Entrevista | 09-09-2020 10:00

Continua a trabalhar para lá dos setenta para esquecer que está reformado

Continua a trabalhar para lá dos setenta para esquecer que está reformado

Agostinho Marques tem 76 anos e é motorista na Casa de São Pedro de Alverca.

Chegar à idade da reforma e não ter de trabalhar nem mais um dia é para muitos um momento aguardado. Mas, como em tudo, há quem fuja à regra. Uma das excepções chama-se Agostinho Marques, tem 76 anos e recusa render-se à pacatez da reforma. Os 300 euros que diz receber de pensão também são incentivo para continuar.

É em Alverca do Ribatejo, cidade onde mora há 50 anos que trabalha como motorista na Casa São Pedro de Alverca. Antes da pandemia tinha a seu cargo o transporte dos utentes que frequentam a valência de Centro de Dia da instituição que ainda não reabriu, por isso agora está encarregue de lhes levar o almoço a casa.

“Gosto daquilo que faço e, pelo menos, não estou em casa sem nada para fazer. Nunca é tarde para continuar a trabalhar e eu vou continuar, a não ser que me dê alguma maleita”, começa por referir a O MIRANTE.

Para o reformado que decidiu continuar no activo “a idade não é mais do que um número” e não deveria determinar quando se passa de adulto a idoso ou de apto a inapto para trabalhar. “Há muita gente nova com cérebro de velho e muito velho que pensa como um jovem. Na minha cabeça continuo a ter 57 anos, desde esse aniversário que deixei de contar”, afirma. Depois vinca: “Render-me à reforma seria render-me à idade. Aliás, só me lembro que estou reformado quando recebo a mensagem da Segurança Social”.

Agostinho Marques não está por dentro das estatísticas que dizem que em Portugal 70 por cento dos pensionistas recebeu em 2019 um valor abaixo do salário mínimo nacional e que os portugueses são dos que trabalham mais anos, na União Europeia. Mas avisa que trabalhou toda a vida para receber uma reforma que já sabia que não chegava para viver. Além disso, tem a crença de que “quem se reforma e fica sentado num banco morre mais rápido”.

Trabalha de segunda a sexta-feira, quatro horas por dia. O despertador toca às 07h00 e não sai de casa sem beber café e comer uma madalena. O almoço é em casa com a esposa, Isabel Marques, com quem começou a namorar e casou aos 19 anos. Volta a sair para trabalhar e quando regressa a casa vai para a garagem entreter-se com alguns biscates.

“Tenho curso de mecânica e às vezes pedem-me para dar uns arranjos em carros. Gosto de me manter assim, activo”, conta, acrescentando que “uma tarde sentado no sofá é um dia estragado”. Garante que, mesmo que a reforma fosse maior faria o mesmo. “Gosto de trabalhar, quero trabalhar, não quero estar em casa sem fazer nada, nem estar sentado num banco a ver passar gente ou a falar da vida alheia”, explica.

“Há esta ideia do velhinho incapaz que já não serve para trabalhar”

Admite que pode ter tido sorte em ser contratado aos 76 anos porque “há a ideia do velhinho incapaz que já não serve para trabalhar”, diz, defendendo que não vê inconveniente nenhum em uma pessoa continuar a trabalhar depois dos 66 anos e cinco meses que em Portugal dão luz verde para a reforma por velhice.

Conta que começou aos seis anos a ajudar o avô na agricultura, algumas vezes, pela noite dentro. “Ele tinha que regar de noite e eu ficava a iluminar-lhe o caminho, por vezes até às duas da manhã”, conta. Aos 14 anos deixou a Lousã, de onde é natural e foi para Lisboa trabalhar numa serralharia, depois numa padaria e numa loja que comercializava loiça e vidros.

E nem quando aos 17 anos lhe saíram 6.500 euros na lotaria se entregou ao descanso por uns dias. “Tirei a carta de mota e consegui um emprego melhor numa refinaria em Sacavém”, relata, lembrando que foi aí que iniciou a profissão que o acompanhou até à reforma.

“Fui Operador de Máquinas a vida toda”, explica, enquanto tira de uma pasta nove passaportes caducados, com carimbos de vários países, como Irão, Líbia, Dubai ou Emirados Árabes Unidos. “Viajei tanto em trabalho que não precisei de chegar à reforma para fazer isso”, refere enquanto vai folheando os documentos, sentado num banco do Jardim Municipal José Álvaro Vidal.

Chegava a ficar mais de um mês numa plataforma em alto mar, onde manobrava a maquinaria para a perfuração de petróleo. “Um trabalho que não era para qualquer um e acarretava riscos. Quando em 1988 se deu a explosão na plataforma petrolífera Piper Alpha, no Mar do Norte, que fez 167 mortos, eu estava na plataforma ao lado. Tive sorte naquele dia”, lembra.

Depois de deixar as petrolíferas tornou-se formador de operadores de máquinas. “Foram 22 anos a dar formação em Angola. Só parei porque a minha mulher me convenceu que era tempo de parar com as viagens constantes entre os dois países”.

Maioria das reformas são abaixo do salário mínimo nacional

Em Portugal, mais de 1,4 milhões de pensionistas receberam em 2019 um valor abaixo do salário mínimo nacional, o equivalente a uma percentagem superior a 70 por cento, de acordo com dados da Pordata.

No entanto, a mesma base de dados estatísticos revela que há cada vez mais reformados inscritos na Segurança Social a receber mais do que o salário mínimo nacional. Em 2002, por exemplo, esse número correspondia a uma percentagem de apenas 15 por cento, ao passo que em 2019 se fixava nos 29 por cento.

Em 2020, as pensões mínimas no regime geral de Segurança Social correspondem a: 275,30 euros para quem tenha menos de 15 anos de descontos; 288,79 euros para quem tenha entre 15 a 20 anos de descontos; 318,67 euros para 21 a 30 anos de descontos e 398,34 euros, para 31 ou mais anos de descontos.

O montante da pensão social do regime não contributivo passou a ser, em 2020, de 211,79 euros. A ela tem direito quem não descontou para a Segurança Social, atingiu a idade da reforma (66 anos e 5 meses, em 2020) e faz parte de um agregado familiar com baixos rendimentos. A esta pensão acresce o complemento extraordinário de solidariedade, cujo valor é de 18,44 euros para quem tem menos de 70 anos, e de 36,86 euros para quem já completou sete décadas de vida.

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