Entrevista | 13-09-2021 15:00

Nair Dias é uma lutadora que nunca se dá por vencida

Nair Dias é uma lutadora que nunca se dá por vencida
Nair Dias é a primeira atleta do distrito de Santarém a medalhar pelo Comité Olímpico Internacional

É na verdadeira acepção da palavra, uma mulher que vai à luta. Nair Dias, atleta natural da Chamusca, compete e soma medalhas pela Europa e pelo mundo nas modalidades de jiu jitsu, beach wrestling, grappling, ne waza e luta olímpica. Livre de estereótipos e superstições, prefere treinar com homens e não conta nódoas negras. A oscilação de peso e a pressão da alta competição são os combates mais duros de travar.

Nair Dias sempre teve interesse pelo mundo do desporto, mas foi adiando a sua entrada. Foi já na vida adulta que se deixou atrair para os desportos de combate pelo marido, o ex-judoca Fábio Santos. Fez-se ao tapete e num ápice a adrenalina da competição começou a correr-lhe nas veias. Aos 29 anos já conquistou oito títulos de campeã nacional, um de campeã da Europa de jiu jitsu, três medalhas de bronze em campeonatos do mundo de ne waza (arte marcial japonesa) e de grappling, a modalidade de luta corpo a corpo em que é a actual campeã da Europa no seu escalão de peso.

Numa conversa realizada um dia depois de ter chegado do circuito mundial de beach wrestling, realizado em Itália, a atleta natural da Chamusca e residente em Torres Novas fala da pressão da alta competição, das lutas com a sua mente e da vontade de ir mais longe. Não sem antes explicar que nunca foi como os atletas que desde cedo perceberam o lugar que o desporto tinha que ocupar nas suas vidas. “Nunca quis e nunca pensei tornar-me atleta de alta competição, nem quando me diziam que me desenrascava bem pensava sequer chegar até aqui”, afirma, admitindo que perseguir medalhas se tornou numa espécie de vício saudável para o corpo, mas com o qual nem sempre a mente lida bem.

“Em prova o meu maior inimigo é a minha mente e não a minha adversária. Sinto a pressão de ter chegado onde cheguei e de não querer falhar e desiludir os que acreditam e têm a expectativa que vou medalhar”, afirma a atleta que compete pela selecção nacional e pela Associação Desportiva Fábio Santos, de Riachos, concelho de Torres Novas.

“Dez por cento é técnica e 90 por cento é cabeça”

Pelas lutas interiores que já travou, Nair Dias lamenta que em Portugal se dê “muito pouca atenção à saúde mental dos atletas”, sublinhando que, para se chegar ao topo, “dez por cento é técnica e 90 por cento é cabeça”. Sem tabus, revela que já procurou a ajuda de um treinador mental, que lhe custou 500 euros num mês. “É muito dispendioso e não temos qualquer apoio”, vinca.

Ser treinada pelo marido tem tanto de bom como de ruim. “Há dias em que a luta é no treino e em casa e torna-se muito difícil separar as águas”, porque a conversa, inevitavelmente, “vai parar ao que correu mal e é preciso corrigir” no tapete. A pressão e o medo de falhar, revela, também são maiores. No reverso da medalha, porém, encontra o amor e o suporte incondicondicional que precisa nas vitórias e nas derrotas.

Focada e persistente, Nair Dias tem o tempo contado ao minuto. Entra às seis da manhã na empresa onde trabalha, despega às 15h00, pega no saco de treino e duas vezes por semana viaja até Lisboa para treinar duas horas no Centro de Alto Rendimento do Jamor e outras tantas no espaço do clube. Nos restantes dias da semana os treinos fazem-se entre Ponte de Sôr e Riachos.

Se é cansativo? “Muito, claro que já me passou pela cabeça desistir. Às vezes falta tempo até para os filhos”, diz, lamentando que neste país não se consiga viver só do desporto. “Quando estamos a representar o nosso país temos direito por lei a faltar ao trabalho, mas já senti a pressão: ou vens ou és despedida”, diz.

Ambiciosa e sonhadora, Nair Dias já se prepara para o circuito mundial de beach wrestling, na Grécia, a Copa da Europa de jiu jitsu, em Espanha, e o Campeonato do Mundo de grappling, na Sérvia. Pelo meio vai estrear-se na modalidade de luta olímpica e sonha com os Jogos Olímpicos.

Mãe de um casal

Mãe de um rapaz de nove anos e de uma menina de dois, não troca um convívio com amigos por uma noite caseira. Tem um bom suporte familiar para poder andar a lutar pelo mundo e cinco tatuagens, duas delas ligadas ao desporto que pratica. Gosta de se arranjar e considera-se uma mulher feminina que luta contra o estereótipo que uma atleta de artes marciais se veste e comporta como um homem.

“Não é fácil lidar comigo em dieta”

Teimosa mas livre de superstições estranhas mas comuns em atletas de alta competição, Nair Dias tem uma preferência que a torna mais segura da vitória numa prova de jiu jitsu: “Ficar sempre por cima” para ter mais facilidade nos movimentos técnicos e maior controlo sobre a adversária.

Na maior parte do tempo treina com homens e isso “não incomoda de todo”, pelo contrário “dá vantagem”, porque são mais pesados e naturalmente aplicam mais força. Não tem medo de aleijar nem de ser aleijada. Aliás já deixou de se importar com as nódoas negras que tem nas pernas e perdeu a conta ao número de vezes que partiu um dedo do pé.

O peso de Nair Dias oscila propositadamente de prova em prova. Ora tem que pesar 50Kg, ora tem que fazer o ponteiro da balança bater nos 54Kg. “Nem mais nem menos um quilo”. A receita? “Corte em tudo”, desde hidratos a açúcares, proteína e até nos líquidos. O corpo ressente-se e o feitio, admite, também. “Não é fácil lidar comigo em dieta”.

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