Entrevista | 09-06-2021 10:00

Os filhos de uma mãe coragem

Os filhos de uma mãe coragem
SOCIEDADE
Elsa Lourenço sempre sonhou ser mãe. Lourenço e Caetana nasceram através do método de Fertilização In Vitro

Quando a possibilidade de ser mãe se aproximou do fim, e não havia perspectivas de pai, Elsa Lourenço tomou as rédeas da situação e começou a fazer tratamentos de fertilidade. Os filhos, Lourenço e Caetana, nasceram num laboratório com o recurso à técnica de Fertilização In Vitro. O MIRANTE conta a história de Elsa, um exemplo de força de vontade e de que o desejo de ser mãe consegue mover montanhas.

Lourenço, de três anos, é uma criança doce e irreverente, sempre pronto para dar um abraço ou fazer uma traquinice que deixa os adultos por perto de coração nas mãos. Caetana, de seis meses, é a menina dos olhos grandes e castanhos, sempre de laço no cabelo, a quem as pessoas já reconhecem o verdadeiro amor. Os dois irmãos, inseparáveis no choro e no riso, são filhos de uma mãe maior que teve a coragem de os fazer num laboratório, em Espanha, recorrendo ao método de fertilização in vitro (FIV). Não têm pai biológico mas têm uma mãe que também é pai e que não consegue esconder a felicidade de acumular os dois papéis. O segredo para aguentar o ritmo infernal dos filhos é fácil de explicar: “Não sou uma mãe galinha; se caírem têm que se levantar sozinhos; não quero coitadinhos cá em casa”.

A história de Elsa Lourenço está repleta de derrotas e frustrações que são rapidamente esquecidas pela capacidade que tem em resistir ao fracasso e pela necessidade de continuar a lutar pelos seus sonhos. Natural da Golegã, trabalha como chefe de divisão de intervenção social no município há mais de duas décadas. A dedicação ao trabalho, e o “azar” de ainda não ter encontrado o homem da sua vida, foram o travão que a impediram de realizar o sonho da maternidade mais cedo. “Nunca gostei da ideia de ter de passar por divórcios ou chatices em casa. Sempre quis um homem perfeito, mas nunca o encontrei”, afirma. Aos 40 anos, já lá vão seis, tomou a decisão mais importante da sua vida. “No dia do meu aniversário decidi que não ia esperar mais e entrei em contacto com uma clínica de procriação medicamente assistida. Foi um passo decisivo, mas estava longe de imaginar o que me esperava”, conta.

A conversa com o repórter de O MIRANTE decorre na sala de estar da sua casa, junto ao jardim do Equuspolis na Golegã. Os lugares da sala estão reservados para o filho Lourenço, a cadela Violeta, e a vizinha Cristina, que adormece a filha Caetana.

As primeiras três tentativas de inseminação artificial correram mal e o sentimento de impotência e desespero cresceram à medida que o tempo passava. Um ano e meio depois Elsa recorre a outra técnica, conhecida como fertilização in vitro (FIV), que consiste na união do óvulo com o espermatozóide num laboratório, com o objectivo de obter embriões já fecundados para transferir para o útero materno. A primeira FIV também não resulta, mas na segunda chegaram as boas notícias: estava grávida de gémeos. “Era o meu sonho desde que comecei a querer ser mãe”, confessa. O maior desgosto da sua vida acontece 22 semanas depois ao entrar no sexto mês de gravidez. “Um dos bebés parou de crescer e tive de interromper a gravidez. Decorria a Feira do Cavalo, os meus amigos felicitavam-me e eu já sabia que tinha de abortar. Foi tão duro que não lhe consigo explicar por palavras”, recorda, com tristeza.

O luto da perda dos gémeos é feito sem verter uma lágrima; o desânimo inicial converte-se numa força capaz de derrubar qualquer obstáculo: “Reprimi muitas emoções, tive de aprender a lidar com as frustrações, mas descobri que tenho forças onde não sabia que as tinha e isso tornou-me numa pessoa mais confiante”. Alguns meses depois volta a fazer mais duas FIV que não resultam, até que, em Março de 2017, descobre que está grávida de Lourenço. Ao fim de três anos de tratamentos, e dezenas de milhares de euros gastos, Elsa sorria novamente. Lourenço nasce ao fim de oito meses e a mãe chora pela primeira vez quando o recebe nos braços. “É um misto de sensações; é uma alegria imensa, mas também recordo o medo que senti de poder não vir a ser amada pelo meu filho”, desabafa.

“Tenho amor que chegam para 20 pais”

Caetana nasceu numa altura em que Elsa já não tinha dúvidas das suas capacidades como mãe e pai. Embora tenha que dar resposta a cerca de meia centena de funcionários diariamente, já não leva trabalho para casa para poder passar tempo de qualidade com os filhos. O Lourenço gosta de a ajudar nas tarefas domésticas, sobretudo quando é preciso cozinhar, limpar a casa ou estender a roupa. “O rapaz é um prato; agora anda encantado com a Benny, uma vizinha do nosso prédio que tem mais sete anos do que ele”, conta, com um sorriso no rosto. A forma que tem de educar os seus filhos não foge muito aos traços de personalidade que a definem: rebeldia, mente aberta e sem receios. “Quero ser uma mãe cinco estrelas. Apenas quero que os meus filhos sejam pessoas simples e minimamente inteligentes para se poderem desenrascar sozinhos na vida”, afirma.
Com o apoio incondicional da família, principalmente dos seus pais, Elsa não vive a pensar no momento em que terá de dizer aos filhos como vieram ao mundo. “Não me preocupo nem um bocadinho com isso. O facto de ter de existir a figura de um pai e uma mãe é insignificante. Tenho amor que dá para 20 pais e eles vão perceber que são o resultado desse amor e de muito desejo”, reitera.
As despedidas dão-se duas horas depois no jardim do Equuspolis, onde Lourenço brinca todos os dias quando vem da escola. Enquanto Caetana dorme o sono dos deuses o irmão não larga a mão de Benny, a amiga candidata a futura namorada. Elsa Lourenço olha para o filho e o brilho que o seu olhar carrega diz que “é bom ser adulto, mas ser criança é ainda melhor”.

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