Entrevista | 01-06-2021 10:00

“As grandes obras feitas em Torres Novas também são minhas”

“As grandes obras feitas em Torres Novas também são minhas”
Pedro Ferreira já sabe quem gostaria que fosse o seu sucessor na presidência da Câmara de Torres Novas mas prefere não falar no assunto

O socialista Pedro Ferreira, 69 anos, candidata-se a um terceiro e último mandato como presidente da Câmara de Torres Novas ciente que vai enfrentar o maior desafio deste ciclo, ao ter como adversário o homem de quem foi vice-presidente e a quem sucedeu na liderança do município, António Rodrigues. Nada que lhe tire o sono, garante, afirmando que não está disponível para lavar roupa suja na campanha eleitoral. Lembra que foi participante activo nas grandes obras feitas na cidade neste século e que foi com ele como presidente que o endividamento excessivo da autarquia foi resolvido.

Autarca na Câmara de Torres Novas há 28 anos, primeiro como vereador, depois como vice-presidente e há oito anos como presidente, Pedro Ferreira esteve também durante muitos anos ligado ao movimento associativo do concelho. Reconhece que o PS fez muita obra neste século no concelho mas também fez crescer muito o endividamento, que depois teve de ser saneado já consigo como presidente. O autarca é um homem simples e afável, que não dá grande troco a polémicas nem grandes tiradas que fazem manchetes. Tem como meta cumprir mais quatro anos como presidente e depois retirar-se porque foram muitos anos na causa pública e a roubar tempo à família.

Passou a dormir pior desde que soube que o seu antecessor, António Rodrigues, é candidato à Câmara de Torres Novas por um movimento independente?

Claro que não. Já há uns anos que ele deu a entender que se ia candidatar e nunca deixei de dormir descansado.

Esta candidatura não vem baralhar um pouco as contas e as suas expectativas eleitorais?

Não sou como alguns, a projectar números e a fazer contas de cabeça. Tenho uma noção do dever cumprido, tenho uma noção do que a população pensa de mim. Já me conhecem por dentro e por fora e, por isso, se me perguntar se estou confiante na vitória, seria mentiroso se não dissesse que sim. Espero que o povo participe mais do que é costume.

Além da candidatura independente há também um partido novo a concorrer, o Chega, que alarga o leque de escolhas para os eleitores. Não teme que o eleitorado se disperse mais e que a maioria absoluta do PS seja posta em causa?

Concorro com muita humildade. O povo saberá onde pôr o voto. A minha vida vai continuar aqui em Torres Novas. Deus me ajude a viver mais uns anos. Tenho muitas áreas a que me posso dedicar, desde sempre. Tenho penalizado muito a minha família toda a vida pelo trabalho que tenho feito pelo concelho.

É autarca na Câmara de Torres há 28 anos. Ainda se lembra do que fazia antes?

Perfeitamente. Antes de ser autarca era dirigente associativo em várias associações e sempre estive muito ligado à comunidade. Profissionalmente, fui administrativo; fui chefe de escritório numa empresa de Riachos quase 20 anos; depois fui inspector de seguros até vir para a câmara; e agora tenho direito à reforma, obviamente. Mas para já não é essa a minha ambição.

Vamos ter uma campanha eleitoral com mais lavagem de roupa suja?

Eu não quero. E espero que ninguém queira, porque nesta altura proporciona-se muito como arma de arremesso a lavagem de roupa suja. Como nunca entrei nesse esquema, também não o vou fazer nesta campanha.

É provável que os outros partidos tentem explorar a antiga cumplicidade entre o senhor e o anterior presidente da câmara.

Ao longo de 20 anos, como vereador e como vice-presidente, estive com a câmara nos piores e nos melhores momentos. Votava como os outros do nosso partido votavam e, portanto, para o bem e para o mal, há que assumir isso. Agora, há responsabilidades individuais em determinados actos que cada um tem que assumir.

Houve algumas decisões que hoje não tomaria, de que se tenha arrependido ou de que tenha tido dúvidas na altura?

Houve algumas decisões que não tomaria...

Construiria, por exemplo, um pavilhão dos desportos daquela dimensão?

Claro que sim, o Palácio dos Desportos foi uma grande obra. Participei em todas as grandes obras, mas foi um período em que se criou muito endividamento. Também gostaria que, sobretudo a população e o candidato (António Rodrigues), não se esquecessem que as grandes obras que foram feitas por ele também foram feitas por mim; e que o endividamento criado também foi obviamente comigo, mas também foi comigo que ficou resolvido.

Ou seja, já se redimiu desse ‘pecado’.

Sim, já me redimi desse pecado...

Se o senhor não ganhar as eleições vai assumir o cargo de vereador?

Concorro para ganhar e nem ponho essa questão porque cada dia é um dia e haja saúde.

Gostava de ter Rodrigues como vereador?

