Entrevista | 13-07-2022 07:00

“Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa são mais fortes unidas do que separadas”

Ana Cristina Pereira lidera a união de freguesias com mais população do concelho de Vila Franca de Xira

Ana Cristina Pereira é a mulher que gere uma das freguesias com mais população por metro quadrado do país e não tem mãos a medir. Diz que os autarcas não têm horário de trabalho e que a lei de financiamento das freguesias com mais de 40 mil habitantes tem de ser revista. Leitora assídua de O MIRANTE, fala nesta entrevista dos problemas de saúde e limpeza que assolam a cidade e abre o peito para dizer que a freguesia não mais esquecerá a ADP pelo surto de legionella que causou.

Gere uma freguesia com 41 mil habitantes. Dorme descansada de noite?

(Risos) Pouco. Tenho sempre problemas na cabeça para resolver. A recolha do lixo e a limpeza urbana são os nossos grandes desafios e temos reforçado os apelos à câmara para melhorar essa recolha. Comprometemo-nos em assembleia de freguesia a não usar herbicidas mas agora temos os passeios a ganhar erva com maior frequência e o trabalho torna-se mais difícil. Tentamos controlar mas nem sempre mantemos os passeios como queremos.

Pensava chegar a presidente da junta?

Nunca. O primeiro convite para integrar o executivo da junta foi em 2001 com o António Inácio, onde fui tesoureira de 2001 a 2005. Foi um mandato bastante difícil e não quis continuar. Fiz uma pausa do executivo e só regressei quando foi criada a união de freguesias. Não era difícil trabalhar com o António Inácio mas divergíamos em muitas coisas.

O protesto da autarca Rosa Barral à vossa porta não foi um embaraço?

Estamos em democracia e estes movimentos de cidadãos são legítimos e estamos cá para cada um defender aquilo em que acredita. As polémicas fazem parte. Não acho que sejam um embaraço. Estamos a fazer o nosso trabalho e explicamos, falamos e esclarecemos toda a gente. Quando as pessoas não querem ouvir é mais difícil, mas cada um tem o seu ponto de vista e vê o mundo com olhos diferentes.

Há quem diga que se o Forte da Casa fosse freguesia independente, António Inácio venceria…

Não acho e não concordo com a divisão das freguesias. No Forte e Póvoa sempre houve uma continuidade territorial e são mais as coisas que nos aproximam do que as que nos afastam. Temos bombeiros e esquadra em comum, escolas e piscinas, sempre foi pacífica a convivência das pessoas dos dois lugares. Estou apostada em construir pontes de diálogo e de cooperação e não a construir muros. Há quem insista em fazer esse discurso divisionista. Estamos contra porque não há um historial de antagonismo nem rivalidade entre as duas localidades. A Póvoa e o Forte são mais fortes de braço dado do que separadas. Ganhamos escala e importância.

Já perdoou a ADP [Adubos de Portugal] por ter causado o surto de legionella de 2014?

O surto de legionella foi um dos momentos mais difíceis da nossa freguesia. Estivemos todos muito preocupados e sem saber nem o que fazer nem a origem. Podemos perdoar a empresa mas não esquecemos o que aconteceu. Cabe a cada morador fazer o seu julgamento. Não nos movemos pela vingança nem outro sentimento mas não esquecemos que foram momentos muito difíceis para todos.
A Póvoa foi palco de um dos piores acidentes ferroviários nacionais. Para quando um memorial? Tenho pessoas próximas que viveram o acidente. É uma ideia que não está esquecida mas estamos ainda a estudar como a poderemos implementar. Ainda causa dor e o acidente está muito vivo na memória de todos os que o viveram.

A transferência da competência de recolha de monos para as juntas de freguesia no anterior mandato foi um presente envenenado?

Aceitámos essa competência dos monos com a convicção de que o faríamos mais depressa e melhor mas percebemos que houve uma lacuna: a falta de entrega de equipamento para a recolha. Hoje temos duas equipas dedicadas a esse trabalho. É também um problema de civismo. O local de depósito de monos não é uma lixeira. As pessoas podem ligar para a junta e agendar a recolha.

“A falta de médicos tem levado as pessoas ao desespero”

Porquê viver na Póvoa ou Forte da Casa ao invés de outra localidade nas proximidades?

Queremos ter o nosso espaço e afirmar-nos na Área Metropolitana de Lisboa como uma freguesia dinâmica e jovem, com qualidade de vida. Temos uma grande quinta municipal, um parque urbano no Forte da Casa e uma zona ribeirinha muito cuidada. A união tem uma estação de comboio, boa rede de transportes rodoviários e estamos perto de Lisboa. Somos uma cidade moderna, pacata e segura e não temos um bairro problemático.

A nova urbanização Vila Rio, diz a oposição, vai ser um atentado urbanístico.

