Entrevista | 09-06-2021 15:00

“A Cimpor só será um problema se as pessoas que a dirigem não tiverem cuidado”

“A Cimpor só será um problema se as pessoas que a dirigem não tiverem cuidado”
Cláudia Martins é de Alhandra e está a terminar o seu primeiro mandato na vereação da câmara municipal

Cláudia Martins está na recta final do seu primeiro mandato como vereadora eleita pela CDU na Câmara de Vila Franca de Xira. É uma mulher que estuda os dossiês e levanta problemas concretos da população em vez de perder tempo a discutir visões ideológicas.

É natural de Alhandra, terra onde vive e onde confessa por vezes acordar com cinza da Cimpor nas varandas e no carro. Foi treinadora e jogadora de futsal, é obstinada, perfeccionista e professora na Cerci Flor da Vida, em Azambuja. Na sua primeira entrevista a O MIRANTE fala das potencialidades por explorar do concelho.

A CDU anunciou, mesmo em cima desta entrevista, que a Cláudia será a candidata do partido à União de Freguesias de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz (UF). Foi vogal do primeiro mandato de Mário Cantiga. Foi revoltante vê-lo passar para o PS?

Não me assusta nada enfrentá-lo. O Mário tomou uma decisão que é dele e nós cá estaremos para levar o nosso projecto para a frente. Não foi doloroso e não fico nada surpreendida. O percurso que ele tinha vindo a tomar era para aí que apontava. Vai ser um projecto do PS e já sabemos o que esse partido costuma fazer. Continuamos a achar que estamos perante três freguesias e não apenas uma. Foi uma falta de respeito para com a população terem unido estas três freguesias. Além disso nunca poderíamos ter aceite a transferência de competências para as juntas porque sabemos que os valores não eram suficientes para responder às necessidades da população. O que a câmara fez com as juntas de freguesia foi uma vergonha.

As pedreiras desactivadas em Trancoso podem ser uma alternativa para o aterro de Mato da Cruz?

Nem pensar nisso. Nem quero ouvir falar dessa ideia. Temos, sim, de criar condições para melhorar a vida da população e não prejudicá-la.

A UF de Alhandra tem potencialidade para ser a melhor zona residencial do concelho?

Sim, mas não basta fazer apenas reabilitação urbana. Se tivermos uma grande reabilitação urbana mas nada se fizer nas ruas não adianta nada, fica tudo em casa na mesma quando chegar do trabalho. Alhandra precisa de dinamismo e mais animação na rua. Somos uma freguesia com muitas potencialidades para oferecer a quem escolher viver connosco. Não tenho dúvidas que temos condições para proporcionar uma grande qualidade de vida.

Ainda que viva com uma cimenteira a poucos metros que, por vezes, causa transtornos…

Já me aconteceu ter cinzas da Cimpor na varanda, na roupa e no carro. A Cimpor só será um problema se as pessoas não tiverem cuidado. A empresa dá trabalho a muitos habitantes da terra e não somos contra a Cimpor. Somos contra, sim, quando não há a manutenção e o cuidado que devia haver para que esses problemas não aconteçam. Se houver manutenção nos fornos e nos filtros tudo corre bem. É preciso investimento para salvaguardar a saúde e qualidade de vida das pessoas que aqui moram.

Está na recta final do seu primeiro mandato como vereadora na Câmara de Vila Franca de Xira. Como correu o desafio?

Foi assustador quando me convidaram porque foi muita responsabilidade. Não andamos a brincar e levei tudo muito a sério. Tive receio que não pudesse estar à altura do que era exigido, mas felizmente trabalho num colectivo que me ajudou muito. Acabou por ser tranquilo e encaro todo o trajecto como um crescimento. Ganhei imenso conhecimento do concelho. Senti que Alberto Mesquita me respeitou. Tem os seus ideais e eu tenho os meus. Foi tranquilo dentro da natural intranquilidade da gestão PS, que podia ser muito melhor.