O termo gostava não se aplica. Quem tem observado as reuniões de câmara, nestes mandatos como presidente e nos outros, sabe que nunca tive problemas com os vereadores que estavam a meu lado, independentemente das cores partidárias, dos feitios. Para o bem e para o mal, o Pedro Ferreira é uma pessoa muito popular, pacífica e não é de dar murros na mesa, antes pelo contrário...

Mas quando é preciso tem que os dar...

Quando digo dar murros na mesa é ser irascível. Se calhar sou mais provocador com uma piada ou desvalorizando o que o adversário está a dizer, do que a entrar na discussão e dar murros na mesma mesa. É a minha forma de estar e tenho ganho com isso.

Há vários problemas que se arrastam há anos e que certamente serão cavalgados pela oposição. A Fabrióleo continua a ser uma pedra no sapato. Fica a ideia de falta de autoridade e de inércia por parte da administração pública, município incluído.

O município incluído não. A APA (Agência Portuguesa do Ambiente) tem feito ao longo do tempo o seu papel, tal como a IGAMAOT (Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), sobretudo ultimamente. A GNR fez um trabalho espectacular, com filmagens, com contra-ordenações, mas do Governo central devia ter havido mais pulso nos últimos anos. Todos sabemos como é que a justiça portuguesa funciona em termos de recursos e contra-recursos e há lacunas graves que ainda estão a acontecer.

Pode especificar?

Sobretudo a famosa ETAR, que é enorme e está repleta de resíduos tóxicos. É uma situação que a câmara sozinha não consegue resolver. Está prevista uma visita da IGAMAOT, para tecnicamente fazer análises e ajudar a decidir o que fazer, pois a câmara não é especialista nessa matéria. Mas há uma coisa que já se ganhou: a empresa está fechada. Não é um bom sinal fechar empresas, mas é necessário que as empresas se portem bem e façam bem o seu trabalho.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) afirmou recentemente que a Renova não pode impedir o acesso à nascente do rio Almonda, em Torres Novas, frisando que qualquer intervenção ou acção junto à linha de água carece de autorização prévia. Sabe se essa determinação está a ser cumprida?

Essa limitação foi mal interpretada ou eventualmente mal escrita pela APA. Esclareci junto da APA e o que se verifica é que há uma faixa de 10 metros que tem de ser de uso público a nível das entidades hídricas. Não tem a ver com a fruição pública. Aliás, há outros acessos à nascente do Almonda que não passam pela propriedade da Renova e que podem ser utilizados, embora sejam mais inóspitos.

A nascente e o rio são um bem público. Uma empresa cortar o acesso a um bem público não parece uma coisa muito normal.

Não pode ser cortado o acesso a essa faixa de 10 metros junto às margens, mas apenas a entidades públicas. Dou um exemplo: aqui em Torres Novas há vivendas com quintais encostados ao rio Almonda. As pessoas em geral não podem entrar nessas propriedades para terem acesso ao rio. Ali é a mesma coisa, só não há casas no meio. É propriedade privada, sem dúvida nenhuma. É verdade que durante anos as pessoas iam para lá à vontade, até porque é um sítio paradisíaco. Eu também fui, quando era escuteiro e espeleólogo, e por experiência própria sei que aquilo é muito perigoso.

Há projectos para essa zona?

Há uma parceria prevista entre a Renova e o município. Eles estão a estudar o projecto que querem implementar para, turística e culturalmente, tirarem partido do emblema que é a fábrica velha, onde nasceu a Renova. A intenção, muito interessante e aplaudível, é fazer ali um museu. Tudo indica que será a câmara a orientar a parte da visitação através do sector do turismo. As pessoas poderão ver as velhas peças da Renova, o rio, uma paisagem formidável...

A Startup de Torres Novas que a Nersant não integrou

A Câmara de Torres Novas criou em 2016 uma incubadora de empresas sem envolver a Nersant no processo, ao contrário do que fizeram outros municípios da região. Porquê?

Tivemos sempre um bom relacionamento com a Nersant. Convidámos a Nersant a fazer parte desse projecto, ainda com a presidente Salomé Rafael. No dia da assinatura ela justificou a ausência por que tinha que ir ao Tribunal de Leiria tratar de qualquer coisa e acabou por não assinar. Entretanto a nossa Startup de Torres Novas tem vindo a desenvolver-se de uma forma muito interessante e tem sido um sucesso.

A Nersant estava envolvida no projecto e não ficou por faltar uma assinatura?

Não foi por causa de uma assinatura. Eventualmente, queriam que a Startup de Torres Novas não fosse de Torres Novas mas sim da Nersant. Mas nós na altura entendemos que seria Startup de Torres Novas, embora pudesse estar também ligada à Nersant. E queremos continuar ligados à Nersant. Já agora adianto que pretendemos chegar a acordo com a Nersant sobre o seu pavilhão...

Esse não seria o local ideal para instalar a Startup?

Temos um projecto com a Nersant em que se pretende, se tudo correr bem, criar uma Startup de formação diferente, menos de secretariado e mais operativa, com maquinaria, tecnologicamente mais preparada, que não seja simplesmente uma incubadora de empresas. O pavilhão da Nersant está encostado à escola profissional e queríamos envolver também a escola. Espero ainda antes de terminar o mandato formalizar essa parceria com a Nersant.

