Entrevista | 08-02-2021 15:00

Portugal tem rede de cuidados de saúde mental muito precária

Portugal tem rede de cuidados de saúde mental muito precária

Filipa Martinho é psicóloga e presidente de A Farpa há cerca de dois anos. A Associação de Familiares e Amigos do Doente Psicótico de Santarém iniciou o projecto “InclusivaMente”, que faz intervenção psicológica ao domicílio. Os casos de ansiedade, depressão e stress aumentaram com a pandemia.

De que forma a pandemia afecta a saúde mental?

Já éramos um dos países identificados por ter muitas perturbações a nível mental. Casos justificados pela precariedade social, pobreza e o facto de muitas pessoas viverem isoladas e até de alguma falta de competência em termos de resiliência. Com a pandemia a situação agravou-se.

Os pedidos de ajuda aumentaram nos últimos tempos?

Com a pandemia as solicitações dispararam. Há imensa gente a precisar de apoio. Temos uma equipa que vai aos concelhos onde temos implementado um novo projecto (ver caixa). Os casos são previamente sinalizados pela ARS e chegam-nos para fazermos intervenção. Inicialmente, o nosso apoio era mais virado para a parte ocupacional. Reaprender a ter rotinas, gerir o seu tempo, ajudar a inseri-las em algumas actividades na comunidade.

O tipo de ajuda que vos pedem agora é diferente?

Os problemas que agora surgem são sobretudo exaustão emocional, as pessoas sentirem-se perdidas, sem saberem como lidar com a situação. Umas perderam o emprego, o que agrava a situação económica. Há toda uma conjuntura que não ajuda.

As pessoas já não têm medo da Covid-19?

Houve uma primeira fase de medo, durante o primeiro confinamento no ano passado. Agora estamos numa fase em que as pessoas já não têm paciência para lidar com a situação. Existe a chamada fadiga pandémica. As pessoas já estão habituadas a ouvir o número de mortos e de infectados. Isso justifica também que seja nas faixas etárias mais jovens que as infecções estão a aumentar. Os mais novos acham que nada lhes acontece mesmo que sejam infectados. O que não é verdade.

Como é que o distanciamento físico e a falta de afecto prejudicam a saúde mental?

O ser humano é de afectos e os portugueses gostam de afecto e proximidade. Gostamos de convívio e tem sido uma grande dificuldade para muitas pessoas não poderem fazê-lo. Não sei se depois disto passar vamos voltar a ser um povo de tantos abraços e afecto. Acho que a pandemia vai deixar marcas no relacionamento humano e nas relações interpessoais.

É fácil ter acesso a cuidados na área da saúde mental?

Em Portugal há uma rede de cuidados de saúde mental muito precária. É muito difícil uma pessoa ter acesso a cuidados nesta área, já para não falar no estigma e todos os problemas associados. Não temos uma estrutura no Serviço Nacional de Saúde em que haja um fácil acesso a um psicólogo. Não existe também uma cultura em que uma ida ao psicólogo seja tão normal como ir a outro médico. Infelizmente, ainda há o estigma de que quem vai ao psicólogo ou ao psiquiatra está maluco.

Há muitas pessoas a medicarem-se com ansiolíticos e antidepressivos.

Existe uma percentagem muito grande de pessoas que se auto-medicam. Muitas vezes começam com prescrição médica e depois criam um hábito para o resto da vida. O problema não é começar. Perigoso é não conseguir deixar de tomar, porque se torna um vício.

Em que fase da vida podem começar os problemas mentais?

Há fases do desenvolvimento muito importantes. Problemas que surgem na fase adulta tiveram por base a adolescência. Por norma, a maioria dos problemas conhecidos da doença mental surgem na fase adulta mas muitos têm antecedentes. O bullying na infância ou adolescência pode ser um factor potenciador de uma doença mental no futuro.

Os mais jovens estão preparados para enfrentar as dificuldades e contrariedades da vida?

Têm mais dificuldade em lidar com a frustração. Se compararmos a nossa geração com a actual existem muitas diferenças. São tecnologicamente muito mais avançados mas depois há um conjunto de dificuldades em relação à autonomia e à capacidade de resolução de problemas. Têm que ser os pais a ensinar este tipo de competências, porque não é na escola que as vão desenvolver. Também têm que ser os pais a ensinar um jovem a lidar com a frustração, com o medo, as dificuldades. Se não o fizerem vai haver consequências no futuro desses jovens.

“Drogas deixam marcas e podem desenvolver doenças como esquizofrenia ou bipolaridade”

Quais as doenças mentais mais comuns?

Ansiedade e depressão são as mais comuns. Há quem sinta ansiedade por coisas tão básicas como estarem confinadas. Depois há sintomas mais depressivos que podem resultar do facto da pessoa estar mais isolada. Nos mais idosos isso está a acontecer bastante. O isolamento, que se agravou, e o não contacto com os familiares piorou a situação.

