Entrevista | 26-04-2021 10:00

“Quando jogamos sentimos na pele o racismo  e há miúdos que acabam no banco a chorar”

“Quando jogamos sentimos na pele o racismo  e há miúdos que acabam no banco a chorar”
Flávio Andrade e Luís Pereira querem dar novo fôlego aos Patuscos de Vialonga

Derrotar o preconceito racial é o desafio mais difícil de Os Patuscos de Vialonga.

Crianças de cinco anos ouvem da boca de adultos insultos racistas e chegam a chorar enquanto estão no banco de suplentes. Situação revolta os dirigentes que apelam a uma intervenção de fundo na comunidade para lutar contra o preconceito. Grupo Desportivo Os Patuscos de Vialonga está numa fase de crescimento com sangue novo a liderar.

A luta contra os insultos racistas, discursos de ódio, ameaças e injúrias é a mais difícil de vencer e contra a qual todos os dias lutam os atletas e dirigentes do Grupo Desportivo Os Patuscos de Vialonga. A associação está numa fase de crescimento e renovação com sangue novo a liderar e assume agora a luta contra o preconceito como uma das suas prioridades.
Não há jogo onde os jovens atletas, com idades dos 5 aos 14 anos, não tenham de ouvir impropérios gritados da bancada por pais que não respeitam ninguém. Seja qual for o resultado a equipa de Vialonga já sabe que vai ter de ouvir gritos de ódio. Uma situação que entristece os dirigentes, mas que ao mesmo tempo torna a equipa mais forte.


“Somos um clube que nasceu no bairro da Icesa, que tem muitos miúdos com raízes africanas e ainda há muito esse estigma. Queremos mudar isso e levar as pessoas a ver que não somos apenas um clube da Icesa mas sim de toda a Vialonga e do concelho também”, explica a O MIRANTE Luís Pereira, vice-presidente do clube. O presidente da direcção continua a ser o fundador do clube, Flávio Andrade, mas é Luís que agora comanda o trabalho diário na colectividade.


Em Setembro o clube vai começar a realizar uma campanha nas escolas divulgando o trabalho dos Patuscos e tentando com isso recrutar novos jovens. “A realidade é que há muita gente que pensa que somos um clube só de pretos. Há esse estigma e não é verdade. Quando jogamos sentimos na pele o racismo. Há miúdos que acabam no banco a chorar. É muito violento. Há pais a que só falta querer bater nos nossos jovens. Isto não pode continuar”, critica.


Entre o sentimento de raiva e tristeza, Luís diz que a solução passa por integrar cada vez mais jovens de Vialonga e do resto do concelho na equipa. “Não há que ter medo de jogar na nossa equipa. Unidos somos mais fortes. Estamos a mudar a nossa estrutura e estamos numa fase de mudança e de maior profissionalização”, explicam os dirigentes.
Obras na sede até ao Verão


Através do Orçamento Participativo a sede do clube vai entrar em obras. Situada no bairro da Icesa, tem um acervo com mais de 700 taças obtidas desde a fundação do clube, em 1995. Os trabalhos representam um investimento de 16.500 euros que comporta a criação de uma nova sala de formação, novas vitrines para os troféus, novas televisões, piso novo, pinturas e renovação dos tectos falsos.


Actualmente o clube treina 70 jovens no Pavilhão Municipal do Olival de Fora. Luís Pereira diz que além do futsal está na calha o lançamento de outras modalidades como o atletismo, muay thai e BTT. Para a nova época o clube passará a dispor de treinadores federados, para permitir que possa ser reconhecido como clube tutor dos atletas no caso destes prosseguirem as suas carreiras ao mais alto nível desportivo, como já aconteceu (ver caixa).


A filosofia dos dirigentes é nunca deixar ninguém para trás. “Não importa a cor da pele. Nos nossos jogos toda a gente tem de tocar na bola”, referem. O clube nasceu pela mão de Flávio Andrade, na altura apenas com atletismo, onde chegou a obter bons resultados em Portugal e no estrangeiro. O sonho dos dirigentes é continuar a fazer crescer o clube e desafiam a comunidade de Vialonga e do concelho a aparecer num treino para conhecerem a realidade e o trabalho da associação.

“O Djaló esqueceu-nos”

Os Patuscos ganharam notoriedade nos últimos anos por terem sido o berço de jovens campeões que singraram nos clubes nacionais, como Ivan Cavaleiro, Pany Varela e Yannick Djaló. “Todos ajudam e quando lhes perguntam onde começaram a jogar falam nos Patuscos. Mas o Djaló não. Esqueceu o clube e as suas origens”, lamenta Flávio Andrade a O MIRANTE.


Um dos objectivos da criação do clube, que se mantém, é tentar incutir nos jovens o gosto pela prática desportiva e afastá-los de caminhos desviantes e da marginalidade. O clube vive sobretudo das quotizações dos sócios e atletas, que pagam entre 5 e 10 euros para jogar. Ivan Cavaleiro, jogador do Fulham de Inglaterra, é um dos grandes contribuidores, ajudando todos os anos o grupo com material desportivo e promovendo um torneio inclusivo onde as entradas são pagas com bens alimentares que permitem criar cabazes para doar às pessoas mais carenciadas da vila. Em 2019 os dirigentes conseguiram angariar comida suficiente para 40 cabazes.

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