Entrevista | 18-07-2022 21:00

“Tem faltado assertividade e coragem aos políticos da região”

Fabíola Cardoso foi a cabeça-de-lista do BE pelo círculo de Santarém nas últimas Legislativas, que consideram terem corrido mal ao seu partido

A professora de Biologia Fabíola Cardoso foi a cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda por Santarém nas duas últimas eleições legislativas e foi também candidata à Câmara de Santarém em 2021. Esteve no Parlamento como deputada até há poucos meses e não conseguiu ser reeleita. Reconhece que as últimas eleições correram mal ao seu partido e admite que lhe custou mais digerir o resultado das autárquicas em Santarém. Critica os sucessivos governos pela falta de investimento nesta região e lamenta a falta de peso político dos autarcas para fazerem ouvir a sua voz em Lisboa. Conhecida activista da causa LGBT, Fabíola Cardoso assume-se como uma mulher de lutas e garante que não vai baixar os braços.

Uma pequena provocação para começar: ainda há cartazes da campanha eleitoral do Bloco de Esquerda nas ruas de Santarém, quase meio ano depois das legislativas. É um sinal de que o partido ainda não digeriu a perda da deputada pelo distrito?

Os bons resultados têm o efeito de motivar; os resultados negativos, obviamente, têm o efeito contrário. E este foi um resultado muito negativo para o Bloco de Esquerda (BE), que teve impacto dentro da própria estrutura do partido e levou-nos a repensar a nossa acção, mas realmente esses cartazes já não deveriam estar na rua. Tem havido essencialmente um trabalho interno, de mobilização, de acolher as pessoas que estão a chegar, porque houve pessoas a juntarem-se ao BE na sequência dos maus resultados eleitorais.

Concorda que esses cartazes desactualizados dão uma má imagem do partido?

Concordo que dão uma má imagem e não deveria acontecer. Apesar de não considerar que seja entulho, como o Cavaleiro Andante de O MIRANTE referiu. Espero que o BE, em Santarém, possa retomar em breve a sua actividade regular para o exterior e possa substituir esses cartazes.

Nas eleições para a concelhia surgiu como última candidata suplente de uma lista. É um sinal de que há que dar lugar aos mais novos, de assumir alguma responsabilidade pelos resultados eleitorais menos conseguidos?

É uma forma de dizer que continuo comprometida com o apoio a essa lista mas que é necessário haver uma renovação, uma reestruturação e uma maior mobilização a nível local. Daí o meu chegar atrás, para que outras pessoas assumam responsabilidades a nível local.

Essa posição pode também ser interpretada como uma manifestação de desapego ao poder, depois de alguns camaradas a terem criticado por forçar a sua indicação como cabeça-de-lista por Santarém às duas últimas eleições legislativas, quando a maioria da assembleia distrital do BE tinha optado por outros nomes?

Não tenho nenhum apego ao poder, não tenho nenhuma vontade de protagonismo ou de liderança que não seja a que me for dada pelas circunstâncias e pela própria dinâmica do partido. O processo a que se refere foi complicado, com episódios que acho que não enobrecem a política nem o BE, mas não aconteceram pelo meu apego ao poder. Aconteceram devido a divergências internas.

Sentiu-se confortável como candidata sabendo que a maioria da assembleia distrital preferia outro nome?

Senti-me confortável sabendo que a maioria da mesa nacional do BE, o órgão responsável pela escolha dos cabeças-de-lista a nível nacional, estava comigo. Senti-me confortável e senti, principalmente, uma grande responsabilidade em fazer um bom trabalho pelo distrito de Santarém. E penso que cumpri, com trabalho, dedicação e empenho, essa responsabilidade que me foi dada.

Digeriu facilmente as críticas dos seus camaradas?

Sendo professora, estou habituada a ouvir muitas críticas, nem sempre devidamente fundamentadas. Penso que foi o que aconteceu neste caso.

