Entrevista | 13-07-2022 10:00

Festival do Maranho celebra a gastronomia da Sertã

Câmara da Sertã aposta na promoção da gastronomia regional como pólo dinamizador da economia local

Prato típico foi distinguido recentemente pela União Europeia como produto de Indicação Geográfica Protegida e é o rei do certame que decorre entre 14 e 17 de Julho nessa vila beirã que integra a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Durante esses dias há outras iguarias para saborear e um diversificado programa de animação para festejar o regresso do evento.

O Maranho da Sertã, produzido no concelho da Sertã, distrito de Castelo Branco, foi classificado no dia 20 de Junho, pela União Europeia, como produto de Indicação Geográfica Protegida (IGP). Esse foi o corolário do investimento que o município da Sertã tem feito na promoção desse e de outros pratos típicos do concelho e que tem como ponto alto o Festival do Maranho, que habitualmente decorre em meados de Julho. Este ano o evento realiza-se entre 14 e 17 de Julho. “O Festival de Gastronomia do Maranho deve assumir-se como a grande montra de tudo o que de bom se faz na nossa região, não apenas ao nível das nossas iguarias, mas também em matéria de costumes e tradições. E, neste particular, a música assume um destaque especial”, afirma Carlos Miranda, presidente da Câmara da Sertã.
Sobre o retorno do festival para a economia local, Carlos Miranda diz que tem desde logo um retorno directo, “pois nesses quatro dias os restaurantes da Sertã e os hotéis vão facturar muito”. Mas, acrescenta, o festival funciona também para activação do produto, para, do ponto de vista da comunicação, ter o maranho em alta naquele momento e divulgá-lo para ter procura durante o resto do ano. Para essa procura pode contribuir também a recente certificação pela União Europeia. “Essa certificação é importante porque mostra que o maranho é um produto que tem qualidade e que há uma especificidade que acaba por o distinguir de outros maranhos. Já tive oportunidade de dizer que não se trata de uma certificação para o maranho, aquilo que está a ser certificado é o maranho da Sertã e a forma como é produzido na Sertã. Sabemos que o maranho é um produto de toda a região”, sublinha o autarca.

GNR e David Carreira num cartaz musical eclético
Relativamente ao cartaz musical para a edição deste ano do Festival do Maranho as novidades são muitas. No dia 14 de Julho estão previstas as actuações da Sociedade Filarmónica Aurora Pedroguense, dos Marauders e do cantor norte-americano Chuck Wansley (a residir actualmente em Pedrógão Pequeno) acompanhado da Orquestra de Jazz do Porto. Para 15 de Julho o cartaz conta com a cantora natural do concelho Sónia Costa, a interpretar êxitos de Tina Turner, e os consagrados GNR. No sábado, 16 de Julho, estão confirmados os Brass Fusion, o pianista sertaginense Marco Figueiredo, com o seu projecto musical mais recente, e o artista nacional David Carreira.
O último dia do Festival de Gastronomia do Maranho terá actuações dos Nightmare & The Wolfmen Trio, um grupo composto por elementos do concelho, e da Orquestra de Sopros da Filarmónica União Sertaginense. A encerrar o certame acontece um espectáculo piromusical. O cartaz compreende ainda actuações de vários grupos de música popular do concelho e dos ranchos folclóricos locais. Está ainda prevista animação por DJ nos finais de noite.

“O interior não pode ser apenas uma espécie de museu ao ar livre para turista visitar”

Está há menos de um ano como presidente de câmara. Como tem sido a relação com os autarcas mais experientes que integram a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo? A relação tem sido óptima. Não conhecia muito bem alguns dos autarcas mas ao longo deste tempo temos aprofundado o relacionamento, quer do ponto de vista institucional quer do ponto de vista pessoal. Devo dizer que o Médio Tejo tem um excelente conjunto de autarcas, tem um excelente grupo de trabalho e as relações pessoais também têm sido excepcionais.

