Entrevista | 07-04-2021 12:30

“Ver um idoso sem dinheiro para medicamentos é uma facada no coração”

“Ver um idoso sem dinheiro para medicamentos é uma facada no coração”
António Gonçalves

Em 2021 a Associação de Voluntários de Vialonga - Ava Villa - celebra uma década e meia a apoiar os idosos da localidade. Diariamente, 32 voluntários tiram do seu tempo para dar à comunidade sem exigir nada em troca.

É desmotivante e imoral, ofensivo até, que uma associação de voluntários que presta apoio domiciliário gratuito a idosos sinalizados pela Unidade de Saúde Familiar de Vialonga viva com um orçamento anual a rondar os 1.200 euros. O desabafo é de António Godinho Gonçalves, 64 anos, presidente da Ava Villa - Associação de Voluntários e Amigos de Villa Longa, de Vialonga, que diz não compreender como é que uma associação que presta cuidados a quem está numa situação vulnerável de saúde receba tão pouco dinheiro de ajudas à sua actividade.

O orçamento é composto pelas quotizações dos sócios, de apoios extraordinários dados pela junta de freguesia e por apoios ao movimento associativo entregues pelo município de Vila Franca de Xira no valor de 630 euros.

A associação precisa de equipamento médico actualizado para dar assistência aos 13 idosos a quem presta apoio domiciliário e por isso todos os anos concorre ao programa de apoio ao movimento associativo da câmara. Apesar do trabalho decisivo que fazem na comunidade recebem poucas centenas de euros que mal chegam para as despesas com o combustível e os materiais médicos. “Muitas vezes sou eu que acabo a pagar o gasóleo das deslocações quando o dinheiro acaba”, confessa o dirigente a O MIRANTE.

“É revoltante recebermos 630 euros da câmara quando vemos clubes desportivos como o Futebol Clube de Alverca encaixar 54 mil euros. Até algumas associações de pais têm recebido mais que nós”, lamenta. A situação, afirma António Gonçalves, dá aos voluntários uma motivação especial pelo sentimento de injustiça a fazerem mais e melhor.

Além dos 630 euros a Ava Villa recebeu em 2020 mais 300 euros que o habitual, entregues pela Junta de Vialonga, para suportar os custos adicionais de ajudar as vítimas Covid que estiveram em isolamento domiciliário. Sem isso o orçamento ainda teria sido mais pequeno. “Somos uma associação que sempre esteve na linha da frente mas que nem por isso tem tido a atenção que merece. A junta e a comunidade de Vialonga reconhecem o nosso trabalho mas acaba aí”, conclui o dirigente. O município já havia explicado que os apoios financeiros são dados em função do regulamento, das actividades prestadas, plano de actividades e dimensão das associações, onde são investidos anualmente pela câmara mais de um milhão de euros. A Ava Villa viveu sempre com mais voluntariado e paixão do que recursos financeiros e materiais. António Gonçalves lembra que nos primeiros anos o escritório da associação funcionou no banco traseiro do seu automóvel. Só mais tarde conseguiram que lhes fosse cedida uma sala na Casa do Povo de Vialonga, onde funciona a sede da instituição.

A colectividade presta apoio domiciliário gratuito a idosos sinalizados pela Unidade de Saúde Familiar (USF). Dão apoio na compra e administração de medicamentos e são muitas vezes a única companhia que os mais velhos têm durante dias. A Ava Villa tem 32 voluntários, dá resposta a 13 utentes e está a celebrar em 2021 os seus 15 anos de vida ao serviço da comunidade.

Os responsáveis da colectividade acreditam que o número de idosos a precisar da sua ajuda é muito superior aos que estão a ser sinalizados pelos médicos. Com a pandemia, a Ava Villa esteve também na linha da frente no apoio a doentes que estiveram confinados com Covid-19, indo à farmácia ou ao supermercado. Sempre de forma voluntária e sem cobrar um cêntimo.

