Entrevista | 15-09-2020 10:00

“A julgar pelos últimos anos os eleitores de Azambuja gostam do cheirinho do aterro”

“A julgar pelos últimos anos os eleitores de Azambuja gostam do cheirinho do aterro”

É da velha guarda do PCP em Azambuja com assento na oposição há 23 anos. Em entrevista, António Nobre recorda erros que hoje custam caro ao concelho, como a privatização das águas ou o aterro, e lança farpas da esquerda à direita.

António Nobre não tem dúvidas de que a governação socialista em Azambuja está “metida numa camisa de onze varas” e não sabe como sair dela. Em 23 anos de vida política, não viu no poder outra força política que não o PS e lembra erros do passado e do presente, como o do polémico aterro sanitário, um problema para o qual “a população acordou tarde” e que a CDU tentou evitar.

Atira farpas da esquerda à direita, sem poupar o antigo presidente de câmara Joaquim Ramos que era “um habilidoso a vender ideias”. Sobre a presidente de Junta de Azambuja, a socialista Inês Louro, diz que já “perdeu a credibilidade” e, quanto ao PSD, afirma que não é das suas políticas que Azambuja precisa.

António Nobre recebeu O MIRANTE a 4 de Setembro, a poucas horas de ter início a polémica Festa do Avante deste ano, a que não compareceu. A conversa começou por aí.

Este ano foi à Festa do Avante, organizada pelo PCP?

Não. Se lá fosse ajudaria a violar as regras da Direcção-Geral de Saúde. O PCP é um partido com muita militância e se fossemos todos não se cumpriria a lotação aprovada.

Esse evento foi avante debaixo de fogo. O PCP devia ter recuado?

Foi uma opção política arriscada. Nada a que o PCP não esteja habituado. Quem devia ter recuado era o PSD no ataque a um partido, pondo em causa a sua liberdade de actuação política e a Constituição da República.

Quando iniciou a sua actividade política, em 1997, já o PS governava Azambuja há 12 anos. Porque se juntou à CDU?

Sempre fui um homem de esquerda, mas o PS não é um partido que me interesse. O PCP e a CDU seduziram-me pela honestidade com que fazem política. E neste meu percurso ninguém me pode acusar de não ter sido honesto ou de prometer e não fazer.

É esse um erro comum dos políticos: prometer e não cumprir?

Devem prometer, mas têm de mobilizar recursos para cumprir. Neste concelho muitas promessas ficam pelo caminho, outras são cumpridas fora de tempo e outras que são cumpridas a CDU discorda delas.

De quais discorda?

Da privatização do abastecimento de água, por exemplo. Logo ao segundo ano a empresa concessionária vem pedir reequilíbrio financeiro, as tarifas disparam e o PS, capitaneado por Joaquim Ramos, escondeu o problema. Onze anos depois, o consumidor continua a pagar preços muito elevados, tem mau serviço, mas a concessionária tem feito os investimentos contratualizados.

Qual era a proposta da CDU?

O município investir no sector à semelhança do que faz a maioria. Mas o PS quis transformar a Câmara de Azambuja numa sociedade gestora que entrega trabalhos a privados. Com a recolha de resíduos é a mesma coisa e ainda tem de complementar o serviço com o seu orçamento. Mas aí também falta uma política de sensibilização. Há pouca separação de lixo e isso gera problemas com os aterros.

O aterro de Azambuja era um problema que podia ter sido evitado?

Claro. Nem lembra ao careca fazer um aterro sanitário junto a uma urbanização. Mas vinha embrulhado num papel de celofane muito bonito e não ia trazer problemas, porque só ia ser depósito de resíduos industriais e ainda fazia a recuperação paisagística do buraco deixado por uma empresa falida e sem património.

Era vereador da oposição CDU nessa altura...

Era. Votei contra e avisei que era um erro que estava a ser pintado a ouro por Joaquim Ramos, que com o seu fino trato era um habilidoso a tentar vender uma ideia. O executivo de Luís de Sousa continuou o legado ao aprovar o licenciamento urbano e agora que já têm de tudo metido lá dentro, inclusive lixo orgânico, é que acordam e começa uma batalha jurídica.

Uma batalha que só acontece devido aos protestos dos cidadãos?

Claro. É um problema que não dá para esconder debaixo do tapete. No entanto, a população andou a dormir porque o problema nasceu em 2008. Só quando lhe caiu em cima é que acordou.

