Entrevista | 12-09-2021 07:00

Anghel Ivanof fugiu da ditadura para encontrar o paraíso em Alhandra

Anghel Ivanof fugiu da ditadura para encontrar o paraíso em Alhandra
Apesar de ser um rosto bastante conhecido em Alhandra a história de vida de um dos grandes dinamizadores da canoagem na vila, Anghel Ivanof, era até agora desconhecida

A história de vida de Anghel Ivanof dava um filme: teve uma infância pobre durante a ditadura comunista na Roménia e só comia carne aos fins de semana. Chegou a ser um dos atletas preparados pelo ditador Ceausescu para ir às olimpíadas de 1992. Assim que pôde fugiu para Portugal à boleia e de forma clandestina, radicando-se em Alhandra onde começou a dar aulas de canoagem no Alhandra Sporting Club. Pelas suas mãos passaram centenas de jovens atletas. Aprendeu a língua a ver telenovelas brasileiras e é uma figura popular na vila, onde toda a gente o conhece como o “Anghel das bicicletas”.

De todas as localidades no concelho de Vila Franca de Xira, Alhandra é a que tem maior proximidade com o rio Tejo e a que melhor soube potenciar essa mais-valia. A opinião é de Anghel Ivanof, 48 anos, um nome histórico da canoagem da vila ribatejana e um rosto conhecido das gentes da terra.

“Alhandra é um sítio excelente para viver porque está tudo muito cuidado, limpo e arranjado. E o passeio pedonal foi uma grande mais-valia para todos. De todas as localidades no concelho somos a terra com a melhor ligação à água”, conta a O MIRANTE o ex-atleta e treinador de canoagem que foi responsável por captar e formar muitos dos jovens talentos da modalidade em Portugal, como Fábio Cameira, Diogo Raposo ou David Gonçalves.

“Infelizmente esses bons acessos à água fazem com que ainda haja muita gente a morrer afogada por não saber respeitar o rio. Aparece muita gente que pouco ou nada sabe nadar. Há dias em que o Tejo está um espelho, parece um lago, mas é sempre perigoso e traiçoeiro”, diz o romeno que conhece as águas como a palma da mão. Para Anghel não se pode facilitar na hora de entrar na água. “Podemos ser os maiores nadadores na piscina mas no rio é muito diferente”, confessa.

A história de vida de Anghel Ivanof é peculiar e vai da pobreza até ao renome mundial sempre com Alhandra no coração. Nasceu na Roménia durante a ditadura comunista de Nicolae Ceausescu, que geriu os destinos daquele país com mão de ferro perseguindo, encarcerando e executando dissidentes. Recorda uma infância “muito má” e pobre, de um “período negro” da história romena. “Tinha ideias que prejudicavam imenso o povo. Na minha casa só se comia carne ao fim-de-semana e o acesso a alimentos era escasso. Ele quis acabar com a dívida pública da Roménia à conta das pessoas. Por isso durante anos só podíamos comer meio pão por dia e comprar um quilo de farinha por mês. Foi muito mau”, recorda a O MIRANTE.

O pai era mineiro e a mãe doméstica. “O que vemos hoje em países como a Venezuela e onde pensamos que aquilo é mau demais para ser verdade, eu acredito. Porque passei por aquilo”, confessa, emocionado.

“Tão mau é um ditador de esquerda como de direita”

A sorte de Anghel foi ser um miúdo alto: aos 13 anos já media um metro e oitenta e foi chamado para integrar a selecção nacional de preparação para os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 na modalidade de canoagem. Antes já havia sido vice-campeão do mundo. Fez parte da geração de ídolos que Ceausescu usava para alimentar a propaganda do regime. Só que quando começou a viajar percebeu que a vida, afinal, era diferente do que o regime pintava. “Vivíamos numa bolha. Estávamos fechados e a informação do que se passava era quase toda falsa. Para mim, tão mau é um ditador de esquerda como de direita. É terrível”, recorda.

A 25 de Dezembro de 1989, depois de décadas no poder, o líder romeno foi julgado e condenado pelo genocídio de mais de 60 mil pessoas. Foi executado a tiro de espingarda juntamente com a mulher. Nessa altura estava Anghel a treinar para fugir do país.

Clandestino à boleia para Portugal

A chegada ao centro de alto rendimento romeno deu a Anghel o direito de comer carne todos os dias e até, para seu espanto, sobremesas em todas as refeições. “Era um sonho para quem vinha do nada”, recorda. Em 1993, depois de vários anos a pensar como sair da Roménia, viu-se lado a lado com uma comitiva portuguesa numa prova da taça do mundo que se disputava em Espanha. Na mesa estava o então atleta Vítor Félix, hoje presidente da Federação Portuguesa de Canoagem. “Pedi-lhes se podia vir com eles para Portugal e disseram-me logo para trazer as coisas no fim da prova. Vim à boleia com eles apenas com a roupa que tinha no corpo e o saco de desporto. Foram fantásticos”, recorda.

Foi através do Alhandra Sporting Club (ASC) que se tratou da papelada necessária para integrar Anghel no país. “No primeiro dia fiquei na casa de um atleta, comoveu-me muito o calor dos portugueses. Achei tudo surreal, foram de uma amizade imensa apesar de não me conhecerem e de haver a barreira da língua”, recorda.

Rapidamente se tornou atleta do ASC, tendo somado mais de uma dúzia de medalhas em competições nacionais. Depois foi convidado para ser formador das camadas jovens. Pelas suas mãos passaram centenas de jovens do concelho e da região. “Fui também o primeiro treinador no Alhandra SC a apresentar um K4 de raparigas que se tornaram campeãs nacionais. Crescemos muito e chegámos a ser dos melhores do país na canoagem, foi um grande orgulho”, recorda.

Aprender português com a telenovela

Começou a aprender português com uma idosa de Alhandra que lhe arrendou um quarto. “Considero-a a minha avó portuguesa. Ela via as novelas brasileiras todos os dias depois de jantar e foi assim que fui aprendendo a língua. Sentava-me com ela na sala a ver uma novela da qual não percebia nada. Cheguei a Portugal em Agosto mas em Dezembro já conseguia falar. O pior era ela, que na altura falava comigo mas eu não entendia nada”, recorda com um sorriso.

Ainda hoje vive em Alhandra, terra onde se casou com uma alhandrense. Diz que já vê a terra como sua e não pensa mudar. Não guarda rancor ou tristeza ao país natal mas sente-se melhor no concelho de VFX.

Trabalhou nas oficinas da OGMA em Alverca e foi lá que aprendeu o ofício que entretanto o tornou famoso no mundo das bicicletas. Despediu-se para fundar com a mulher uma empresa de produção de acessórios para bicicletas em carbono. “Faço questão que se saiba que tudo o que fazemos sai de Alhandra para o mundo”, conclui o homem que se confessa um curioso, perfeccionista e viciado em ser sempre o melhor, seja na vida ou na canoagem.

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