Há algum autarca com quem tenha uma relação mais próxima? Não, há um autarca ou outro que conhecia há mais tempo, só isso…
A Sertã está bem na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, maioritariamente composta por municípios ribatejanos? Neste momento a Sertã está bem e tive ocasião de o dizer quando tomei posse. Quando fui questionado sobre se a Sertã iria permanecer no Médio Tejo, disse que esse era um não assunto neste momento. O comboio está em andamento e, como disse, o grupo de trabalho é muito bom e a comunidade funciona muito bem.
Neste momento é um não assunto. E no futuro? No futuro, em função de reorganizações territoriais que se vierem a fazer, poderemos ter que reconsiderar a nossa posição.
Está a falar, por exemplo, do processo em curso que projecta a criação de uma nova unidade territorial do Vale do Tejo e Oeste, envolvendo os concelhos das comunidades intermunicipais do Médio Tejo, Lezíria do Tejo e Oeste? Será essa a altura para reflectir sobre essa ligação? Sim, será a altura para discutir a nossa presença no Médio Tejo em função dessa reorganização territorial. Neste momento temos o quadro comunitário Portugal 2020 para fechar, temos o PRR a dar os primeiros passos e temos o novo quadro comunitário 2030, que vai começar a ser operacionalizado em breve. Por isso é que disse que o comboio está em andamento e num andamento acelerado. Mas há momentos na história em que as posições têm que ser repensadas e discutidas. Penso que se efectivamente se avançar para esse tipo de reorganização, com a criação de uma nova NUT II, vamos ter que discutir internamente a posição da Sertã.
Na altura não foi um entusiasta da adesão da Sertã ao Médio Tejo, tal como o PS da Sertã. Sim, mas não foi pela questão de aderirmos ao Médio Tejo; aquilo que mais critiquei na altura foi esta adesão não ter sido discutida nem na câmara municipal nem na assembleia municipal e muito menos na sociedade civil. Uma decisão destas devia ter sido discutida e até se podia ter chegado à conclusão que o Médio Tejo era a melhor solução.
A Sertã integra a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo mas está dependente de diversos organismos do distrito de Castelo Branco, designadamente nas áreas da educação ou da saúde, por exemplo. Isso não causa uma certa confusão? Sim, a confusão é muito grande. Em determinadas áreas dependemos de Santarém, noutras de Castelo Branco, noutras de Coimbra, enfim… Há de facto uma confusão e não tenho dúvidas de que, no que nos diz respeito, precisamos que esta reorganização seja pensada, ou para um lado ou para o outro. Mas que depois haja coerência.
Há a ideia de que os autarcas ainda torcem um bocado o nariz a projectos intermunicipais e preferem olhar mais pela sua paróquia. Qual é a sua percepção? A minha percepção é a de que estamos numa fase de transição. Vejo que existe já uma enorme quantidade de projectos supramunicipais. Os autarcas começam a acreditar que os projectos têm que ter uma base que não seja apenas a do seu município.
Aqui no Médio Tejo o que é que está a ser desenvolvido? Há projectos no domínio da cultura, o transporte a pedido e há muitos outros que estão para aparecer, nomeadamente na área das energias renováveis, dos resíduos, das águas. Sinto que há uma disponibilidade e sensibilidade diferentes para a necessidade de termos projectos conjuntos.
Um património com as potencialidades da albufeira do Castelo de Bode não devia ser promovido e dinamizado de forma integrada pelos vários municípios? Sim, embora haja alguns projectos comuns, como o do wakeboard. Também fazemos promoção turística mas, sim, podemos reforçar…
As obras na Estrada Nacional 238 que liga a Sertã a Ferreira do Zêzere e a Tomar são reivindicadas há décadas. Esse é um bom exemplo da forma como sucessivos governos têm tratado o interior do país? Sim, é um bom exemplo. Estamos a fazer um esforço grande para não deixar cair esse projecto. Ainda recentemente tive oportunidade de falar com alguns deputados da Assembleia da República sobre o assunto, que espero que entre na agenda em breve. A nível da rede rodoviária é um dos assuntos que me preocupa.
Quais são os outros? Outro é o IC8, uma via estruturante para toda a região Centro. A partir do momento em que se conclua o IC31 que vai ligar Castelo Branco à fronteira, o IC8 passa a ser uma via privilegiada para ligar o litoral português a Madrid, com passagem aqui pelo Pinhal Interior. O problema é que o IC8 nunca foi concluído verdadeiramente. Acho que o poder político ainda não percebeu isso. Era muito importante concluí-lo e também melhorar a segurança no troço entre Ansião e Proença-a-Nova. O IC8 vai ser discutido brevemente na Assembleia da República no sentido de não deixar cair este assunto.
Acredita que agora, com os milhões do PRR, a famosa ‘bazuca’, esses projectos poderão finalmente avançar? Vamos ver. Não gosto de prometer aquilo que não depende directamente de mim. Aquilo a que me comprometo é a defender a requalificação dessas estradas.
E até onde é que está disposto a ir para chamar a atenção para esses problemas? Estou disposto a bater a todas as portas e a fazer tudo aquilo que for necessário. Tenho a certeza de que esse problema vai ser colocado muito rapidamente em cima da mesa e tenho alguma esperança de que possa ser resolvido.
Espera que os seus camaradas no Governo sejam sensíveis aos seus apelos? Espero bem que sim. Mas é preciso dizer que a EN238 já esteve nalguns momentos muito perto de ser requalificada. Esteve inclusivamente integrada na concessão do Pinhal Interior, mas com a vinda da troika foi retirada, o que lamento profundamente. Penso que foi a única estrada retirada dessa concessão e daí voltarmos ao início deste tema: se calhar é um indicador da forma como o poder central olha para estas regiões do interior.

