ADN – Acções e Dinâmicas com Nexo, de Alverca, é uma pequena associação cultural com um coração de gigante, que tem dado nas vistas nos últimos 17 anos. Tem sido uma incubadora de ideias da comunidade e desenvolve projectos e trabalhos de proximidade cultural com as gentes da terra, em parceria com a Câmara de Vila Franca de Xira e a União de Freguesias de Alverca e Sobralinho. Luís Carvalho é um dos fundadores e o presidente da direcção. Nasceu, vive e trabalha na cidade ribatejana. À conversa com O MIRANTE no café que explora no bairro da Chasa, num dia ventoso, fala dos desafios da pandemia e da necessidade da vida continuar apesar das dificuldades. Baixar os braços não faz parte da sua mentalidade e a ADN já tem em mente fazer uma feira do livro ao quilo no final do ano. Nunca como agora, diz, a cultura foi tão importante para ajudar a manter uma boa sanidade mental.

Fundaram a ADN com um espírito rebelde e a intenção de fazer eventos fora da caixa. Esse espírito mantém-se?

Continuamos a ter esse espírito e sempre que possível a reforçá-lo. A ADN é uma associação cultural pequena, comparada com outras do concelho, que nasceu em 2004 de uma vontade grande de fazer coisas diferentes. Somos um concelho com muito potencial e na altura havia maiores faltas a nível cultural e social que queríamos colmatar. Foi fundada por mim, enquanto animador cultural, uma professora do primeiro ciclo e uma educadora social. Acredito que individualmente todos nós podemos ter uma boa ideia para um evento, mas se formos um colectivo as coisas funcionam melhor. Com o tempo tornámo-nos numa estrutura que permite criar também projectos pensados por outras pessoas da comunidade. Uma incubadora de ideias.

Cada pessoa é desafiada a dar uma ideia.

Sim, cada interessado contribui com uma ideia e depois vemos onde podemos avançar. Há muitos jovens que têm excelentes ideias, mas como estão sozinhos não as conseguem implementar. A ADN consegue. Por exemplo, na ideia de realização de uma feira de banda desenhada em Alverca. Não somos uma entidade fechada e qualquer pessoa pode interagir connosco. Queremos dar voz a quem tem ideias interessantes. Muita gente em Alverca conhece-nos pelo nosso peddy paper da noite das bruxas, que este ano não se realiza. Mas deveremos realizar a nossa feira do livro ao quilo no final do ano. Uma das nossas dirigentes tem o carro na rua e a garagem cheia de livros para essa feira.

A pandemia deixou muitas associações sem actividades e algumas à beira da extinção. É o vosso caso?

Não, a ADN não corre risco de vida. Continuamos com projectos activos. Mantemos uma parceria com uma empresa que dá formação a técnicas auxiliares de educação, com a União de Freguesias de Alverca e Sobralinho e com a Câmara de Vila Franca de Xira, na parte da gestão financeira dos Planos de Ocupação Juvenil de Longa e Curta Duração. Agora, mais do que nunca, faz sentido manter uma associação cultural em funcionamento. A pandemia não pode servir de desculpa para deixarmos de fazer coisas novas e estimulantes. Temos de nos saber adaptar e perceber que caminho queremos trilhar.

Com um vírus à solta pode ser mais difícil tirar as pessoas de casa.

As pessoas precisam de sair. Todos temos de encontrar algo para fazer. É certo que há um perigo de contágio, mas não nos podemos confinar novamente durante mais três meses em casa a olhar para uma televisão. Podemos continuar a viver em segurança desde que respeitemos as regras. Se não morrermos da doença morremos da cura. Precisamos de eventos culturais que permitam desanuviar a mente e contribuir para a sanidade mental. É importante que os executivos pensem nisso. É certo que algumas iniciativas tiveram de ser canceladas, mas outras, como a Feira de Outubro em Vila Franca de Xira, deverão acontecer. É importante passar a mensagem de que as coisas não estão tão mal como parecem. A minha geração desde sempre ouviu dizer que as coisas estão mal...