Este despertar pode sair caro ao PS quando a população for às urnas em 2021?

Não sou adivinho, mas a julgar pelos últimos anos os eleitores de Azambuja gostam do cheirinho.

Não parece confiante numa mudança política...

Azambuja ganhava com isso, mas se fosse uma alternativa à esquerda. O PSD não é o que este concelho precisa, embora enquanto oposição tenha uma postura mais aberta e cuidadosa para não hostilizar um eleitorado que é desconfiado da direita.

Candidatos à esquerda temos para já anunciado o socialista Silvino Lúcio. Pode dar um bom presidente?

Sobre o Silvino não vejo nele grandes qualidades, mas como tem influências no partido conseguiu a sua ascensão política. E também não estou a ver o PS a pôr cristãos novos a encabeçar a lista.

Refere-se a António José Matos?

A carapuça serve a quem a enfiar.

E quanto à CDU?

A Mara Oliveira pode ser uma boa candidata, caso David Mendes não esteja interessado.

Diz-se que de família e de clube não se muda. De partido também não?

Infelizmente tem acontecido com alguma frequência neste concelho. Provavelmente pensam que no PS têm mais hipóteses de ascender a um cargo político, mas isso traz dissabores. O aterro, por exemplo foi contrariado por António José Matos (PS) quando estava com outra camisola (PSD) e agora engole o sapo.

Na última assembleia municipal opôs-se à instalação de uma empresa de logística no concelho. Porquê?

A plataforma de logística de Azambuja emprega muitos trabalhadores, mas falha ao só usar o transporte rodoviário quando tem ao lado uma linha de caminho de ferro. A câmara municipal tinha o dever de incutir-lhes isso.

Mas neste caso a nova empresa até acordou com o município comparticipar a construção de uma rotunda na Estrada Nacional 3...

Isso é um paliativo, não resolve o tráfego de pesados que é o grande problema. A presidente de Junta de Azambuja [Inês Louro, que integra a Plataforma EN3, movimento que luta contra a sinistralidade na Nacional 3] bem pode pôr velinhas e fazer vigílias que não adianta quando depois aprova a instalação de uma operadora que vai incrementar o trânsito de camiões numa via saturada deles. Com esta contradição perdeu a credibilidade.

“Alcoentre tem sido maltratada e vive miseravelmente”

Vive em Alcoentre desde que nasceu. Como vê a freguesia 61 anos depois?

Alcoentre tem sido muito maltratada pelo PS, está carente de investimento. Nesta freguesia não se gasta dinheiro a não ser nos chamados tapetes de alcatrão eleitorais.

Mas está em marcha uma estratégia local de habitação, através do programa do Governo 1º Direito, e a cedência dos fogos devolutos...

Tenho receio desse tipo de políticas. Há muitos anos que o município fala da recuperação desse património deixado ao abandono pelo Estado, mas a verdade é que continuamos a não ter uma política de habitação social. A resposta que é dada à CDU é, mais uma vez, que o mercado resolve.

Militar e advogado, até chegar à política

Nasceu em Alcoentre, freguesia do concelho de Azambuja onde vive e tem um dos seus escritórios de advocacia. Além da profissão que exerce há 30 anos mantém um percurso na política local desde 1997, ano em que concorreu pelas listas da CDU à assembleia municipal. Filiou-se anos mais tarde. Foi duas vezes candidato a presidente de câmara, em 2003 e 2009, tendo conseguido ser eleito vereador. Nas últimas duas autárquicas concorreu à Junta de Alcoentre, mas também aí perdeu para o PS, ficando como eleito na assembleia de freguesia e na assembleia municipal.

É casado há 37 anos e tem dois filhos. Durante 16 anos foi militar na Força Aérea Portuguesa, antes de se licenciar, porque “tinha de arranjar dinheiro para estudar”. Faz compras no comércio local e vai ao café todas as manhãs. No caminho, às vezes, encontra o presidente de câmara que também ali habita. “Damos umas caneladas um no outro a falar de política, mas damo-nos bem”, diz. Já foi presidente da assembleia dos Bombeiros de Alcoentre, mas não é adepto do associativismo porque choca com a sua actividade política. “Fica-se impedido de votar e acaba-se por prejudicar a associação”, justifica.

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