Entrevista | 26-05-2021 07:00

“Na Chamusca há muitos políticos e poucos autarcas”

“Na Chamusca há muitos políticos e poucos autarcas”
Silvina Fernandes acusa o presidente da câmara, Paulo Queimado, de não ouvir a população e ficar fechado no gabinete

Silvina Fernandes é professora em Vialonga e eleita pelo PSD na Assembleia da Chamusca. A autarca é um dos elementos que faz mais oposição, embora saiba que as suas críticas são vistas como uma afronta. A O MIRANTE não esconde a desilusão pela forma como está a ser gerido o concelho onde vive com a sua família há 12 anos.

Silvina Fernandes, 41 anos, é uma mulher que se considera simples, tímida e que luta com “unhas e dentes” pelos seus ideais. É professora no Agrupamento de Escolas de Vialonga, que acumula com os cargos de eleita pelo PSD na Assembleia Municipal da Chamusca e de catequista na paróquia da vila. Nasceu no Sabugal, distrito da Guarda, frequentou o ensino superior em Portalegre, onde conheceu o marido Flávio, e mudou-se para a Chamusca há 12 anos para constituir família: o Francisco, de 9 anos, e o Henrique, de 6, já nasceram com sangue ribatejano. Em conversa com O MIRANTE, Silvina coloca o dedo na ferida em relação à forma “distante e empolada” com que o executivo da Chamusca tem gerido os destinos do concelho, acrescentando que fazem falta menos políticos e mais autarcas na vila ribatejana. A docente confessa ainda que o partido que representa está a perder influência no concelho, também por efeito do vereador eleito, Rui Rufino, não estar presente quando importa. Silvina Fernandes não diz se vai continuar envolvida na política concelhia, mas garante que vai defender os seus interesses e o dos chamusquenses para que a Chamusca não continue a cair num poço sem fundo.

Como chega ao mundo da política?

Os meus pais são transmontanos, de Bragança, e sempre foram militantes do Partido Social-Democrata (PSD). Nasci no Sabugal, distrito da Guarda, e sempre fiz parte das conversas em família a política e a sua importância no desenvolvimento e bem-estar das populações. Na minha Aldeia da Ponte fiz parte da assembleia de freguesia. Entretanto tive uma travessia no deserto, até que, há quatro anos, o PSD da Chamusca me convidou para integrar a lista à assembleia municipal. Ponderei muito porque gosto de ajudar sem dar nas vistas. Está a terminar o mandato e, embora não esteja descontente com o meu trabalho, acho que podia ter feito melhor.

Porquê?

Porque sou insatisfeita por natureza. Nunca sinto que o que faço, na escola, na política, ou em casa, seja definitivo e não possa ser melhorado.
É uma professora que sabe o nome de todos os alunos? Claro que sim e não faço distinção entre os bons e os maus. Gosto de me imaginar com a mesma importância na vida de um aluno excelente como na de um com mais dificuldades. A minha função é dar-lhes conhecimento, mas, sobretudo, torná-los melhores cidadãos. Não é fácil consegui-lo, porque dou aulas a cerca de duas centenas alunos.

É mais fácil lidar com eles ou com políticos?

Essa resposta é óbvia: com os meus alunos (risos)! Sinto-me muito mais confortável no papel de professora ou de catequista. Sinto que os alunos têm mais facilidade em ouvir do que os meus colegas autarcas. A política na Chamusca é feita com pouco diálogo e com muita sede de poder. Entristece-me que o confronto de ideias seja visto com maus olhos pelo partido que manda (PS).

Isso não a faz querer desistir?

Para já ainda sinto necessidade de fazer serviço público e de tentar fazer a diferença, por mais pequena que seja. Não sei por quanto tempo vou pensar desta forma, mas enquanto pensar têm de me aturar. Estou na Chamusca há 12 anos e vejo-a a cair num poço sem fundo; dói-me ver o comércio a fechar e as famílias a irem-se embora. Não nasci na Chamusca, mas garanto-lhe que sinto a terra como uma chamusquense.