A urbanização vai ficar muito bonita e será uma mais-valia para a freguesia. Vai trazer serviços, habitação e requalificar aquela zona. Não vai ser feita de uma vez só mas esperemos que aumente o bem-estar e valor para a cidade. Não vai ser um muro como foi a Quinta da Piedade, até pela forma como os prédios estarão dispostos. Há sempre muita resistência à mudança e é normal que as pessoas tenham receio.

Que futuro será dado à rede de ciclovias que ficaram inacabadas no centro da cidade?

Ainda não tivemos retorno da câmara sobre a conclusão daquele troço. Estamos a aguardar que nos digam se é para ser concluído ou não. Na altura a população manifestou-se contra e o presidente Alberto Mesquita anuiu às reivindicações dos moradores. Temos de pegar novamente nesse processo para o concluir.

Consegue ir às compras sem que a abordem com assuntos da terra por resolver?

É normal as pessoas abordarem-me. Aproveitam para reclamar ou fazer sugestões e eu tomo nota de tudo. Um autarca não tem horário de trabalho. Há fins-de-semana que não existem para a família. Faz parte da missão. Quando vestimos a camisola sabemos que é um trabalho sem horário. Não andamos a navegar à vista e por isso rodeamo-nos de uma boa equipa que ajuda bastante.

É uma vergonha o que está a acontecer no Centro de Saúde da Póvoa?

Não é aceitável. A falta de médicos tem levado as pessoas ao desespero. Temos procurado, dentro das nossas limitações de competências, algumas respostas e soluções porque a saúde é essencial. Além de tudo isso, ainda temos o atendimento complementar do concelho no nosso centro de saúde, o que ainda pressiona mais a situação. Sei que a câmara está a articular uma candidatura a fundos comunitários para avançar com a construção de um novo centro de saúde que o actual já não responde às necessidades. Mas há outras necessidades: precisamos de um centro cultural para o Forte da Casa e do nó dos Caniços de ligação à A1. Temos de continuar a pressionar para podermos tirar o trânsito do centro da cidade.

Humanista e apaixonada pelo mar

Ana Cristina Pereira, 50 anos, nasceu em Lisboa e cresceu no bairro de Marvila onde contactou desde cedo com as diferenças sociais. Foi com os pais para o Forte da Casa em 1981 quando a localidade era ainda um lugar da freguesia de Vialonga e tinha as ruas em terra batida. “Foi giro ver o Forte da Casa crescer comigo”, diz a mulher que vivia junto ao espaço onde, mais tarde, se construiu a igreja. Formada em Relações Internacionais, tirou várias pós-graduações na área fiscal onde ingressou, na Autoridade Tributária em 2000, no serviço de Finanças de Alverca.
Filha de pais operários, envolveu-se na política para contribuir para o bem público e dar o seu contributo à comunidade. Decidiu filiar-se no PS pelos seus valores humanistas e europeístas. Defende que as freguesias com mais de 40 mil habitantes têm de ter um enquadramento legal diferente e mais verbas alocadas ao seu funcionamento. “Devíamos ter mais elementos do executivo a tempo inteiro ou a meio tempo, pagos pelo Orçamento de Estado. Por muito que queiramos não conseguimos brilhar. Os trabalhadores dão o seu melhor mas os recursos não chegam. Nunca estamos a meia velocidade, estamos sempre prego a fundo”, conta.
Recentemente a junta criou o “Cantinho do Saber” nas suas instalações, um espaço intergeracional para juntar novos e velhos em torno da leitura e jogos lúdicos através de uma mesa de jogos e uma biblioteca alimentada por doações da comunidade.
Irrita-a a cobardia e a mentira e gosta de ir à praia e ver o mar para descontrair. Não tem medo de envelhecer, a sua cor favorita é o azul e é do Benfica. A sua viagem de sonho foi a Chichen Itza no México e sonha ir a Machu Picchu, no Peru.

O sonho de ser jornalista

Ana Cristina Pereira sonhava ser jornalista mas a vida profissional levou-a por outros caminhos. Ainda hoje compra jornais em papel, incluindo O MIRANTE, todas as semanas. “É um vício antigo”, diz a mulher que lê notícias online mas privilegia o papel. “Gosto da mobilidade do papel e de folhear o jornal”, conta. A autarca destaca a importância de O MIRANTE na região sem o qual, defende, muito do trabalho autárquico não seria do conhecimento da comunidade.
“O MIRANTE é muito importante para dar a conhecer o que fazemos, o melhor e o pior, e dar-nos uma ideia global da região onde estamos inseridos. Sem ele não saberíamos o que se vai passando. O nosso trabalho é algo invisível, muitas vezes o cidadão quase não dá por isso mas faz a diferença na sua qualidade de vida”, defende.

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