“Devemos ter uma verdadeira regionalização, feita com pés e cabeça”

A sangria demográfica deste território, à semelhança do que acontece em todo o interior, é um cancro que mina a saúde do país? Sim, sem dúvida. Cria um enorme desequilíbrio no país. Estamos a criar problemas dos dois lados: de sobrepopulação em regiões urbanas do litoral e de falta de população em zonas rurais, sobretudo no interior. A falta de população cria problemas, afecta-nos a vários níveis.
E não se resolve por decreto. Pois não, embora por decreto pudesse haver várias medidas que ajudariam a resolver.
O interior e as suas belezas naturais e gastronómicas é cada vez mais um espaço de visitação e estadia turística, onde alguns resistentes vão fazendo pela vida? É um bocado isso mas não pode ser só isso. Não podemos ser aqui uma espécie de museu ao ar livre onde as pessoas vêm de vez em quando para visitar e para comer. Temos que ser mais do que isto. Não tenho dúvidas que essas visitas e toda a dinâmica que geram é muito importante, mas temos que ter uma outra economia para lá do turismo. Estamos a trabalhar nisso, acho que se desinvestiu muito em Portugal, designadamente no sector primário.
Como é que está o ordenamento florestal? Desde as tragédias de 2017 aprendeu-se alguma coisa com os erros? O que é que posso dizer? Está mal! Aquilo que notamos é que há sensibilidade para a matéria e estão a começar a surgir no terreno alguns projectos muito interessantes, nomeadamente a questão das AIGP (Áreas Integradas de Gestão da Paisagem), que em teoria é uma boa intenção. Estamos ainda numa fase de discussão das várias formas de gestão do território com os proprietários. O modelo de gestão ainda não está bem definido. Há três dimensões fundamentais: a conservação da biodiversidade; a protecção da floresta contra incêndios; e a função económica, que passa pela exploração dos recursos. Vamos ver na prática como é que tudo isto vai funcionar.
É adepto da regionalização? Não tenho problemas em dizer que no referendo votei contra, já foi há uns 20 anos ou mais… Neste momento acho que já temos uma regionalização implementada, com as comunidades intermunicipais e as comissões de coordenação e desenvolvimento regional (CCDR), etc… Só que é uma regionalização muito incoerente. A regionalização cumpre o objectivo fundamental de aproximar os cidadãos dos centros de decisão e isso tem sido tentado no terreno, mas neste momento temos uma amálgama muito confusa, que nem é carne nem é peixe. E já que estamos neste ponto, defendo que devemos ter uma verdadeira regionalização, feita com pés e cabeça e com órgãos legitimamente eleitos.
A gastronomia e a Nacional 2 são dois chamarizes que têm trazido muita gente à Sertã. O turismo pode ser o ‘petróleo’ do concelho? O petróleo está fora de moda (risos)… O turismo é muito importante, mas temos que ser realistas e ter os pés bem assentes no chão. Nunca vamos ter aqui um turismo de massas, mas o que já temos é muitíssimo interessante. Se calhar muitas pessoas não sabem isto, mas mesmo no Médio Tejo somos um dos municípios com mais camas em unidades hoteleiras. São mais de 500 camas. Ainda num fim-de-semana recente a capacidade esteve esgotada. Durante o Verão temos sempre uma taxa de ocupação muito elevada.
E há mais investimentos previstos nessa área? Não há falta de investidores, mas o nosso território tem tantos condicionalismos ao nível da floresta, das linhas de água, que muitos projectos são inviáveis. A água é um recurso de todos mas estamos impedidos de nos desenvolver e de ter aqui projectos que poderiam criar muito emprego. Por exemplo, para se garantir que a água do Castelo do Bode chegue com qualidade a Lisboa estamos dentro de um colete de forças em que o nosso território não consegue crescer economicamente. Tem que haver aqui uma mudança, com equilíbrio, naturalmente, porque também queremos proteger o ambiente e a água.
O que representa o Festival do Maranho para o desenvolvimento do turismo. Justifica-se o investimento? O Festival do Maranho justifica-se a vários níveis. Em primeiro lugar é preciso dizer que o concelho da Sertã é muito mais do que o maranho. O maranho é uma bandeira gastronómica de todo o concelho e o elemento mais fácil de comunicar. Mas as pessoas vêm e depois descobrem que também há o cabrito, o bucho, o peixe do rio, uma quantidade de doces e outros produtos locais muito bons.

Um autarca apaixonado por vinhos

Carlos Miranda tem 57 anos. Nasceu em Mira a 22 de Janeiro de 1965. Vive em união de facto e tem dois filhos. Formado em Biologia, foi professor e durante alguns anos foi director do Instituto Vaz Serra, em Cernache do Bonjardim. Teve um negócio de vinhos e produtos regionais e conta com uma pós-graduação em marketing de vinhos e organização de eventos vínicos, área em que provavelmente estaria a trabalhar como empresário se não tivesse sido eleito presidente da Câmara da Sertã, em Setembro de 2021.

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