Entrevista | 18-10-2020 10:00

As tecnologias, o sol e a diabetes são as grandes preocupações dos oftalmologistas

As tecnologias, o sol e a diabetes são as grandes preocupações dos oftalmologistas
SOCIEDADE

Diogo Cavalheiro, médico oftalmologista do Hospital CUF Santarém.

A 8 de Outubro assinalou-se o Dia Mundial da Visão, um dos cinco sentidos que as pessoas mais temem perder. Por isso é importante ter alguns cuidados para se manter um boa visão e cumprir um calendário de rastreios, em que se deve ir a uma consulta com o médico oftalmologista a cada dois anos. Esta é a melhor forma de se detectarem doenças precocemente e tratá-las mais cedo com melhores resultados. Cabe a cada um fazer por manter a saúde visual, com uma alimentação rica e variada, evitando exposições ao sol sem óculos escuros e moderando a utilização das tecnologias.

O que podemos fazer para ter uma boa visão?

Devemos estar atentos aos sintomas visuais anormais e recorrer quando necessário ao médico oftalmologista, fazer uma observação de rotina, um rastreio periódico. Depois deve haver moderação na utilização das tecnologias. A maior parte dos ecrãs são emissores de uma luz azul que pode ser prejudicial para os olhos, nomeadamente a retina e cristalino.

Vale a pena utilizar filtros para os ecrãs?

Nos óculos é possível aplicar um filtro que elimina a maioria da luz azul, mas não devemos fiar-nos apenas nos filtros, até porque a maioria da população não é utilizadora de óculos.

Há mais crianças a necessitarem de óculos?

Essa questão não está completamente clara, mas há essa noção que pode resultar de duas coisas, o aumento do número de diagnósticos ou o aumento de situações que levam as crianças a usarem óculos. A maior parte das crianças não precisa usar óculos. Há estudos que dizem que apenas três por cento necessitam de óculos, há outros que vão até aos 17 ou 18 por cento.

De que forma o nosso modo de vida proporciona o aparecimento de doenças oftalmológicas?

A maior parte das doenças são multifactoriais, há várias coisas que contribuem para o seu aparecimento. A primeira é a genética. Depois há coisas que fazemos que podem influenciar. Por exemplo profissões com maior exposição à luz solar estão mais susceptíveis de terem doenças de retina ou cataratas, já que a luz acelera a sua formação. A diabetes, por exemplo, depende do nosso estilo de vida, da alimentação, controlo do peso, hábitos tabágicos e pode ter consequências a nível oftalmológico. Uma alimentação variada é a solução para quase todas as doenças.

Mas há alguma doença particularmente afectada pela alimentação?

Existe uma doença em particular, a degenerescência macular da idade (DMI), em que se pensa que existem factores nutricionais que podem influenciar o seu aparecimento. Nomeadamente deficiência no consumo de ácidos gordos, presentes em peixes como a sardinha, cavala ou atum, e pigmentos fundamentais à retina, como os que existem nos frutos vermelhos. A doença não tem cura e o que fazemos é detectá-la e tratá-la precocemente. Há vinte ou trinta anos levava frequentemente à cegueira e hoje conseguimos parar a doença e fazer com que a pessoa fique a ver.

Os óculos de sol são realmente importantes?

Devemos pensar nos óculos de sol como pensamos no protector para a pele. Não conseguimos ter outra maneira de proteger os olhos dos raios ultravioleta. Sempre que estamos expostos à luz solar devemos cuidar dos nossos olhos. Um bebé ou criança que vá à praia deve usar óculos de sol como um adulto.

Neste período de pandemia nota-se que as pessoas estão a ir menos ao oftalmologista?

Sentimos uma diminuição no período mais crítico. Mas neste hospital está-se a perder o medo de ir ao médico e há muita gente a vir às consultas, mais até do que esperaria.

E em situações normais as pessoas cumprem o período em que devem ir à consulta?

Há uma tendência para aumentarem o espaçamento entre consultas. Está estabelecido que a cada dois anos uma pessoa que não tenha uma doença oftalmológica conhecida deve fazer uma consulta de rotina. Cumprir este calendário é importante para se detectarem situações precocemente.

Quais são os principais problemas de visão com que lida?

Temos três grupos de doenças com que nos preocupamos mais. A ambliopia que é um problema de cinco por cento das crianças, em que um olho anatomicamente normal não aprende a ver, e tem de se tratar nos primeiros dez anos de vida. A questão da diabetes que tem uma expressão muito grande no nosso país e um terço destes doentes terá problemas de visão, que podem ser tratados se houver acompanhamento. O outro tem a ver com as cataratas, que afecta muita gente e que se trata facilmente.

E a miopia?

É uma doença com alguma incidência, mas não é a principal. A maior parte resolve-se com a utilização de óculos.

As cirurgias laser são uma boa solução para a miopia?

Considero que é mais uma cirurgia de conforto, que é feita a quem consegue ver bem com óculos, mas que não os quer usar, porque não gosta, porque a sua profissão dificulta a utilização de óculos… E isso são razões válidas. Esta não é uma cirurgia curativa. A pessoa não vai ver melhor do que veria com óculos. A miopia não é uma doença que exija uma cirurgia.

As consultas nas ópticas podem ser uma opção?

Estas consultas não substituem uma consulta de oftalmologia. Mesmo que a consulta no médico resulte em receitar óculos, ela no fundo não é só isso, porque houve uma observação da estrutura ocular.

Tecnologia de ponta na operação às cataratas e uma equipa diferenciada

O Hospital CUF Santarém distingue-se por usar uma tecnologia de ponta a nível nacional no tratamento das doenças oculares, sobretudo nas cirurgias às cataratas. Neste momento os doentes do Serviço Nacional de Saúde estão a beneficiar de equipamento de ponta nas operações às cataratas, uma vez que o hospital começou em Setembro a operar doentes do público no âmbito do programa de redução de listas de espera. O médico oftalmologista Diogo Cavalheiro diz que o balanço, até ao momento, é positivo e que os doentes estão satisfeitos com a rapidez. Desde que a pessoa é vista no hospital até à operação demora-se poucas semanas.

É o único hospital no distrito que tem um sistema de visualização digital na cirurgia da catarata. O cirurgião, na altura de fazer as incisões para colocar a lente, não tem de estar a fazer medições. O equipamento é que diz onde se faz a incisão e como se coloca a lente. Isso dá mais segurança e rigor na operação. A unidade foi também a primeira do grupo hospitalar a utilizar uma tecnologia de ponta a nível nacional, que permite manter a estabilidade do olho durante a cirurgia. O sistema faz com que a pressão dentro do olho seja mantida de uma forma pré-defina e vai compensando as flutuações da pressão ocular.

Diogo Cavalheiro refere que houve um grande investimento neste hospital, desde 2015, também na área dos recursos humanos. Passou de cinco para 14 médicos e há mais dois prestes a reforçarem a equipa, que, por ser diferenciada, cobre as subespecialidades da oftalmologia.

Uma das áreas em que o hospital se diferenciou foi na cirurgia da catarata. Há 20 anos a cirurgia consistia em tirar a catarata e colocar uma lente intra-ocular. Hoje aproveita-se a operação para eliminar a necessidade de usar óculos para ver ao longe e eventualmente para ver ao perto. Uma coisa que exige lentes especiais e equipamentos altamente tecnológicos no bloco operatório, bem como médicos com grande formação na área.

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