Entrevista | 16-10-2021 12:00

A Sofalca está no campo entre sobreiros e é lá que produz aglomerado de cortiça

A Sofalca está no campo entre sobreiros e é lá que produz aglomerado de cortiça
Paulo Estrada é administrador da Sofalca que emprega 40 trabalhadores

A Sofalca, na Bemposta, concelho de Abrantes, tem 55 anos e, por trabalhar com um produto natural como a cortiça, num mundo preocupado com o meio ambiente, tem cada vez mais encomendas.

Como é trabalhar com um produto natural, a cortiça, gerado por uma árvore protegida?

O sobreiro é uma árvore protegida desde o tempo de D. Dinis e hoje em dia é símbolo nacional como a bandeira ou o hino. É uma árvore que não posso cortar sem licença, mas, por outro lado, ninguém me garante o preço da cortiça que extraio apenas de 9 em 9 anos, o que é um contrasenso. Isto leva a que, ciclicamente, muita gente abandone o montado de sobro e ninguém plante sobreiros porque sabe que a primeira vez que vai tirar a cortiça é após trinta anos.

Não vale a pena plantar sobreiros?

Se decidir plantar só vou ter dinheiro ao fim de 50 anos. Costuma dizer-se que o eucalipto é para mim, o pinheiro para os meus filhos e o sobreiro para os meus netos. E é difícil uma pessoa ir semear sobreiros porque aquela terra vai ficar empenhada para a vida toda porque os sobreiros não se podem cortar.

Referiu-se a 50 anos mas a primeira extracção é feita ao fim de 25 ou 30 anos.

Ao fim de 30 anos na primeira vez que se extrai, é a cortiça virgem. Depois tira-se de 9 em 9 anos até aos 150 ou aos 200 anos de duração da árvore. Só na terceira extracção é que tenho a cortiça amadia, que é a que tem qualidade para fazer rolhas. Quer a cortiça virgem quer a secundeira, que sai 9 anos depois, não dão para fazer rolhas porque são demasiado abertas e porosas. É tudo para triturar e fazer parquet e, eventualmente, design, mas na altura em que comecei na Sofalca não se fazia design.

O aglomerado de cortiça expandida é o principal produto que sai da fábrica da Sofalca?

Desde o início. É um material usado para o isolamento térmico e acústico no sector da construção e mais de 80% da produção é para o mercado internacional. O aglomerado negro de cortiça expandida alia as características térmica e acústica à sustentabilidade do 100% natural. É eterno e permeável ao vapor. Evita a condensação. E nos últimos anos foi descoberta esta textura maravilhosa, este odor maravilhoso e este toque para decoração/mobiliário/design. Na altura da crise na construção a Sofalca começou a apostar no design.

O que foi feito?

A Sofalca continua com o seu foco principal no isolamento mas, com o design em expansão, criou a Blackcork, em parceria com o designer Toni Grilo, e fabrica mobiliário contemporâneo utilizando o aglomerado de cortiça e a Gencork, em parceria com o ateliê DigitaLab, que explora soluções para revestimento de paredes. Para além daquelas marcas criou ainda a solução Corkwave para revestimento de fachadas à vista com desenho tipo onda.

A fábrica da Sofalca está em pleno campo no meio dos sobreiros. Se fosse hoje o mais certo era estar numa zona industrial. Como foi autorizada?

Antes do 25 de Abril também eram necessárias licenças e autorizações e na altura em que o meu pai e os meus tios criaram a empresa já havia pressão contra a instalação de algumas fábricas de cortiça expandida como esta. O Governo impôs juntar vários sócios corticeiros e vários lavradores. Ou seja, um projecto integrado onde não faríamos concorrência a outros corticeiros pois estaríamos integrados juntamente com lavradores que tinham a cortiça para vender.

O que aconteceu às outras fábricas?

As outras fábricas fecharam todas, umas com o 25 de Abril, outras por causa da expansão urbanística que conquistou os terrenos junto às cidades ou por imposições dos códigos de trabalho, que fez com que o custo salarial tenha dificultado a sustentabilidade de algumas empresas.

Também surgiram novos produtos sintéticos, para isolamentos, mais baratos.

O mundo e a procura mudaram e dessas fábricas todas que faziam cortiça expandida, restaram o grande grupo Amorim, com cerca de 70% ou mais do negócio da cortiça, e a Sofalca. Isto em aglomerado negro, pois há todo um mundo de cortiça e de parquet.

O não estarem numa zona industrial também tem desvantagens.

