Entrevista | 09-09-2020 15:00

“Se não cuidarmos da nossa saúde não vamos ficar todos bem”

“Se não cuidarmos da nossa saúde não vamos ficar todos bem”

Sónia Gonçalves é médica de Medicina Interna na CUF Santarém desde 2017.

A aproximação do Inverno, da gripe sazonal e de uma possível segunda vaga de Covid traz novos desafios para as unidades de saúde. Prevenir é o melhor remédio, mas para isso é preciso reforçar a confiança dos doentes que ainda têm medo de ir ao hospital e que por vezes deixam agravar patologias tratáveis. Em entrevista a O MIRANTE, Sónia Gonçalves, médica de Medicina Interna na CUF Santarém, fala dos desafios que se colocam a médicos e pacientes e reforça que o hospital é um local seguro.

Qual o papel do médico de Medicina Interna?

É a especialidade que tem uma visão holística do doente, uma visão integradora, que vê o doente como um todo e que é um pilar do funcionamento de um hospital. O médico de Medicina Interna trabalha em articulação com as várias especialidades.

Quais as patologias mais frequentes na CUF Santarém, em termos de consultas, num ano típico?

Na consulta de Medicina Interna, em específico, predominam as cardiovasculares e cardiometabólicas, com todas as complicações inerentes, como o AVC (Acidente Vascular Cerebral), o enfarte agudo de miocárdio ou a doença arterial periférica.

Notou-se uma quebra no número de consultas este ano?

Nas áreas de Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna, que fazem o acompanhamento mais abrangente do paciente, houve uma quebra de consultas na ordem dos 50% comparando com o período homólogo de 2019.

Os exames de diagnóstico também baixaram consideravelmente?

Notou-se um decréscimo, mas, apesar de ainda haver receio, os doentes estão a retomar, nota-se isso de há dois meses para cá.

Agora que o frio se aproxima e que é mais importante reforçar a vigilância, as pessoas ainda se retraem de ir ao médico?

Como médica e colaboradora do grupo CUF posso assegurar que temos os circuitos todos bem definidos de forma a garantir a segurança tanto de doentes como de profissionais de saúde. Seguimos as normas emanadas pela Direcção-Geral de Saúde (DGS), como a medição da temperatura e a higienização das mãos à entrada, para todos, sem excepção. É ainda aplicado um questionário a todos os doentes e atribuída uma máscara. É seguro vir trabalhar e o doente também pode sentir-se seguro.

Como se pode reforçar a confiança dos utentes?

Cabe a cada pessoa, quer saudável quer com doenças crónicas, garantir que está em pleno da sua saúde à chegada das temperaturas mais baixas e da gripe sazonal. Devido ao confinamento, a taxa de imunização em Portugal é baixíssima e é expectável que haja uma segunda vaga, ou várias vagas, até a infecção por Sars-CoV-2 se tornar endémica.

Uma boa prevenção faz toda a diferença?

Dou o exemplo dos meus pacientes, estou ligada à área da diabetes e obesidade, quanto melhor controlo metabólico tiverem, se vierem às consultas, se fizerem os exames regulares, se tiverem a diabetes controlada e todas as patologias que lhe estão inerentes, como a hipertensão e a obesidade, mais bem preparados estarão em caso de infecção por Sars-CoV-2. Isto é aplicável a todas as áreas. Mesmo nas doenças oncológicas tem-se notado que as pessoas atrasaram a realização de exames, nomeadamente nas senhoras, por exemplo, grande parte das visitas às consultas de ginecologia e obstetrícia foi adiada.

Teve algum caso em particular?

Há pouco tempo tive um destes casos. Uma mulher jovem, que ainda não fez trinta anos, e que tem um nódulo na mama. Sentiu-o com a palpação, mas adiou a vinda ao médico por receio de se dirigir ao hospital. Tem um filho pequeno e quis evitar o ambiente hospitalar onde pensou que estaria exposta a um risco acrescido. Não consultou o médico, nem fez qualquer exame. Quando veio já era tarde de mais e provavelmente a sua esperança de vida ficou muito reduzida. Há outros casos na urgência em que a pessoa anda a arrastar e quando vem ao médico já é tarde, como neoplasias intestinais ou perfurações de colecistites, que eram perfeitamente evitáveis se tivessem procurado ajuda médica assim que tiveram os sintomas. O Hospital é um local seguro, não há que ter receio.

Mas continuam a ser frequentes as notícias de surtos de Covid em hospitais…

Não me posso pronunciar sobre outras instituições das quais não conheço a realidade, mas aqui estamos em segurança e há um controlo diário. Prezamos a nossa segurança acima de tudo para podermos tratar bem os nossos doentes.

