Entrevista | 30-03-2021 15:00

“Não retiramos crianças às famílias, protegêmo-las”

“Não retiramos crianças às famílias, protegêmo-las”
Helena de Jesus e Ana Luísa Matos

Dirigente da CPCJ de Vila Franca de Xira diz que ter de cumprimentar um agressor é a parte mais cruel do trabalho. Ana Luísa Matos lidera desde Julho de 2020 a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco de Vila Franca de Xira.

Ter de cumprimentar um agressor violento e conseguir sorrir-lhe para ganhar a sua confiança e trazer ao de cima o seu melhor comportamento é uma das partes mais cruéis do trabalho dos técnicos da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Vila Franca de Xira. O desabafo é de Ana Luísa Matos, 48 anos, desde Julho de 2020 a nova presidente daquele organismo.

Apesar de diariamente o grupo de dez técnicos ter de lidar com situações “muito complicadas” emocionalmente, a luta frequente é para eliminar fantasmas e mudar mentalidades. “As CPCJ não são bichos papão. Não temos intervenções à força mas sim com a concordância das famílias. Mas já me aconteceu cumprimentar pessoas que, de outra forma, fora da comissão, não me apeteceria cumprimentar. É muito complicado cumprimentar um agressor violento”, confessa a O MIRANTE.

No início da intervenção as famílias estão fechadas e assustadas mas depois vão-se abrindo aos técnicos. “É um trabalho de grande desgaste para todos. Temos de nos repensar e tirar de nós os preconceitos de trabalhar com agressores”, explica Ana Luísa Matos.

A pandemia e o confinamento trouxeram desafios acrescidos para aqueles profissionais. “Não fomos talhados para trabalhar assim mas antes em grupo, em proximidade, de forma pró-activa e directa”, nota a responsável.

Actualmente a CPCJ está próxima dos 700 casos sinalizados de crianças e jovens em risco até aos 18 anos. A violência doméstica é o crime mais reportado. “Com o confinamento estamos a verificar um agravamento do acto. Se antes havia prevalência da injúria e mal trato verbal humilhante, neste momento ele está a revelar-se mais grave, com puxões de cabelo e uso de objectos como facas ou tesouras. Está-se a bater mais e com maior violência”, alerta.

“Os jovens estão a dar-nos um sinal que não estão bem”

“É preciso desmistificar a ideia de que as CPCJ são bichos papão. Não vamos bater à porta de ninguém buscar crianças sem o consentimento dos pais. As crianças não se retiram aos pais, protegem-se. O que queremos é a eliminação do perigo e o regresso a casa”, defende. Apesar dos desafios Ana Luísa Matos diz que ainda há finais felizes onde se consegue erradicar os problemas.

Na protecção dos menores toda a sociedade é chamada a colaborar. “Estamos no caminho de uma comunidade mais focada na protecção das suas crianças e na salvaguarda dos seus direitos mas vejo ainda uma grande margem de crescimento onde todos somos chamados a intervir e a ter um papel activo”, conclui.

Nos últimos cinco anos o número de casos acompanhados pela CPCJ tem sido equilibrado, raramente baixando dos 990 por ano e nunca acima dos 1200. Não são casos que se repetem mas sim novas situações reportadas à comissão. No último ano foram abertos 1.087 processos.

A 8 de Março a comissão abriu o seu processo número 100 este ano. Além da violência doméstica tem-se assistido a uma subida do número de casos relacionados com a saúde mental dos jovens, com muitos estados depressivos e comportamentos de agressividade. “Os jovens estão a dar-nos um sinal que não estão bem e é por aí que temos de intervir”, alerta.

E no meio de tantas solicitações serão 10 técnicos suficientes para acompanhar mais de um milhar de casos por ano? A responsável diz que não: “Precisamos sempre de mais gente. Se tivermos um técnico por família fazemos milagres. Se for um técnico para 100 será mais difícil”. O que vai valendo é o forte trabalho em sinergia com as diferentes entidades da sociedade civil e da rede social.

Boas memórias da Póvoa de Santa Iria

Ana Luísa Matos nasceu em Lisboa mas cresceu na Póvoa de Santa Iria. Guarda boas memórias de uma terra que diz ser encantadora, simpática, tranquila e segura. É animadora cultural, educadora social, tem uma pós-graduação em Família, Direito e Sociedade e um mestrado em Psicologia Comunitária e Protecção de Menores.

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