De que forma o confinamento prejudica os alunos que ficam em casa?

O Governo decidir que os alunos têm 15 dias de férias é o mesmo que estar a dizer que eles podem sair à vontade. Na relação ensino/aprendizagem tem que haver algum contacto com a escola. O ensino à distância, se for bem dinamizado pelo docente, pode ser igual ao ensino presencial. Mas é um trabalho muito mais duro.

Quão prejudicial vai ser para a saúde mental dos portugueses ficarem mais um ou dois meses fechados em casa?

É importante criarmos estratégias para combater este isolamento de modo a manter a sanidade mental. Manter algumas rotinas. Quem está em teletrabalho deve vestir-se, cuidar da sua imagem, como se fosse sair de casa. O desleixo acaba por gerar questões de falta de auto-estima, o que é prejudicial. É fundamental fazer exercício físico, ter uma boa alimentação e manterem-se ocupados.

O facto das pessoas não poderem fazer funerais condignos prejudica o processo de luto?

Temos muito a tradição de nos despedir dos nossos entes queridos. Sentir-nos privados desse ritual vai deixar marcas. Já ouvi relatos de pessoas que passaram por isso e o sentimento que têm é de revolta e angústia por sentirem que não se despediram. A despedida é o primeiro passo para fazer o luto.

O consumo de drogas contribui para o desenvolvimento de doenças mentais?

Algumas doenças são espoletadas pelo consumo de drogas. A junção do álcool com drogas pode levar ao desenvolvimento de doenças bipolares. As drogas deixam sempre marcas no nosso sistema nervoso central e isso pode vir a desenvolver uma patologia mais grave como esquizofrenia, psicoses ou bipolaridade.

Quais são os principais perigos de uma depressão não tratada?

Há quem defenda que a depressão é uma doença para o resto da vida. Quem passa por uma depressão grave facilmente pode ter recaídas. Temos que estar atentos aos sinais, não só para nós, como à nossa volta. Temos tendência a desvalorizar os sintomas. Uma depressão não tratada pode levar ao extremo do suicídio.

Fala-se pouco de suicídio abertamente. Porquê?

Quando a pessoa se suicida já pediu ajuda de uma forma que quem estava à sua volta não percebeu. Deve-se desmistificar o suicídio e a sociedade estar alerta para isso. Há cada vez maior incidência de jovens com tentativas de suicídio e muitas vezes por situações como, por exemplo, não saber lidar com a frustração e com problemas. É preocupante.

As pessoas têm dificuldade em aceitar o diagnóstico de uma doença mental?
Temos muito mais facilidade em dizer que temos um problema de coração do que uma doença do foro mental. Achamos que vamos ser excluídos da sociedade. Aceitar que se tem o problema é o primeiro passo para o resolver.

Projecto InclusivaMente faz intervenção psicológica ao domicílio

A Farpa – Associação de Familiares e Amigos do Doente Psicótico de Santarém tem em desenvolvimento o projecto “InclusivaMente” e está a acompanhar ao domicílio pessoas com doença mental grave nos concelhos de Almeirim, Alpiarça, Chamusca, Cartaxo, Coruche, Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém. Este projecto abrange doentes e os seus cuidadores.

O projecto, iniciado em Novembro de 2020 e que vai durar até Dezembro de 2022, decorre nos oito concelhos que têm ligação directa com o departamento de psiquiatria do Hospital Distrital de Santarém. O objectivo é, numa segunda fase, alargá-lo aos restantes municípios que integram a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, ou seja, Azambuja, Benavente e Golegã.

O grande objectivo do projecto, que prioriza maiores de 18 anos com patologias como esquizofrenia, doença bipolar e depressão, é a diminuição de internamentos e re-internamentos. Graças ao apoio concedido ao abrigo dos fundos comunitários e pelos municípios envolvidos, o projecto “InclusivaMente” vai, além da intervenção domiciliária, promover acções de literacia em saúde mental nas escolas, num esforço de sensibilização da comunidade contra o estigma a que são votadas as pessoas com doença mental.

Por outro lado, vai dinamizar grupos de auto-ajuda e realizar workshops, os primeiros dos quais irão decorrer online neste primeiro trimestre do ano: um sobre luto e perdas, tendo como tema de fundo a pandemia, e o segundo sobre o que se pode tirar de positivo deste período. A participação é gratuita e aberta a quem queira assistir.

Fundada em 1998 por profissionais do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém e familiares de pessoas com doença mental grave, A Farpa tem o seu fórum ocupacional a funcionar numa quinta cedida provisoriamente por um particular, na expectativa da construção de um espaço que permita alargar a sua capacidade e que está em fase de elaboração de projecto.

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