Não deixa de ser irónico que um dos actuais vice-presidentes da Nersant,

António Rodrigues, seja também candidato à Câmara de Torres Novas. Isso não aquece nem arrefece. Mas há uma coisa muito interessante no meio disto tudo: é que, independentemente do resultado das autárquicas, em princípio, alguém vai ficar vereador. Portanto vai ter de haver diálogo.

Ainda falando em desenvolvimento económico: o parque de negócios da Geriparque criado na cidade tem correspondido às expectativas no que toca à captação de empresas?

A Geriparque tem feito o seu trabalho. Estão lá instaladas grandes empresas, mas poderiam ser mais. É uma situação que deve ser revista na estratégia da sociedade. A Geriparque tem ainda algumas situações por resolver, nomeadamente infra-estruturas que têm de ser concretizadas. Tem havido um bom diálogo e sempre que o município é chamado a resolver situações com a Geriparque tem respondido.

A adesão à empresa intermunicipal Águas do Ribatejo foi uma aposta bem sucedida?

Foi muito bem sucedida. Torres Novas até 2011 tinham um défice mensal brutal em termos de água e não era só pela questão da facturação. Permanentemente havia roturas, havia aldeias que não tinham rede de água, as análises se calhar não eram feitas com a frequência que hoje se fazem. Em suma, a partir de 2011 a Águas do Ribatejo entrou e tem feito um trabalho fabuloso. Temos consciência que ajudámos a equilibrar a empresa, face ao número de contadores que representa Torres Novas, mas também já recebemos investimento superior a 30 milhões de euros e iremos ficar com uma cobertura brutal de saneamento.

A Águas do Ribatejo esteve envolvida em polémica com queixas de clientes nalguns concelhos devido às facturas com valores exorbitantes que receberam. Houve problemas desses aqui em Torres Novas?

Não, que eu saiba houve um caso ou outro, justificado.
Tem confiança na gestão da Águas do Ribatejo? Absoluta confiança. Têm feito um trabalho muito importante, conhecedor, técnico. Têm feito um bom trabalho.

Há uns anos existiu o famoso triângulo estratégico entre Tomar, Torres Novas e Abrantes, que previa uma cooperação entre essas três cidades do Médio Tejo que acabou por dar em nada. Há projectos comuns com municípios vizinhos?

Claro que há! Esse triângulo estratégico até foi publicado em Diário da República, embora não tenha sido muito aproveitado talvez para não complicar o que veio a surgir depois, que foram as comunidades intermunicipais. A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) tem sido uma experiência brilhante em termos de coesão territorial. Todos os 13 municípios são solidários entre si, independentemente da cor política e das suas características. E os três hospitais, em Abrantes, Torres Novas e e Tomar, acabaram por fazer o triângulo; não foi feito de uma maneira foi feito de outra, com objectivos diferentes.

A polémica vacina do vereador

Em Janeiro um vereador do PS esteve envolvido em polémica por ter sido vacinado contra a Covid-19 aproveitando uma sobra. Carlos Ramos entregou o pelouro da Protecção Civil, foi criticado pelo PS e a oposição pediu a demissão. Conta com ele para o próximo mandato?

Ainda é cedo para falar da lista. Estamos em fase de conversações internas a nível do partido e por isso não me vou pronunciar, nem sobre o vereador Carlos Ramos nem sobre outros.

Mas já deve ter o esqueleto da equipa pensado.

Posso ter na minha cabeça mas ainda não é formal. Acho que a questão do vereador Carlos não devia ter acontecido, é um facto. Também não havia com clareza as regras que há hoje - aliás, houve situações que aconteceram por todo o país -, por isso quando pediu a demissão do pelouro da Protecção Civil penso que não tinha outro caminho. Retirar-lhe todos os pelouros poderia ser uma atitude muito corajosa da minha parte, mas tirando o facto que aconteceu, eu não encontrei, e o partido também não encontrou, justificações suficientes para acabar com o trabalho que ele tinha dado mostras de saber fazer, e com dedicação.

O PS já está a projectar estas eleições a médio e longo prazo, já que pode ser o seu último mandato como presidente e a escolha do número dois pode ter em conta uma possível sucessão e a preparação do terreno para as autárquicas de 2025? Claro que a partir do primeiro dia em que se ganham as eleições essa preocupação é latente e temos que criar condições para se ir preparando cada vez mais a sucessão. E, obviamente, é isso que vai acontecer.

Quer dizer que, caso ganhe, a meio do mandato pode abrir caminho ao seu possível sucessor?

Não, se eu ganhar é para ir até ao fim. Essa é uma ferramenta política, mas pessoalmente nunca concordei com isso. Acho que quem for eleito deve estar até ao último dia.

Se dependesse só da sua escolha quem gostaria de ver como sucessor?

Não me pronuncio sobre isso.

Não tem ideias na sua cabeça?

Tenho mas não é altura para falar. Não quero ferir susceptibilidades.

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