Entrevista | 26-10-2020 15:00

“Sempre fui mulher mas vivi acorrentada num corpo de homem”

“Sempre fui mulher mas vivi acorrentada num corpo de homem”
SOCIEDADE

Maria João Vaz é transexual, activista, feminista, actriz e antiga encenadora do grupo de teatro da Sociedade Filarmónica de Santo Estêvão.

À nascença os órgãos genitais masculinos ditaram que seria um homem, mas mais de 50 anos depois libertou-se e fez-se mulher. Feliz no seu novo corpo, falou a O MIRANTE do tempo em que se escondeu das filhas dentro do armário vestida de mulher, do preconceito e do processo lento num país onde a transição começa num hospital psiquiátrico.

Maria João Vaz sentia-se uma mulher presa num corpo de homem. Desde a infância que sabia que era diferente das outras crianças, mas ninguém lhe explicava o porquê. Não percebia porque gostava de trocar de sapatos com as meninas do colégio, ou chegar a casa e vestir as roupas da mãe, usar a sua maquilhagem e pôr os seus brincos de mola nas orelhas. Eram uma “espécie de sintomas” que lhe davam “uma enorme sensação de orgulho e prazer”. O irmão tentava defendê-la do bullying físico e verbal. E se crescer não foi fácil, assumir que era mulher transexual também não. Só em 2018, aos 54 anos, depois de um casamento e três filhas, decidiu mudar de vida e iniciar o processo para se tornar mulher.

Os passos até ao nosso encontro são tímidos como os de quem caminha numa sociedade onde o preconceito é terreno minado. As roupas são coloridas para contrariar o dia chuvoso e a maquilhagem, marcada por um risco a lápis preto nos olhos, não é dispensável quando sai à rua. “Sou mais confiante assim. Sinto-me livre e feliz como nunca me senti em toda a minha vida. Sempre fui mulher, mas vivia fechada num corpo de homem”, diz. Para depois vincar que há nela “uma mudança efectiva” e que não é “um homem vestido de mulher”.

Há sete anos vivia em Santo Estêvão, Benavente, com o nome de João Vaz, um género e um corpo que não correspondiam à sua vontade. “Quando olho para o passado vejo uma pessoa mais velha”, conta, como se o João “fosse um amigo que não se vê há muito tempo”. A vida era dupla. Como homem na presença da ex-mulher e das três filhas, e como mulher na sua ausência. “Bastaria entrarem em casa repentinamente para me encontrarem lá assim, como estou hoje”. Se me tivessem descoberto, “talvez tivesse sido logo posta fora de casa”.

Maria foi o nome próprio que escolheu para o novo registo. E o novo corpo é o resultado dos tratamentos hormonais que estreou na rua em Maio vestida de mulher, depois do confinamento devido à pandemia de Covid-19. Para já não há cirurgias. Há somente um corpo depilado, um rosto onde a barba vai perdendo força e as mamas vão crescendo. “Tive uma segunda puberdade, mas feminina, no corpo e na mente. Ver o meu corpo mudar trouxe-me a felicidade permanente. Do lado de dentro fui sempre a mesma, mas agora vivo livremente”, afirma, enumerando vantagens desta revelação, tais como poder comprar roupa com a filha mais velha, de 27 anos, com quem vive, em Lisboa.

As filhas e a namorada, à época, foram as primeiras a quem contou que era o que sempre foi, mas tinha medo de assumir: uma mulher transexual. Depois souberam os irmãos, a mãe e os amigos. “Houve aceitação e tentativas de compreensão”, mas, reconhece, não é um processo fácil de assimilar para quem não o vive. “Sei que querem aceitar, mas é involuntário compararem-me ao que era no passado. Há partes de mim que não compreendem”, conta. Sobre as filhas, acrescenta: “São uma projecção de mim por quem tenho um instinto paternal. Vou sempre ser o pai delas”.

Diz-se feminista, activista e o que mais detesta são “injustiças, violência e intolerância”. Não tolera pensamentos machistas nem sedes de poder. Já foi assediada na rua e não gostou. Namoradas ou namorados - “porque não consigo catalogar a minha orientação sexual” - há muito que não os tem porque vive focada na sua transição, onde o “amor não tem urgência”.

