Entrevista | 28-04-2021 18:00

André Gomes é o rosto da renovação comunista em Santarém

André Gomes é o rosto da renovação comunista em Santarém
André Gomes é médico, militante do PCP, e diz-se disponível para ser candidato à Câmara de Santarém

O centenário Partido Comunista Português tem em André Gomes um dos novos protagonistas em Santarém, onde tem perdido influência eleitoral.

André Arraia Gomes nasceu em 9 de Janeiro de 1991. É natural de Lisboa mas foi viver para o Vale de Santarém, terra da família paterna, com cinco anos. Este jovem simpático e de sorriso fácil é formado em Medicina e está a terminar a especialidade em Saúde Pública, na Unidade de Saúde Pública da Lezíria, sediada em Santarém. Solteiro e sem filhos, diz que gosta do concelho onde vive, dos monumentos, da paisagem e da gastronomia. E está disponível para ser candidato à câmara, se os seus camaradas assim o entenderem.

Filiou-se no PCP por influência familiar mas também por concordância com os princípios do partido: “Quase me apeteceria dizer, como Che Guevara, que outra escolha teria se o meu sangue é vermelho e o coração está à esquerda. Tinha de ser do partido dos trabalhadores e do povo, o partido vermelho e de esquerda”.

Quanto à acção da Câmara de Santarém, de maioria PSD, diz que “tem passado por momentos difíceis” e que “o trabalho tem deixado a desejar” nalguns aspectos; nomeadamente na área cultural e na projecção que o concelho poderia ter face ao seu potencial e à ligação a figuras da cultura como Bernardo Santareno, Mário Viegas, Alexandre Herculano ou Almeida Garrett.

Sente-se um ribatejano de gema mas não é apreciador de touradas nem concorda que o município compre bilhetes de corridas para oferecer à população. Contudo, não põe no mesmo saco os espectáculos de arena e as manifestações populares ligadas à tauromaquia, como as garraiadas nas festas de aldeia, por exemplo. “São dois mundos totalmente diferentes”, afirma.

Desde que o PCP expulsou do partido a então vereadora e deputada Luísa Mesquita os comunistas nunca mais tiveram assento no executivo da Câmara de Santarém, perderam as juntas de freguesia e estão resumidos a três eleitos na assembleia municipal. Tem sido um descalabro político esta última década e meia?

Não digo que seja um descalabro porque a nossa acção não se resume ao trabalho autárquico. Fazemos um trabalho mais alargado, nos locais de trabalho, que é o nosso principal foco. O trabalho autárquico é uma segunda via, digamos.

Mas é um patamar importante e onde se tem voz…

Exactamente. A perspectiva do nosso partido é, em todas as frentes de luta, tentar beneficiar os trabalhadores. Obviamente que passámos por uma fase menos boa, comparativamente com o passado. Mas, às vezes, quantidade não é qualidade. Não temos representação no executivo, pelo que temos de procurar fazer oposição de outra forma. Claro que é importante estar no executivo, assim o queiram os escalabitanos já nas próximas eleições.

A ideia que fica é que o PCP tem tido alguma dificuldade em encontrar protagonistas mais jovens em Santarém e em renovar a mensagem para mobilizar mais eleitorado. Este declínio pode ser revertido?

Essa é uma das críticas que fazem habitualmente ao PCP e que muitas vezes é infundada, que é a de ser um partido velho. Temos na Assembleia da República a bancada mais jovem de todas em média de idades. Em Santarém estão também a surgir novos nomes.

É fácil cativar jovens para a vossa causa?

Depende do sector. No operariado temos tido novos militantes, jovens que sentem na pele os problemas e ganham consciência de classe.

O PCP é um dos partidos fundadores da nossa democracia pluripartidária. Este é o sistema político que prefere?

O PCP defenderá sempre um sistema democrático, representativo e com eleições.

O PCP tem tido posições favoráveis ou, pelo menos, não condenáveis, relativamente a regimes de partido único, de matriz comunista, como a China, Cuba ou Coreia do Norte. Pode haver democracia sem pluripartidarismo, sem liberdade de escolha?

A questão é se o pluripartidarismo deve continuar a assentar na chamada democracia burguesa, em que quase todos os partidos - felizmente cá temos a excepção do PCP - acabam por beneficiar a classe burguesa…

Isso, provavelmente, significa que a maior parte da população se revê nesse tipo de regime. Mas nos países que mencionei, mesmo que haja uma franja da população que não concorde com o regime, não há alternativa partidária porque o regime não deixa.

Segundo os postulados de Marx, quando alcançarmos a ausência de classes, quando houver só a classe trabalhadora, deixa de haver necessidade de partidos e até de Estado, porque termina a exploração do homem pelo homem. Isto, então, é que é o comunismo, que ainda não foi alcançado em nenhum lado.