Custou-lhe a engolir mais o resultado das últimas legislativas ou o do fracasso da sua candidatura à Câmara de Santarém, uns meses antes?

Não diria que a candidatura do BE à Câmara de Santarém foi um fracasso…

Fracasso no sentido em que não foi eleita vereadora…

Sim, mas em democracia nem só a eleição é o objectivo. O processo de discussão política, de construção da lista, da campanha, é extremamente válido. Ainda assim custou-me mais a digerir os maus resultados a nível das eleições autárquicas. Porque o resultado a nível das Legislativas teve uma componente nacional muito maior. E custou-me particularmente que tivesse sido eleito um vereador do Chega para a Câmara Municipal de Santarém.

Ficou desiludida com os eleitores do concelho de Santarém?

Não fiquei certamente feliz e satisfeita com os resultados e penso que o rumo que o concelho está a seguir é errado. É um rumo que reforça um atraso que se nota entre Santarém e concelhos vizinhos e que trará consequências a médio prazo. Estou desiludida com esta escolha de rumo, sim…

E está também desiludida com a aliança entre PSD e PS na governação da Câmara de Santarém?

Será difícil que este arranjinho tenha muito bons resultados.

Acredita que essa aliança vai chegar até ao fim do mandato?

Acredito que sim. As negociações e o equilíbrio encontrado são suficientemente sólidos, não vai é ser suficiente para dar ao concelho de Santarém um novo impulso de que ele necessita para ultrapassar os atrasos estruturais que tem quando comparado com outros concelhos vizinhos.

Esses atrasos estruturais de que fala devem-se a quê: aos políticos que têm governado o concelho, ao pouco investimento público da administração central, ao conformismo da população?

Acho que há uma mistura de factores bastante complexa que tem a ver, começando de cima para baixo, com a falta de investimento dos últimos governos, com o adiamento de investimentos estratégicos. Refiro, por exemplo, a proposta que apresentei na Assembleia da República relativamente à mudança de traçado da Linha do Norte em Santarém e à necessidade de obras entre o Vale de Santarém e o Entroncamento. É um investimento essencial para o desenvolvimento do concelho que tem sido sucessivamente adiado.

E que não consta das prioridades do Governo para a próxima década.

Isso é lamentável e é um factor que contribui para o atraso de um concelho que tem na proximidade a Lisboa um dos factores que poderia promover o seu desenvolvimento. E isso não acontece, pelo contrário. A proximidade a Lisboa tem vindo a causar uma sangria de jovens que saem de Santarém e já não regressam para trabalhar e contribuir para o desenvolvimento desta região.

Falta peso político e reivindicativo a esta região para fazer ouvir a sua voz em Lisboa?

Tem faltado assertividade e coragem política, tem faltado peso político dos autarcas para, junto das entidades próprias, reivindicarem os investimentos necessários. E tem faltado também uma visão estratégica para o futuro. Ouvimos, por exemplo, entidades com responsabilidades a nível da governação, a defender o Projeto Tejo, como se fosse uma grande solução para a agricultura.

É frontalmente contra esse Projeto Tejo?

As pessoas que têm peso político em Santarém muitas vezes têm estado a puxar para trás, a puxar para rumos que não são aqueles que os apoios europeus estão a financiar. Isso torna difícil que esses projectos sejam desenvolvidos.

É contra a criação de diques no Tejo para criar espelhos de água para diversos fins, como o regadio e o turismo?

O Projeto Tejo nasce da necessidade e vontade de grandes proprietários agrícolas em aumentar em muito a área de regadio. O Projeto Tejo inclui a extensão de grandes áreas de regadio a partir do Tejo até ao Oeste. Estamos a falar de milhares de hectares de regadio.

Não há um preconceito ideológico da sua parte, por esse projecto ter sido apresentado pela iniciativa privada, por grandes proprietários?