Regresso a Santo Estêvão e a actriz do “Tou Xim é pr’a mim”

Há anúncios que ninguém esquece, como o famoso “Tou xim é pr’a mim” que publicitava a Telecel, com João Vaz, agora Maria Vaz, na pele de pastor, e entrevistas que como mulher transexual gostava de apagar da memória. Uma delas foi dada a O MIRANTE, em 2011, dois anos antes de deixar a aldeia de Santo Estêvão. “Não gosto de me rever nessa entrevista, aquilo era um invólucro, não era eu. Quanto ao anúncio, sim, ainda há pessoas que me identificam como a actriz do Tou Xim”.

Enquanto actriz, Maria João Vaz soma papéis em novelas, séries televisivas, participação em filmes e peças encenadas por Jorge Silva Melo, como O Campeão do Mundo Ocidental (2011), e Doce Pássaro da Juventude (2015). Todos antes de se afirmar como transexual. “Agora ando a responder a anúncios para fazer teatro, mas também para lojas e restaurantes. Preciso de trabalhar”, diz, confessando que se tem governado com um pé de meia que está quase a acabar.

Como mulher transexual sabe que a carreira de actriz não ficou mais facilitada. “Só se for para papéis como transexual” ou como mulher. Até porque, explica, não se sente “à vontade para fazer um papel masculino” no teatro e voltar a ser mulher no camarim. “Não quero perpetuar a minha imagem masculina e, além disso, faz parte da minha responsabilidade perante o mundo, de defender a comunidade transexual”, explica.

Regressar a Santo Estêvão para viver está fora de questão, mas em cima da mesa está um regresso à distância para trabalhar textos do grupo de teatro da Filarmónica, onde foi encenador e tocou trompete na banda.

O processo lento e desorganizado num hospital psiquiátrico

Numa altura em que é simples e gratuito mudar de nome e género no registo civil, Maria João insurge-se contra “as etapas uniformizadas” a que todos os transexuais têm de se sujeitar. Sobretudo no que toca ao tratamento psiquiátrico no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, antigo Hospital Júlio de Matos.

“Posso dizer que me sinto a ser tratada como uma maluquinha e isso é muito violento, magoa e só demonstra como o Estado português olha para os transexuais”, afirma, descrevendo que é entre as consultas de pessoas com graves patologias mentais que é atendida.

Além do lugar, critica o método “uniforme e desorganizado” que “atrasa o processo” a quem tem certezas do que quer mudar em si. “Percebo por um lado, se forem jovens, para os proteger e lhes tirar dúvidas se aquilo pelo qual estão a passar é uma fase, o que raramente acontece. Em casos como o meu não compreendo”, refere para depois se lançar noutra crítica que a apoquenta: “Quem são aquelas pessoas para delas depender a minha transição?”.

O caso de Maria João foi um dos considerados rápidos no Sistema Nacional de Saúde (SNS) mas, garante, há casos que são um autêntico pesadelo. Quem tem recursos financeiros recorre ao privado, ou, como já viu acontecer, tenta angariar o suficiente em campanhas de crowdfunding, na Internet, para “iniciar o processo”, longe do SNS.

Maria João diz estar “aberta a fazer mais alterações no corpo”, mas para já olha-se ao espelho e gosta do que vê. “É tudo muito recente e ainda me estou a adaptar, mas não me fecho a nada”. Quanto à genitália, refere apenas: “É privada”.

“Há mulheres transexuais que só sentem a transição completa quando mudam a sua genitália, outras não, mantêm-na. O que importa à sociedade é perceber que cada um põe e faz do corpo o que quer”, afirma. O que não lhe agrada, mais uma vez, é que para mudar de sexo em termos cirúrgicos ou realizar outras cirurgias seja preciso o aval da Ordem dos Médicos. “Isso é aceitável para gente jovem, não para pessoas maduras e vividas como é o meu caso”, salienta.

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