Entrevista | 20-09-2021 21:00

Apicultor da Bemposta teme pelo futuro do planeta

Apicultor da Bemposta teme pelo futuro do planeta
As abelhas de António Farinha têm cada vez mais a sua vida dificultada

A plantação intensiva de eucaliptos é um dos factores que coloca em risco a sobrevivência das colmeias. O MIRANTE conversou com António Farinha, natural da Bemposta, que encontrou na apicultura a sua felicidade e garante que as abelhas são indispensáveis para a vida no planeta.

Desde que iniciou o seu projecto de apicultura, António Farinha nunca viu tão pouco mel; se no início da sua actividade conseguia retirar cerca de 40 quilos de mel por ano, agora a quantidade caiu para menos de metade. “Antigamente este local era um campo cheio de urze e rosmaninho, agora são campos de eucalipto. A plantação intensiva de eucaliptos promove a ocorrência de incêndios e põe em risco a continuidade da apicultura”, afirma com tristeza.

António Farinha, natural da Bemposta, concelho de Abrantes, considera que as condições ideais para as suas colmeias passam por estarem rodeadas de rosmaninho, a base do mel que vende aos seus clientes de várias décadas. Além disso, diz que as condições atmosféricas são fundamentais, pois se a seca persistir o rosmaninho não aguenta. “Antigamente tínhamos uma espécie de mistura de rosmaninho com urze, ficava um mel mais escuro, multifloral, mas as urzes estão a desaparecer. O rosmaninho ainda vamos tendo e um mel à base de rosmaninho é considerado de excelência”, conta o apicultor que diariamente visita um dos seus doze apiários, uma vez que há sempre trabalho para fazer.

António Farinha refere que um dos grandes males, e muito antigo, que coloca em perigo a sobrevivência das colmeias designa-se por varroa das abelhas, que é um ácaro esctoparasita que infesta as colónias de abelhas. “É um problema que obriga a tratamentos semestrais que rondam os 2.500 euros, sendo que apenas metade do valor é apoiado pelo Estado. Não existe colmeia que não tenha a varroa, mas quanto mais tiver menos possibilidade tem a colmeia de sobreviver”, explica.

António Farinha diz que encontrou na apicultura uma actividade que o faz feliz, embora também o deixe cansado devido à exigência do trabalho. Afirma que vai continuar a trabalhar até que a saúde o permita, até porque as abelhas são muito importantes para a reprodução da flora e da fauna.

Autoridades ignoram ninho de vespa asiática

Durante dez dias o trabalho do apicultor António Farinha, 71 anos, foi exaustivo: capturou cerca de seis centenas de vespas asiáticas, já que as autoridades competentes, depois de alertadas, não se dirigiam ao local para remover o ninho de grandes dimensões que se encontrava no cimo de um eucalipto. “Capturei algumas e outras pus-lhes veneno em pó, como qualquer apicultor faz para proteger o seu apiário. Elas põem-se junto à colmeia, quando uma abelha sai elas agarram-na, pousam-na, arrancam-lhe as asas e patas e levam-na para alimentar a criação. Tenho duas colmeias que quase de certeza não vão resistir”, explica o apicultor com mais de quatro décadas de actividade.

Curiosamente, no mesmo dia em que O MIRANTE falou com António Farinha, residente na Bemposta, a Protecção Civil apareceu para remover o ninho, com recurso a uma pistola com veneno. O apicultor, que antes de ter partido para o Ultramar já tinha algumas colmeias, possui agora cerca de quatro centenas, quase todas na freguesia de Bemposta e São Miguel do Rio Torto, de onde é natural.

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