O presidente da associação, António Gonçalves, entrou na Ava Villa em 2007 a convite da esposa e nunca mais saiu. Antes da pandemia a Ava Villa também era conhecida por realizar rastreios médicos gratuitos na comunidade, focados na diabetes, tensão arterial ou medição de massa corporal, onde também faziam peditórios para ajudar a financiar as suas actividades.

Dificuldade em encontrar voluntários

Um dos maiores problemas, diz, é conseguir encontrar voluntários disponíveis. “Muita gente pergunta-nos quanto é que ganhamos a fazer isto. Há uma grande dificuldade em encontrar pessoas disponíveis, mais ainda depois da pandemia. Ninguém quer. E os jovens nem se fala”, lamenta o dirigente. O que move o coração de um voluntário, diz, é a chama de querer ajudar quem mais precisa. “Isto nasce com a pessoa. Muita gente não quer saber dos idosos. Por isso temos centenas abandonados nos hospitais. Não posso admitir isso. Há pouca moral no ser humano quando não olha para os mais velhos. Só olhamos para o nosso telefone e vivemos em função das trivialidades que ele mostra. É por isso que luto pelo voluntariado”, afirma.

Se houve período em que o trabalho da Ava Villa mais contribuiu para fazer a diferença foi durante a pandemia de coronavirus e nos confinamentos. “Nestes tempos vi muita gente idosa a pedir-me um quilo de farinha e uma garrafa de água para fazer umas tiras fritas porque não conseguiam sair de casa para comprar comida. Há pessoas a passar por muitas dificuldades. Um senhor de 47 anos foi despedido, não teve direito a subsídio de desemprego e esteve quatro dias sem comer para que a filha de 16 anos pudesse continuar a estudar na faculdade. Depois de o conhecer fui ao supermercado e paguei do meu bolso a comida que ele precisava. Isto é ser voluntário”, conta.

O caso foi entretanto sinalizado e o morador já recebe apoio do Banco Alimentar enquanto espera pela aprovação do Rendimento Social de Inserção. “Fazemos voluntariado puro e duro. Há idosos sem dinheiro para medicamentos. Outros não conseguem aviar as receitas há meses por não conseguirem ir ao centro de saúde e outros que não tomam os medicamentos para o coração há meses. Ver isto a acontecer sem nada fazer é como uma facada no coração”, confessa.

Dificuldades das famílias aumentaram

Para António Gonçalves é incompreensível que haja filhos a viver a 200 metros dos pais e que não os visitam nem os apoiam. “As nossas equipas encontram idosos com grandes dificuldades. É desmotivante e angustiante ver filhos que vivem tão perto dos pais e não os visitam há meses”, critica. Graças à parceria com a USF de Vialonga os utentes em situação mais sensível são sinalizados para serem apoiados pela Ava Villa. “Infelizmente temos encontrado da parte dos novos médicos algumas dificuldades. Sentimos que há mais gente a precisar do que aquela que realmente nos é identificada”, alerta a O MIRANTE.

Os médicos da USF prestam formação aos voluntários da associação e há também apoio psicológico para quem precisar, para que os problemas dos idosos não fiquem retidos nos voluntários e vice-versa. Conseguir captar novas pessoas disponíveis para dar o seu tempo em prol do outro é a primeira prioridade. A esperança é que o número de pessoas disponíveis para contribuir possa aumentar logo que a pandemia dê sinais de abrandar ou até mesmo desaparecer.

O presidente da associação, António Gonçalves, é natural da Régua mas vive há 47 anos no concelho de Vila Franca de Xira. Primeiro em Vialonga e agora em Povos, Vila Franca de Xira. Os pais queriam que fosse padre e ainda estudou no seminário mas António sonhava estudar meteorologia na Força Aérea Portuguesa. Ainda se deu como voluntário mas acabou a tirar o curso de sargentos. Depois mudou de farda e vestiu a da GNR até se reformar.

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