O choque cultural que Alverca precisava aconteceu?

Em parte sim, mas ainda há trabalho a fazer. As coisas têm melhorado nos últimos anos, mas é preciso perceber que as intervenções culturais não se sentem em apenas seis ou sete anos. É um trabalho continuado, de uma vida, para que se consiga mudar a mentalidade das pessoas. É preciso muito trabalho para as iniciativas crescerem e sinto que há da câmara e da junta vontade de alcançar isso. Os executivos têm de perceber o que é prioritário. Alverca precisa de mais iniciativas para as diferentes faixas etárias. Não digo fazer todas as semanas um concerto de música rock, jazz ou ter um rancho a actuar. Mas algo temos de oferecer.

O associativismo tem futuro? Que papel podem os jovens desempenhar nesse futuro?

Não digo que esteja arrependendido por me ter envolvido no associativismo mas é um percurso muito duro. É preciso uma grande resiliência e acreditar no que fazemos. No início da ADN chegámos a ter iniciativas só porque nos apetecia, como um micro-arraial na altura da Festa de São Pedro em Alverca, na Casa da Juventude. Era um evento diferente e pequenino para os amigos da associação e que rapidamente encheu com outras pessoas do bairro. Foi excelente. Queremos provar, e temos feito isso, que as associações podem ser um espaço cativante para os jovens. A juventude traz coisas boas ao associativismo e é importante que estejam ligados. Trazem dinamismo, novas ideias, são uma lufada de ar fresco, um abanão. Evitam que as associações caiam no marasmo.

Há associações a mais no concelho?

Nunca há associações a mais e é bom ver que somos um concelho com grande dinâmica associativa. Há muita gente com ideias, a querer ajudar a comunidade nas diferentes áreas, isso é bom. A subsídiodependência é que é um problema. Os apoios do município ou das juntas de freguesia nem sempre precisam de ser à base de dinheiro. A maioria das vezes passa por ajudar cedendo condições ou um espaço onde os eventos se possam fazer.

Alguns vereadores continuam a olhar com desconhecimento para a ADN sempre que é votado um apoio financeiro.

Isso acontece porque somos uma associação pequena e não devem conhecer a fundo o nosso trabalho. Talvez precisem de nos vir conhecer e descobrir o que fazemos. A câmara tem tido um papel importante na promoção da cultura e sempre nos apoiou quando precisámos. Tanto da junta como da câmara nunca nos falharam com nada e isso é positivo e o reconhecimento do nosso papel e trabalho na comunidade. A ADN não acabou com esta pandemia e o futuro passa por manter a associação viva e de boa saúde. Logo que a situação melhore contamos reaparecer com mais força. Para já temos de nos adaptar e rever procedimentos. Continuamos com ideias e queremos fazer o melhor trabalho possível.

Os negócios não poderão morrer

Luís Carvalho tem 46 anos, é de Alverca e vive e trabalha na cidade. Nunca pensou sair porque, diz, é em Alverca que se sente bem. É uma cidade com qualidade de vida onde gosta de morar. Formou-se como animador cultural e chegou a trabalhar com crianças em bairros sociais problemáticos e em escolas especiais. A dada altura decidiu ajudar um amigo num bar que este explorava no bairro da Chasa. “Um dia ele quis sair e perguntou-me se eu não queria ficar. Aceitei”, conta. A mudança para a gestão do bar foi um desafio que Luís abraçou sem medos, apesar de nunca imaginar que iria virar empresário. “Acabei por gostar disto e de estar envolvido com o público”, conta. Diz que muita gente teve de ir ao dicionário ver o significado da palavra pandemia quando esta apareceu. “Os empresários precisam de se adaptar e seguir em frente, não podem ficar parados a ver se isto passa. Não nos podemos resignar. Os primeiros a adaptar-se serão os que vão conseguir sair bem disto porque não tenhamos dúvidas, os negócios não poderão morrer”, remata.

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