Como se está a CUF a preparar para enfrentar o Inverno e uma possível segunda vaga de Covid?

Não estamos a preparar nada em específico porque os circuitos estão definidos e criados. Estamos é a preparar todo o nosso trabalho que é feito no dia-a-dia, a tratar os doentes que nos chegam, sejam eles uma patologia médica, cirúrgica, pediátrica ou uma infecção por Covid. Estamos preparados para tudo.

Há também quem não se dirija aos cuidados de saúde para não incomodar o médico, porque pensam que está sobrecarregado.

Como internista, neste hospital, as solicitações são muitas. Não tenho apenas os doentes dos cuidados intermédios, tenho também a consulta, e os colegas de Medicina Geral e Familiar, quando estão na urgência, também pedem ajuda. Mas esse é o meu papel, não sinto que esteja sobrecarregada. Quando se aproxima o Inverno a afluência é sempre maior. É normal haver trabalho, a mensagem que deve passar é que devem vir.

Quais as patologias crónicas que têm tendência a agravar com o frio?

Sobretudo as doenças respiratórias. Com o Inverno chega a gripe sazonal, infecções bacterianas, exacerbação das bronquites crónicas e da asma. As doenças cardiovasculares por norma também agravam durante o Inverno, sobretudo se o doente não estiver controlado. As doenças metabólicas como a diabetes, obesidade e hipertensão podem ser mais frequentes nesta estação do ano e é aí que reforço a necessidade de optar pela prevenção e não esperar que aconteça.

Como se podem prevenir?

Fazer exames, análises gerais, consultar a cardiologia, ver se está tudo bem, se há medicação que tem que ser alterada. Sem receio de incomodar o médico.

O uso generalizado de máscara irá contribuir para diminuir o contágio dos casos de gripe sazonal?

É uma possibilidade. Poderá ser um facilitador, mas vamos ter na mesma a gripe sazonal. É importante que os grupos de risco sejam vacinados contra a gripe sazonal. O Inverno este ano vai ser desafiante em vários aspectos. Qualquer doente que nos apareça com febre e tosse pode ser uma gripe sazonal, mas também pode ser uma infecção por Covid. Temos que estar preparados para tudo. Pode também ser outra patologia qualquer. Mas a primeira coisa a fazer é o despiste à Covid.

Com o regresso às aulas que dicas pode deixar para pais e filhos e também para professores e todo o pessoal envolvido numa escola?

Que sigam as normas emanadas pela DGS e que mantenham, mesmo fora do âmbito escolar, o distanciamento social. Se tiverem a sua saúde em dia estarão mais bem preparados. Os pais devem explicar aos filhos as regras em vigor, sem alarmar de mais. É preciso encontrar um ponto de equilibro.

Como reage às declarações do primeiro-ministro que chamou cobardes aos médicos [por alegadamente se terem recusado a prestar auxílio aos utentes do lar de idosos de Reguengos de Monsaraz]?

Tenho muito orgulho no trabalho que faço diariamente e no trabalho que fiz durante a fase de confinamento, em que fazia urgência dia sim, dia não, 24 horas. Tenho também orgulho em tudo aquilo que ainda tenho para oferecer. A ordem dos médicos já se pronunciou, e bem.

As unidades de saúde de Santarém têm alguma dificuldade em aliciar médicos para a região, mesmo não sendo interior profundo.

Há colegas que têm essa opinião e outros que pensam exactamente o contrário, que aqui se tem uma qualidade de vida muito melhor e que rapidamente se chega a Lisboa, Porto ou Coimbra. Moro em Santarém e sinto que é uma cidade privilegiada nesse aspecto das acessibilidades.

Tomar foi a cidade escolhida para a especialidade

Sónia Gonçalves, médica de Medicina Interna, 36 anos, exerce medicina há 11. Está na CUF Santarém desde 2017, mas o seu percurso profissional na região começou em Tomar. Apesar das raízes estarem entre a Madeira, onde nasceu e viveu até aos 18 anos, e Trás-os-Montes de onde os pais são naturais e onde vivem actualmente, adorava Tomar e foi a cidade do Nabão que escolheu para tirar a especialidade, no Centro Hospitalar do Médio Tejo.

O objectivo era conseguir uma experiência mais enriquecedora do que aquela proporcionada pelos hospitais centrais, por nestes haver um núcleo mais reduzido de doentes de Medicina Interna, uma vez que existem mais especialidades.

Sempre quis ser médica e é a primeira da família. Era excelente aluna, muito organizada e com tempo para tudo, mesmo para a prática de voleibol. Chegou a ser atleta federada até entrar para a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

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