E acredita que isso vai acontecer?

Creio que esse é o ponto final da História. É por isso que lutamos.

São os tais amanhãs que cantam?

Sim, pensar que há um Homem melhor. Quero crer que a geração que nos seguirá faça melhor do que nós, que a seguinte fará melhor que a anterior e assim sucessivamente.

“Não sei se teria capacidade de praticar a eutanásia”

Qual é a sua opinião sobre a eventual legalização da eutanásia em Portugal?

É um assunto muito complexo. O PCP tem sido criticado pela sua posição, dita conservadora. Penso que o partido aponta a justificação certa, de que talvez seja precoce dar esse passo. Estamos a discutir algo quando não temos a antecâmara garantida, que são os cuidados paliativos de livre acesso a toda a população. Pode tornar-se perigoso dar o salto dessa antecâmara para a seguinte.

Teme-se a banalização da morte assistida?

Por isso mesmo! O PCP tem sido criticado por desprezar, entre aspas, aquilo que seria a opção individual. A questão é que só pode haver opção verdadeira se dermos uma alternativa, que para muita gente não existe, que são os tais cuidados paliativos.

Como médico, era capaz de praticar a eutanásia?

Não sei se teria essa capacidade. E há que ver essa perspectiva, de que a opção até pode ser válida mas depois quem é que a operacionaliza?

Enquanto profissional de saúde, como está a viver a pandemia?

Quando comecei o ciclo final de estudos deixei de dar contributo directo, por ter de preparar as provas curriculares. Até aí fazia o trabalho que um médico de saúde pública faz: contacto com casos positivos, rastreio de contactos, emissão de testes, ajuda na coordenação do processo de vacinação. Foi difícil, especialmente quando o número de casos aumentou bastante, devido ao excesso de trabalho e à escassez de profissionais de saúde.

O foco no combate à pandemia deixou para trás o acompanhamento de outras patologias.

A minha perspectiva é que a manta está tão curta que se puxamos de um lado destapamos do outro. O desinvestimento feito no Serviço Nacional de Saúde (SNS) leva a que, numa situação de emergência destas, a manta esteja curta.

Vê-se a trabalhar no sistema de saúde privado?

Actualmente não. Por uma questão ideológica e também porque, na fase da vida em que estou, o salário que aufiro no público e a perspectiva de carreira deixam-me satisfeitos.

O que pensa dos seus colegas que têm um pé no público e outro no privado?

(risos) Essa é uma das batalhas, em termos sindicais, que temos feito: de que se possa caminhar para a exclusividade. Mas isso só é possível com investimento no Serviço Nacional de Saúde, melhorando salários, condições de trabalho, progressão nas carreiras. O SNS não consegue competir com o nível salarial oferecido pelos privados.

Continua a ser difícil captar médicos para trabalhar na chamada província, ainda que se esteja a menos de uma hora de Lisboa, como é o caso de Santarém. A maior parte dos médicos só gosta de trabalhar nos grandes centros urbanos?

Isto vai para lá do que é o SNS. Tem a ver com uma perspectiva económica e social traçada ao longo dos últimos anos, que é o esquecimento puro e duro de 80% do território nacional.

Mas também há a vontade individual. Muitos médicos não vêm para o interior porque, aparentemente, não querem.

Porque aqui podem não ter coisas que têm noutros locais. E um médico ou um enfermeiro têm de pensar também na família quando ponderam essa opção. Dou-lhe o meu exemplo: tinha vontade de ir trabalhar para o Alentejo, terra dos meus antepassados, mas se a minha companheira não tem lá emprego não posso ir e ficarei por cá.

O seu partido foi quase sempre crítico dos sucessivos estados de emergência aprovados pela Assembleia da República com o intuito de tentar conter a pandemia. Concorda com essa posição?

Sim. O estado de emergência tem-se tornado regra e não excepção. E quase sempre não é acompanhado pelas medidas necessárias. Há que testar, há que vacinar. Não houve medidas efectivas no reforço do controlo dos lares, não houve reforço nos transportes públicos das grandes áreas metropolitanas, a questão da vacinação é o que estamos a ver...

Como tem visto o processo de vacinação?

Falo a título pessoal, enquanto cidadão. Iniciámos o processo em Dezembro, estamos em Abril e Portugal não pode ter tão pouca percentagem da população vacinada. Não podemos ser reféns das ambições da União Europeia. Se existem perto de 150 farmacêuticas a produzir vacinas, por que é que estamos amarrados a três? Espero que o plano inicial, de ter a população vacinada até final do Verão, se cumpra, mas a este ritmo está complicado.

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