Não é preconceito ideológico, é uma constatação cientificamente baseada naquilo que hoje é o consenso a nível da comunidade científica e também da comunidade política, de que estamos a enfrentar uma fase de alterações climáticas, de aquecimento global, em que a água vai ser um bem cada vez mais escasso e que deve ser utilizado de forma sustentável. O futuro da agricultura em larga escala tem que passar por adaptações às novas condições ambientais e não com investimento exponencial nos poucos recursos hídricos que ainda existem, multiplicando as áreas de regadio intensivo. Isto não é sustentável. É necessário um equilíbrio entre produtividade, sustentabilidade, ambiente e ecologia.

“Em Santarém temos um Tejo moribundo”

Esteve dois anos na Assembleia da República. O Parlamento é uma feira de vaidades?

Não. O Parlamento é uma instituição em que há muitas pessoas que trabalham, há muitas pessoas que procuram defender as suas ideias e os interesses das suas terras havendo também algumas pessoas, como se calhar em todas as instituições, que têm uma visão da sociedade e da política que se calhar não é a mais correcta.

Por que razão os deputados são tão mal vistos pelo povo?

Penso que, na base, tem a ver com uma profunda falta de formação política da maior parte dos cidadãos, que dificulta a interpretação daquilo que é o verdadeiro trabalho de um deputado. Um deputado integra um grupo parlamentar, integra toda uma máquina que procura responder aos problemas do país e nem sempre é capaz de resolver o pequeno problema da terra. Seria importante haver um reforço da educação para a cidadania nas escolas, para que as pessoas possam perceber melhor aquilo que é o trabalho de um deputado.

Aquela ideia de que os políticos ganham muito também não ajuda muito a que essa imagem melhore.

Mais uma vez a mensagem não está a ser transmitida da melhor maneira. O verdadeiro problema é que os portugueses, de um modo geral, ganham pouco. O verdadeiro problema é que a maioria das pessoas que trabalham neste país não ganha um ordenado digno para ter uma vida como deve ser e para proporcionar à família aquilo que são as exigências do mundo em que vivemos. Colocar a tónica apenas nos salários dos políticos é populismo, é demagogia e é tapar o sol com a peneira afastando as pessoas da actividade política. Infelizmente ainda há muita gente que usa aquele velho lema salazarista “a minha política é o trabalho”, como se a política fosse uma coisa suja ou incorrecta.

As redes sociais também ajudam a alimentar essa percepção.

Temos pouca capacidade de debate, de um modo geral, fruto também do défice de educação, dos 50 anos que tivemos de fascismo e dos 500 anos que tivemos de Inquisição. Somos um povo com um défice de intervenção cívica e de debate e as redes sociais, por vezes, também não ajudam. Apesar de haver iniciativas bastante positivas.

Ainda somos um bocadinho aquele país dos “3 F”, de Fátima, Fado e Futebol?

Cada vez menos, penso eu, porque sou bastante optimista, mas nalgumas coisas sim. Basta ver a televisão portuguesa durante uma semana para constatar isso.

Voltando ao Parlamento: aqueles debates intermináveis entusiasmavam-na ou davam-lhe sono?

Alguns entusiasmavam-me, por serem temas que me eram mais próximos, porque tinham a ver com o distrito de Santarém ou com questões de ambiente ou LGBT; mas outros, confesso, entediavam-me um bocadinho. É muito difícil, para não dizer impossível manter a atenção e a concentração durante longas horas. Antes também não percebia porque é que os deputados estavam com ar enfastiado, mas agora percebo.

Do que ficou com mais saudades do Parlamento?

Tive pena de deixar alguns projectos por terminar. O projecto que me era mais caro emocionalmente era o da ecovia do Tejo, que visava a construção de uma ecovia desde a fronteira com Espanha até Lisboa, integrando os percursos que já existem e valorizando este que é um dos grande valores da nossa região, que é o Tejo.

Um património que continua mal explorado e por potenciar. Em particular no concelho de Santarém é vergonhoso.