O que falhou?

Basta olhar para VFX para ver o que está mal. É um concelho morto. Quem viu o concelho e quem o vê hoje. Não tem nada a ver. Se sairmos de casa à hora de jantar não se vê ninguém. É fantasmagórico e por isso é preciso dar vida às localidades. Quem vem cá dormir não pode só chegar e regressar a Lisboa. Tem de viver a terra onde reside. Somos um concelho espectacular, com uma frente ribeirinha muito boa. Por isso tem de ser mais dinâmico. Temos imensas vantagens e a proximidade com Lisboa é uma delas. Precisamos de trazer mais população para o concelho combatendo ao mesmo tempo a especulação dos preços das rendas e das casas. Precisamos de capitalizar a proximidade que temos com Lisboa.

“Gastou-se milhões na Marinha para nada”

Há precisamente quatro anos a CDU foi contra a compra das antigas instalações da Marinha. Como se sente vendo que nada avançou?

Revoltada por nos terem mentido. O tempo veio dar-nos razão. Nada mudou em quatro anos excepto o facto da câmara ter perdido uns milhões. A câmara não fala com o Governo. Antes de comprar a Marinha não ouviram a comunidade e decidiram sozinhos comprar aquele espaço. Agora vemos que se gastou milhões de euros para nada. A população tem de ser envolvida nestes projectos.

O que era urgente melhorar?

O contacto directo com a população. Não pode ser só trabalho de secretária. A câmara tem de sair dos gabinetes e ouvir a população nos projectos estruturantes. O PS tem sido uma gestão de quero, posso e mando e nunca ouvirá a população. Depois é o que temos visto. E era bom que as coisas fossem feitas de igual modo nos quatro anos de mandato e não apenas no último, como é visível.

Ser uma mulher na política é uma vantagem ou desvantagem?

Nem uma nem outra. Somos todos seres humanos e não vejo de que forma isso possa ser diferente. Nunca fui assediada por ser uma mulher num mundo de homens. Acredito que podemos dar o nosso contributo apaixonado pela nossa terra. Quando há coisas a cumprir temos de fazer. Mas na vida e no trabalho não pode falhar a honestidade. Sou obstinada, gosto de fazer mais e fico chateada comigo quando não consigo fazer melhor.

De filha de operários a jogadora de futsal

Cláudia Martins é filha única, tem 38 anos e é natural de Alhandra. É filha de pais operários mas, apesar das dificuldades, nunca faltaram o pão e os livros em casa. Recorda uma infância feliz nas ruas de Alhandra numa altura em que o hábito era ir passear a Vila Franca de Xira e não a Lisboa. Começou a ganhar consciência política em casa ainda muito nova. O pai era comunista e foi preso político. “Os meus pais sempre foram explorados. O meu pai trabalhava nos antigos telhais e morreu com marcas nos ombros das queimaduras que sofreu a levar as telhas quentes. Se não quero que haja exploração do homem pelo homem só podia ser comunista”, conta.

É professora em Azambuja, na Cerci Flor da Vida, há 15 anos. Trabalhar no ensino especial é um desafio e requer muito empenho. Tira-a do sério a mentira. Gosta de viajar. Foi jogadora e treinadora de futsal no Alhandra Sporting Club e no Arrudense, de Arruda dos Vinhos. O seu vício secreto é ler embora admita que tem pouco tempo para o fazer. Passa semanas sem ligar a televisão e é leitora de O MIRANTE. “A imprensa regional é muito importante porque é a que está mais próxima da população”, conclui.

Entrou na Juventude Comunista com 14 anos. Fez-se militante do PCP em 2000. Esteve ligada às comissões de freguesia do PCP em Alhandra e em 2013 entrou no executivo da junta – no primeiro mandato de Mário Cantiga - até 2017, altura em que foi eleita para a vereação municipal.

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