Entrevista | 14-10-2020 15:00

A oposição política em Tomar chama-se Célia Bonet

A oposição política em Tomar chama-se Célia Bonet

Célia Bonet é bancária, presidente da Cáritas de Tomar e vereadora do PSD na oposição à maioria socialista liderada por Anabela Freitas.

Nas sessões camarárias é o elemento que mais se opõe na hora de discutir e votar propostas. Apesar de representar os social-democratas não é filiada no partido porque, diz, o seu pensamento é independente de ideologias políticas. Aos 53 anos reconhece que as pessoas olham para si como uma mulher sisuda e antipática, embora, na realidade, a empatia e boa disposição façam parte das suas características. Em entrevista a O MIRANTE afirma que fazer parte da oposição no executivo camarário é ingrato e que se sente muitas vezes a falar para o boneco.

É bancária, presidente da Cáritas de Tomar, e vereadora do PSD. O que é que lhe tira mais o sono?

A Cáritas. Comecei como voluntária há uma dezena de anos. Sou presidente há sete. Desde que faço parte deste projecto comecei a dar mais valor aos problemas das pessoas. Aqui eles são reais e eu levo-os comigo para casa.

Como é que avalia o ditado: em vez de dares o peixe dá a cana de pesca?

É o nosso lema da Cáritas. Não é fácil conseguir fazer com que as pessoas trabalhem para conquistar algo. Na instituição queremos que os utentes saibam que para serem ajudados têm de merecê-lo. Embora saibamos, obviamente, que há pessoas que não conseguem fazê-lo pelas circunstâncias da vida. Mas fico sempre feliz quando temos um utente que consegue orientar-se e tornar-se autónomo. É sinal que conseguimos ensiná-lo a pescar.

Quantas pessoas apoia a Cáritas?

Cerca de 750 utentes. Desde Março duplicámos o número de utentes, por força da pandemia. Temo que até final do ano cheguemos aos mil. O nosso orçamento, cerca de 200 mil euros, tem sido suficiente. Veremos no futuro.

Ser presidente da Cáritas é um exercício de poder?

Sim, mas é um poder do lado do bem. Desde que me tornei mais conhecida consigo coisas para a instituição que não conseguia anteriormente. A Cáritas não apoia apenas em bens alimentares. Damos apoio psicológico, orientamos famílias endividadas, ajudamos estudantes com materiais escolares, oferecemos roupas, mobílias, entre outras coisas.

O desemprego é o maior problema desta altura?

É um dos grandes problemas de hoje . Não só pela questão financeira, mas sobretudo pela questão psicológica e familiar. Posso dizer-lhe que desde o início da pandemia apareceram pessoas que nunca tinham pedido ajuda. Empresários que tinham uma vida de sucesso, por exemplo.

As pessoas sentem-se envergonhadas quando pedem ajuda?

Em muitos casos sim. Muitas vezes estamos a fazer distribuição de alimentos e temos pessoas na fila a chorar. Algumas vão-se embora e não comem. Tal como já disse, os problemas aqui são mesmo reais.

Trabalha como bancária. Imagino que, também aí, lhe cheguem muitos pedidos de ajuda.

Agora mais do que nunca. É preciso estômago para trabalhar no sector bancário. Eu gosto muito do que faço, mas estou constantemente sob pressão.

Porquê?

Não posso falar da minha vida profissional, mas dou-lhe um exemplo: os meus clientes investem no mercado financeiro - ouro, acções e fundos - e há casos em que de um momento para o outro ficaram sem nada.

E culpam-na?

Não. Eu explico muito bem o que tenho de explicar. Em 25 anos nunca tive um único problema com um cliente. Mas confesso que fico triste quando alguém perde parte importante do seu património.

“NAS REUNIÕES DE CÂMARA SINTO-ME A FALAR PARA O BONECO”

Está desiludida com a política em Tomar?

