Entrevista | 22-09-2021 21:00

Suicídio é um grito silencioso que precisa de ser ouvido

Suicídio é um grito silencioso que precisa de ser ouvido
Vítor Cotovio é psiquiatra há 35 anos e director clínico na Casa de Saúde do Telhal (foto DR)

No mundo ocorrem cerca de um milhão de suicídios por ano, o que significa que a cada 40 segundos alguém põe termo à vida. Entre os jovens dos 15 aos 34 anos é a segunda maior causa de morte.

Em Portugal suicidam-se em média três pessoas por dia. O suicídio ainda é assunto tabu na sociedade portuguesa?

Ainda é, mas menos que há umas décadas. Em parte por causa de estratégias como o Dia da Prevenção do Suicídio, que pretendem sensibilizar as pessoas e desmontar o que provoca o estigma. A ocultação do suicídio de um familiar, porque se sente vergonha e culpa, por exemplo, é facilitadora da permanência desse tabu, tal como os mitos associados ao acto.

Que mitos são esses?

Quem avisa que se vai matar é porque não se mata; que uma tentativa de suicídio só serve para manipular; que quem põe termo à vida são pessoas fracas ou pouco inteligentes. Tudo isto são mitos que precisam de ser desmontados, porque a possibilidade de suicídio atravessa qualquer grupo etário, ciclo de vida, estatuto profissonal ou social. Ao mantermos estes rótulos estamos a fazer o oposto ao correcto, que é a identificação dos factores de risco e de protecção em relação à probabilidade de suicídio.

Qual é o caminho?

Montar bem aquilo que na gestão do suicídio se chama prevenção primária, secundária e terciária, ou seja, evitar o suicídio na população em geral, perante pessoas de alto risco tentar prevenir tentativas e perante o suicídio consumado tentar evitar o contágio. Importa sublinhar que o suicídio é um grito de ajuda que não foi ouvido, que só desaparece com prevenção e literacia em saúde mental.

A sociedade não legitima o sofrimento do outro?

Não, quando não está a passar por ele. Ainda há pessoas que olham para a depressão como se fosse uma fraqueza e dizem que nunca lhes aconteceria. Se alguém partir uma perna ninguém questiona que é preciso tratá-la, mas com a depressão é diferente. Ainda há quem olhe para ela como uma não doença.

A pandemia veio de certo modo despertar o mundo para a importância da saúde mental?

Sim. Para o mal e para o bem, a pandemia trouxe uma valorização da saúde mental, ao confrontar o homem com a incerteza e a falta de controle. Abriu a nossa fragilidade e colocou-nos numa mesma vivência, expondo a importância da saúde mental. No entanto, apesar de estarmos na mesma tempestade, temos barcos e remos diferentes para lidar com situações angustiantes.

A falta de controle, a solidão e a incerteza da tempestade pandémica vieram agravar a taxa de suicídio?

Qualquer crise aumenta os factores de risco de suicídio e a pandemia é, por si só, um desses factores ao roubar o sentimento de pertença e comunidade e trazer solidão. Além dela, continuam a existir os outros, como ter uma doença mental ou crónica, não ter uma rede social de apoio ou ter uma experiência de perda. É preciso estar atento.

Os sinais estão sempre presentes?

Podem não estar mas tendencialmente estão, só que não são, muitas vezes, perceptíveis pelas famílias e até mesmo por técnicos de saúde. Apesar de a maior parte das pessoas que se suicidaram não ter contactado com os serviços de saúde mental, geralmente vai a um serviço de saúde geral reportar uma queixa física, que pode ser subestimada. Mesmo quando não é - voltamos aos mitos - ainda há técnicos de saúde que pensam que não se deve falar de suicídio à pessoa, porque assim é que se vai mesmo matar.

Qual é a atitude correcta a ter?

Ter sensibilidade para não julgar, compreender, ouvir, mostrar disponibilidade para ajudar e não desvalorizar a dor e a tristeza do outro. Dar palpites como: o cenário não é assim tão mau, vai ao cinema que isso passa é estarmos a rejeitar o outro e a negar os sinais.

Há um género ou grupo etário onde o suicídio seja mais frequente?

É duas vezes mais frequente nos homens, em parte porque utilizam métodos mais eficientes, como o tiro ou enforcamento. As mulheres utilizam métodos menos eficazes, como o uso de medicamentos, mas têm, no entanto, mais tentativas. Relativamente aos grupos são os extremos, ou seja, os idosos, devido à solidão e doenças e os jovens, por causa da dificuldade em se projectarem no futuro. Entre os 15 e os 34 anos o suicídio é a segunda maior causa de morte.

Não temos ainda, em Portugal, respostas adequadas?

Não. Num mundo ideal teríamos acesso rápido a serviços de saúde mental, mas ainda há muita dificuldade de acessibilidade. Não há psicólogos em número suficiente nos cuidados de saúde primários, nas escolas, nem a formação necessária dirigida aos profissionais de Medicina Geral e Familiar para a identificação dos factores de risco, protecção e condução de diálogo para se estabelecer uma aliança terapêutica com a pessoa com ideação suicida.

O factor socio-económico como impeditivo no acesso à ajuda especializada também pesa?

Pesa e é por si só um factor de risco. Alguém que se sente impotente para resolver os problemas financeiros, acha que está a falhar para com os seus e isso pode levar à desistência. Depois, claro, ao não existir um serviço público eficaz e a pessoa não conseguir ter acesso ao privado por insuficiência económica aumenta o risco.

Entre o sentimento de impotência e um dilema ético

Já sentiu enquanto médico psiquiatra o sentimento de impotência, de sentir que falhou?

Sem dúvida. Se alguém morre, como resposta emocional, achamos sempre que se podia ter feito algo diferente. Fazendo uma autópsia psicológica importa perceber que não sou omnipotente e que não está nas minhas mãos a possibilidade de controlar o gesto dos outros.

Saber que um paciente se vai suicidar constitui para si um dilema ético, entre respeitar a confidencialidade ou avisar alguém?

Sim e dos complicados. O paciente tem de mim a privacidade total, mas a confidencialidade absoluta pode estar condicionada no momento em que me comunica que vai cometer suicídio. Tem que ficar claro, desde o início, entre mim e essa pessoa esta diferença e que se esse momento chegar lhe vou dizer que tenho que avisar alguém da família ou o 112. Pode haver quem me ponha um processo disciplinar pela quebra de confidencialidade, mas no limite tive que tomar uma decisão.

Alguma vez optou por avisar alguém?

Já me aconteceu com jovens avisar a família.

Já correu para tentar salvar alguém de cometer suicídio? J

á aconteceu ligarem-me a dizer que estão na iminência, e eu correr para falar ou abrir a porta do consultório. Mostrar disponibilidade, tentar adiar a situação e dar espaço à pessoa para explicar o que a levou naquele momento a ter intenção de se suicidar.

Quer partilhar um episódio real que teve um final feliz?

Posso partilhar uma que me marcou e que embora se tenha passado há 30 anos continua muito presente. Durante um trabalho de prevenção e identificação de riscos com a articulação de vários profissionais de saúde, uma jovem, de 16 anos, ao terminar a aula deixou na ponta da secretária um papel com um poema escrito. Era um aviso da sua intenção e ao mesmo tempo um grito de ajuda [que terminava assim]: “Ajudem-me a encontrar-me/Puxem-me de novo para a vida”. Encontrar este poema permitiu-nos actuar no imediato.

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