Não tenho esgotos ligados a uma rede, nem água canalizada, mas ao mesmo tempo não aborrecemos ninguém. É que, embora o vapor não seja poluente, ele iria aborrecer alguém, bem como algum barulho que possamos fazer. Assim não incomodamos vizinhos. Tivemos que criar uma rede de água e esgotos mas temos a tranquilidade de estar aqui e de vendermos um produto 100% natural. E o pó da trituração, apesar de não ser nocivo, é hoje filtrado com sistemas de filtragem integral e tudo tem destino.

E a energia?

A Sofalca foi a primeira empresa no sector da cortiça a comprar uma caldeira a biomassa e deixámos de gastar nafta, um combustível muito sujo, derivado do petróleo, que não dá para refinar para gasolina ou gasóleo. Com a caldeira a biomassa o nosso combustível passou a ser constituído pelos nossos resíduos e somos 95% auto-suficientes energeticamente.

Apesar disso o vosso produto é mais caro que outros. Como está o negócio?

Duplicámos as vendas sem qualquer esforço. O mundo está à procura de material sustentável e desde a pandemia vendi imenso. Estou cá desde 1985 e nunca vendemos tanto. Sem uma publicidade, sem nada. Chegámos a ter pessoal em lay-off o ano passado mas em Maio/Junho começámos a trabalhar e batemos recordes de vendas. E este ano ainda estamos a vender mais que no ano passado.

A Sofalca é uma empresa familiar e, sendo administrador, já deve ter participado inúmeras vezes na tirada de cortiça. Sabe todos os segredos do processo?

Sei mais ou menos os segredos todos, mas no youtube as pessoas já conseguem ver muita coisa. Estou a vender um produto de isolamento que, quer eu queira quer não, comparo com a esferovite mas custa três vezes mais.

Mas não se aprende tudo no youtube.

Na Bemposta temos dez hectares que saem de 9 em 9 anos. Assisto a todas as tiradas e também na propriedade da minha mãe, perto de Mora, que saiu este ano. Sobretudo nos últimos anos é frequente ir com clientes ver a tirada da cortiça do sobreiro porque eles não acreditam. É preciso eles verem, ao vivo é uma sensação diferente. Chegar às 06h00 ao montado, ouvir apenas os machados a bater na cortiça e perceber a vida dos tiradores. Tenho feito essa experiência até com jornalistas estrangeiros.

Quem extrai a cortiça?

Os tiradores não são funcionários nossos. São especialistas nisso. Trabalham noutras profissões mas os patrões já sabem que naqueles quatro meses eles vão fazer este trabalho. Mas são empresas que fazem a limpeza do montado, o tal corte dos troncos e depois me vêm cá vender a cortiça.

Uma empresa familiar e ecológica

A Sofalca fica ao quilómetro 413 da Estrada Nacional 2, entre Abrantes e Bemposta. Foi fundada pelos irmãos Ernesto, João e Mário Estrada, em 1966, dando continuidade à actividade que o pai, Ernesto Estrada, desenvolvia desde os anos trinta na área da cortiça.

A empresa, que emprega 40 trabalhadores, continua, tal como na altura da sua fundação, a produzir aglomerado de cortiça expandida, produto usado em revestimentos e isolamentos. No entanto, desde 2014, em parceria com designers e criativos, passou a fazer também mobiliário e revestimentos para interiores e fachadas de edifícios usando o material que produz.

É administrada por Paulo Estrada, 62 anos, um dos seis filhos do fundador Ernesto Estrada, em conjunto com os irmãos Nuno, ligado à parte industrial, e António que tem responsabilidade na área da exportação. A filha de Paulo Estrada, Mafalda, arquitecta de formação, já trabalha na Sofalca, embora resista a vir morar para Abrantes, e pode ser a próxima geração à frente da empresa.

“Há quem me chame CEO (Chief Executive Officer) mas não sou. Não temos isso. Não temos um presidente do conselho de administração; não temos o director-geral. Somos três irmãos que são três gerentes. Estamos cá dois e meio, explica Paulo Estrada no início da conversa com O MIRANTE.

A falca e a Sofalca

O nome Sofalca refere-se à utilização, como matéria-prima, da falca, um tipo de cortiça proveniente das operações de poda e limpeza dos sobreiros. Após a sua extracção procede-se à sua trituração, para separação do entrecasco e posterior granulação. Os grânulos de falca são depois colocados em autoclaves e expandidos, por acção do vapor de água.

Uma vez que os grãos se encontram confinados ao espaço do autoclave, não tendo por onde expandir, os mesmos transformam-se num bloco de grãos aglutinados, por meio da resina libertada. Uma vez estabilizados os blocos de aglomerado de cortiça expandida são serrados nas diferentes espessuras e embalados para colocação nos diferentes mercados.

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