Não estou desiludida porque nunca tive grandes ilusões. Entrei na política em 2017. Sou independente, apesar de representar o PSD. Sempre tive um sentido muito crítico em relação às políticas de Tomar. Esta gestão socialista desde que tomou posse, em 2013, não fez outra coisa a não ser regularizar contas. Os outros concelhos também o fizeram e não pararam no tempo. Agora, a um ano das autárquicas, começaram a requalificar a Várzea Grande e a Avenida Dom Nuno Álvares Pereira.

Qual é a razão de ser a única, do seu partido, que vota contra as decisões do executivo?

O Luís Delgado e o Luís Ramos têm feitios diferentes do meu, formas diferentes de estar na vida política. Eu penso pela minha cabeça. Não vou votar favoravelmente uma coisa que acho que está errada. Ajuda o facto de não ter ambições políticas rigorosamente nenhumas. O meu interesse é ver Tomar voltar a ser o que já foi.

O que fazia de diferente?

Preocupava-me fundamentalmente com a captação de empresas. Se houver emprego, tudo o resto cresce. O executivo diz que investe muito na área social. Acho até ridículo dizerem isto. Não há habitação social digna, os bairros que existem foram construídos há dezenas de anos. Experimente ir ver uma das habitações para ver o estado em que as famílias vivem.

As propostas que o PSD leva às reuniões têm continuidade?

Quase nunca. Uma das primeiras foi tentar arranjar forma de dinamizar o mercado municipal. De ano para ano tem perdido clientes e importância. Actualmente, as pessoas vão ao mercado do Entroncamento ou de Ourém. A Zona Industrial de Tomar também está completamente ao abandono. Qualquer pequena vila no Ribatejo tem melhores condições para as empresas do que Tomar.

É ingrato estar na oposição?

Às vezes sinto-me a falar para o boneco. O trabalho da oposição é fundamental para o bom funcionamento das autarquias. Mas é preciso haver abertura de quem preside. Por exemplo, desde o início que defendo a elaboração de um plano de desenvolvimento a médio-longo prazo para Tomar. Nunca tiveram em conta esta ideia. O executivo preocupa-se mais em levar para as sessões camarárias a aprovação de ofertas de caixas de fósforo, folhas de papel, cedência de materiais, entre outras, às associações. As coisas que são verdadeiramente importantes, deixam-se de lado.

Pertence a um executivo onde há três mulheres. É feminista?

Não sou de todo. Concordo que as mulheres ainda não têm as mesmas oportunidades que os homens. Mas isso conquista-se com o tempo e por mérito próprio. Lembro-me da Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, querer mudar o cartão de cidadão para cartão de cidadania. É com esse feminismo bacoco que eu não me identifico.

Estamos a um ano das autárquicas. Qual vai ser no futuro o seu papel na política em Tomar?

Não sei muito bem. De uma forma geral não me revejo na política, nas políticas dos partidos, apesar de ser uma pessoa assumidamente de direita. Se houver um projecto que me interesse talvez pense em continuar. Mas, sinceramente, estou mais inclinada para sair deste mundo.

O que não lhe perguntei que gostava de responder?

Depois de ter feito tantas perguntas…(risos) Gostava de deixar claro, que um dia que deixe a Cáritas quero deixar a instituição melhor do que a encontrei. Quero ser justa e ajudar o maior número de pessoas possível. Esse é o meu grande objectivo como cidadã empenhada nas coisas da minha terra.

Tomar tem muito potencial mas está mal aproveitado

Depois de ter vivido os primeiros sete anos de vida em Moçambique, Célia Bonet regressou à cidade que a viu nascer. Já adulta, licenciou-se no ISEG, em Lisboa, tendo regressado novamente à cidade templária para dar aulas de Matemática. A experiência durou pouco mais de um ano. Entretanto começou a trabalhar na banca e lá continua 25 anos depois. Mãe de dois filhos, o Guilherme e o Gabriel, confessa que uma das coisas que mais a entristece é viver numa cidade que tem um potencial enorme mas muito mal aproveitado. “Não há muitas cidades que têm um rio a atravessá-la. Há poucos espaços lúdicos, os jardins estão mal cuidados. São pequenos pormenores que fazem toda a diferença em quem visita Tomar”, afirma.

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