O que é preciso para que as coisas melhorem?

Penso que falta ao executivo aprender a ouvir. Sinceramente, acho que vivem muito das suas opiniões e não consideram o que pensam os munícipes que os elegeram. Há um distanciamento notório com as pessoas e isso prejudica o desenvolvimento do concelho. Na Chamusca tem de existir menos políticos e mais gente com vontade de ser autarca.

Como assim?

Não se vê o presidente a andar na rua, por exemplo. Para gerir um concelho tem de se sentir os problemas das pessoas, não se pode estar fechado nos gabinetes à espera da próxima inauguração. Também acho que a política, no geral, mas principalmente na Chamusca, precisa de melhores seres humanos. Por exemplo, há uns tempos o presidente disse, numa assembleia, que eu não era da Chamusca, simplesmente porque não gostou da opinião que dei. Penso que há alguma falta de humildade em alguns autarcas.

“O executivo perde muito tempo com futilidades”

Está contente com as obras que se têm realizado? Que obras?

O executivo raramente conclui as empreitadas que começa. Em oito anos, contam-se pelos dedos de uma mão as obras que estão disponíveis para os munícipes utilizarem. Um mercado municipal demorar cinco anos para ser requalificado e reaberto ao público demonstra bem o trabalho que tem vindo a ser feito. Desde 2017 que prometem um novo centro de saúde, com direito a outdoors na vila para campanha eleitoral e nem novas nem mandadas. A situação que se vive diariamente na ponte da Chamusca é outro bom exemplo de como o executivo não está a zelar pelos interesses da população. Têm de se preocupar com os verdadeiros problemas e perder menos tempo com futilidades.

Acha que a oposição na Chamusca é fraquinha?

Se for para generalizar, acho que sim, pelas razões que apontei em cima. Sinto que se disser bem do executivo tenho tudo, se apontar defeitos estou tramada. O grande problema é que 70 ou 80% da população activa precisa do município para trabalhar, ou na autarquia ou no Eco Parque do Relvão. Ouço muitas pessoas dizerem que discordam de muitas coisas, mas que apoiam porque precisam. Não as condeno, porque é preciso colocar o pão em cima da mesa.

O seu partido tem um vereador, Rui Rufino, que falta a quase todas as reuniões de câmara e assembleia. Qual é a sua opinião sobre isto?

Sei que há uma razão familiar, por isso compreendo, mas devia fazer-se substituir. Quando se dá a cara tem de se estar a 100%. Não podemos perder a voz nas alturas que mais importam. Custa-me a situação, não pelo partido mas pela falta de oposição e por estarmos a deixar governar à vontadinha.

Está desiludida com a política?

Na Chamusca estou e posso dar-lhe alguns exemplos. Uma das coisas que me deixa boquiaberta é quando peço contas e documentos nas assembleias sobre apoios a associações e, ou não me enviam, ou enviam documentos que se percebe que estão a esconder alguma coisa. A postura do presidente da assembleia municipal, Joaquim José Garrido, é completamente parcial e conivente com o executivo, e não devia ser assim.

Estamos a terminar a conversa. Como é que é um dia na sua vida?

Acordo todos os dias às 5h40. Vou apanhar o comboio ao Entroncamento e vou para Vialonga dar aulas em quatro escolas. Regresso por volta das 18h00, vou buscar os meus filhos, jantamos em família, e só depois preparo as aulas para o dia seguinte. É um dia calmo, como pode ver (risos).

Não receia estar a perder o crescimento dos filhos?

Claro que sim, mas o que posso fazer? Tento compensar nos momentos em que os vou deitar e ficamos a ler uma história ou simplesmente a conversar.

O que não lhe perguntei que gostaria de responder?

Gostava de dizer que os verdadeiros papéis da minha vida são ser uma boa mãe, mulher e professora. Mas também garanto que, independentemente de continuar a fazer parte da política activa na Chamusca, vou continuar a defender esta terra como se fosse minha.

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