Entrevista | 20-12-2020 07:00

“Uma empresa é como um barco, temos de estar sempre a corrigir o rumo”

“Uma empresa é como um barco, temos de estar sempre a corrigir o rumo”
TRÊS DIMENSÕES

José Louro Henriques, 74 anos, sócio gerente da Xiraplás, Vila Franca de Xira.

José Louro Henriques é um rosto conhecido de Vila Franca de Xira, cidade onde nasceu. Trabalhou na Venezuela e quando voltou a Portugal criou em Vila Franca de Xira a Xiraplás, empresa ligada ao ramo da fibra de vidro que já exporta para todo o mundo. Abomina a mentira e elege a responsabilidade, seriedade e humildade como valores fundamentais da sua vida. Fica triste por ver o estado actual da cidade e diz que os responsáveis municipais do turismo não sentem a cidade.

Tive uma infância solitária. Sou vilafranquense de gema e os meus pais sempre viveram em Vila Franca de Xira. Sou o mais novo de quatro irmãos que foram cedo para o estrangeiro. Passei por algumas dificuldades e por causa disso fiz a quarta classe e fui logo trabalhar. O meu primeiro trabalho foi a distribuir tabaco num depósito que existia na cidade. Dava a volta às tasquinhas todas. Depois fui para uma carpintaria. Foi lá que aprendi a trabalhar antes de ir cumprir o serviço militar.

Casei em 1970 e a minha esposa tinha os pais na Venezuela, para onde acabei por emigrar. Foi aí que vi uma luz ao fundo do túnel. Sempre fui uma pessoa ambiciosa e o trabalho nunca me meteu medo. Sempre quis ter algo mais. Ter ido para a Venezuela foi o melhor que podia ter feito. Hoje seria impensável. Estive nove anos a trabalhar no ramo da fibra de vidro. Regressei em 1980 com algum dinheiro e experiência. Absorvi muito boa informação e trabalhei a fibra com a escola italiana. Tenho muito respeito pelos italianos, são muito criativos. Quando cheguei abri um ateliê de cerâmica em Vila Franca de Xira com a minha mulher, mas não dava lucro e acabei por desistir. Foi então que nasceu a Xiraplás, dedicada à fibra de vidro.

Sem trabalho não se faz nada e quem pensar que tudo cai do céu está muito enganado. Sou uma pessoa responsável, séria e humilde, mas sobretudo trabalhadora. Uma empresa é como um barco, temos de estar sempre a corrigir o rumo que levamos. Dá-me um gozo e orgulho enorme ser desta cidade e ver os nossos produtos a seguirem para todo o mundo. Isto só se consegue com sacrifício. Temos hoje 30 trabalhadores mas chegámos a ser uma centena.

Sou um empresário que resiste e não desiste. Um empresário sozinho não vai a lado nenhum. Se estivesse sozinho já cá não estava. Somos uma equipa. Em 2008, a juntar-se à crise financeira, tive de enfrentar a morte da minha esposa. Foi algo que me deixou de rastos. Foi muito difícil. Valeu-me a minha filha, Ninoska, que me deu força para recomeçar. Hoje ela é o meu braço direito.

Ainda consigo ter tempos livres e gosto muito de praia. Tenho uma casa no Algarve da qual gosto muito. Sou muito aficionado e adoro as festas da minha cidade como o Colete Encarnado. Gostava de viajar para fora, estou muito virado para a América do Sul. Gostava de voltar à Venezuela mas neste momento é impossível. Gostava de visitar o México e o Chile. Fumar um charuto, conviver com amigos, ver umas corridas de toiros e acompanhar o meu Sporting são outros dos meus prazeres na vida.

Já leio O MIRANTE há vários anos. É o jornal que nos mantém informados sobre tudo o que se passa no Ribatejo. À noite, com calma, esquecendo o stress, aproveito para ler e ficar informado. Mas gosto mais de ler em papel.

Para mim é uma tristeza ver o estado em que está Vila Franca de Xira. Irreconhecível. Não quero entrar em políticas mas quem tem passado pela câmara não tem feito muito pela cidade mas sim por Alverca. É uma pena porque os vilafranquenses merecem mais. É uma terra aficionada e trabalhadora que hoje é um dormitório. Tenho uma pena enorme de ver tantas casas fechadas. Havia imensos restaurantes e hoje não existem quase nenhuns. Um dos sectores em que a câmara tem falhado é o turismo. Quem está à frente do turismo não sente Vila Franca de Xira.

Não é nada fácil ser empresário neste país e nunca precisei de nada do Estado. Zero. Tenho sido sempre eu sozinho. Conforme fui ganhando fui investindo na empresa. Estamos há meses à espera de licença da câmara para fazer um novo pavilhão e ampliar a empresa. Já perdi pelo menos um trabalho grande porque não temos capacidade física para o aceitar. Estou um pouco desapontado com isso porque tudo leva muito tempo e muita burocracia na câmara. Temos de continuar a lutar...

A pandemia não é boa para ninguém mas tenho muita esperança na vacina. Estou convicto que mais mês menos mês vai aparecer uma solução. Enquanto puder quero continuar a trabalhar. Há momentos em que passo pela cidade e vejo pessoas sentadas no largo da câmara sem fazer nada, aquilo faz-me imensa confusão, não tenho feitio para isso. Enquanto puder dar apoio na empresa cá estarei.

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