Temos um Tejo moribundo, um Tejo abandonado, um Tejo desconhecido do usufruto da maioria das pessoas. Essa é uma das coisas que mais me dói em Santarém. Por isso esse projecto me era tão caro e espero que um dia possa ser retomado. Aproximar as pessoas do rio também é uma forma de contribuir para que não seja poluído, para que não seja abandonado… É lamentável, por exemplo, que a grande maioria dos alunos de Santarém não conheça o potencial educativo deste rio, que não haja um centro de ciência viva sobre o Tejo. Tal como não se vê qualquer interesse a nível autárquico pelo desenvolvimento desse tipo de projectos.

A defesa do SNS e a luta pela causa LGBT

O BE é um defensor acérrimo do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Já sentiu na pele a falta de médicos no sector público?

Felizmente, a minha situação de saúde nos últimos anos tem sido bastante positiva mas quando precisei do SNS ele esteve à altura. Tive há uns anos um cancro de mama que foi tratado no SNS, no excelente serviço de Oncologia e de Senologia do Hospital Distrital de Santarém. Tenho tido a felicidade de encontrar a resposta que preciso para mim e para os meus filhos no SNS. Mas sei que esta não é a situação geral. Há milhares de pessoas nesta região sem médico de família e devia ser uma prioridade resolver esse problema, tal como garantir profissionais de saúde nos hospitais.

É contra esses investimentos privados na área da saúde em Santarém?

Não sou contrária a nenhum tipo de investimento que promova o desenvolvimento de Santarém. Mas acho que o papel dos políticos não é aceitar e estimular esse tipo de práticas sabendo que isso pode causar danos ao SNS. Gostaria mais de ver o poder político a defender o SNS e deixar para a iniciativa privada aquilo que é da iniciativa privada.

Mantém-se na linha da frente do activismo pela causa LGBT?

Felizmente há novas gerações que ocupam com muita naturalidade essa linha da frente, a pegar na bandeira e a organizar, por exemplo, as marchas do orgulho que se têm espalhado por todo o país. Neste momento sinto-me confortável na linha de trás do movimento LGBT estando sempre disponível para ajudar e para trazer a minha experiência e conhecimento de como chegámos até aqui, mas também algumas ideias para o futuro. Temos que começar a alargar o momento LGBT para fora dos grandes centros urbanos.

Há mais de vinte anos que está nessa luta. Sente que tem havido alguma mudança de mentalidades em relação a essas questões ou a discriminação continua?

Têm havido grandes mudanças a nível legislativo, mas ainda não há na sociedade portuguesa, ao nível das mentalidades e das práticas do dia-a-dia, a normalização desta situação. Duas mulheres a passear numa pequena vila portuguesa ainda se sujeitam a ser alvo de comentários se forem de mãos dadas. Um casal de homens que queira reservar um quarto num alojamento numa aldeia ainda se arrisca a comentários menos próprios. Ainda falta garantir no dia-a-dia a igualdade que a lei já garante no nosso país. Por isso, esta luta continua a ser necessária.

Ainda vai sentindo na pele de vez em quando essa discriminação, esse estigma?

Dou um exemplo muito simples: tenho dois filhos e quando preencho um formulário da escola dos meus filhos continua a estar lá o nome do pai e o nome da mãe. Pode parecer um pormenor sem importância, mas uma vez que há crianças que têm duas mães ou dois pais, os formulários de acesso à educação podiam ter apenas filiação, sem indicar nome do pai e da mãe. Era uma mudança pequenina mas que ajudaria as famílias arco-íris a sentirem-se mais incluídas.

Esse tipo de situações dá-lhe ainda mais vontade de continuar a lutar por essas causas?

Apesar do tempo que levo com esta e outras lutas, e apesar da idade que já tenho, continuo a ter muita vontade e a acreditar que é com o nosso envolvimento na sociedade e na política que fazemos as mudanças acontecerem. Ainda não baixei os braços e espero nunca baixar.

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