Entrevista | 26-07-2022 18:00

“Não me imagino como presidente de câmara”

Raquel Olhicas é enfermeira e assumiu as funções de vereadora na Câmara de Abrantes em Outubro do ano passado

Raquel Olhicas tem 47 anos e é enfermeira de profissão. Está habituada a lidar com situações imprevisíveis e complicadas. Depois de vários anos a trabalhar em Lisboa decidiu regressar às origens, no Tramagal, onde constituiu família. Foi convidada pelo presidente da Câmara de Abrantes para integrar a sua lista num lugar elegível. Desde Outubro que é vereadora com os pelouros da Saúde, Acção Social e Administrativo e Jurídico. Diz que os últimos seis meses têm sido de aprendizagem. Um dos motivos que a levou a aceitar o convite é o facto de poder manter a proximidade com as pessoas.

O que faz falta no Tramagal? Necessitamos de mais pessoas, de aumentar a taxa de natalidade e de atrair mais jovens. Isto é transversal a todo o concelho. Depois surge a questão do parque habitacional e, nesse sentido, a câmara está a desenvolver a sua Estratégia Local de Habitação que contempla a reabilitação de imóveis para arrendamento acessível, mais no perímetro urbano. Em Tramagal esta solução terá de ser ainda pensada. Também faz falta em Tramagal uma ponte sobre o rio Tejo, já se fala nisto há muito tempo. Aumentaria a acessibilidade para o parque industrial. Em Tramagal temos empresas com um alto índice de empregabilidade, que importa manter. Importante também é atrair mais empresas.
Como vê a falta de água no Tejo e na albufeira de Castelo de Bode? Ainda não sentimos tanto essa falta. Quando há carência de água em Lisboa aqui estamos num nível razoável. Há uns tempos, pesquisei esta temática e desde 1930 que não há uma seca tão grande. A última foi em 2005. Os níveis de abastecimento para o consumo humano e para o combate aos incêndios estão assegurados. Mas é preocupante porque as alterações climáticas estão bem patentes. Estamos a apostar em campanhas de sensibilização para a rentabilização dos recursos hídricos.
Que projecto gostaria de implementar enquanto for vereadora? Para a melhoria das condições de habitabilidade da população temos em marcha a Estratégia Local de Habitação, que tem que ficar pronta até 2026. Temos muitos imóveis devolutos para recuperar em todo o concelho e uma centena de beneficiários directos. É nossa intenção apostar no arrendamento apoiado para habitações sociais e no arrendamento acessível para atrair jovens.
Há outros projectos que queira implementar? Queremos apostar em residências autónomas para portadores de doença mental. São casas com condições para receber até 7 utentes. Estas residências estão integradas na Rede Nacional de Cuidados Continuados. Os utentes são acompanhados permanentemente no seu espaço. Outro projecto importante a desenvolver no nosso concelho é o das respostas de creche e nesse sentido temos uma candidatura no âmbito do PRR. Pressupõe um equipamento que colmate as lacunas na área, essencialmente, dos berçários.
Que outro projecto na área da saúde gostava de implementar? Queremos melhorar a acessibilidade dos cuidados de saúde e atrair médicos para o nosso território. Acreditamos que conseguimos fazê-lo de uma forma mais eficaz, através da implementação de mais uma USF no concelho. Existem incentivos específicos para os médicos que venham a integrar estas unidades.
Gostava de ser presidente de câmara um dia? Para se ser presidente de câmara é preciso ter muita experiência política, que não tenho e não me imagino nesse cargo. Gosto muito do trabalho que estou a fazer enquanto vereadora. Tenho muita proximidade com a população. Tem sido um desafio diário, por vezes, com alguma dificuldade, que, no entanto, é minimizada quando a partilho com os meus colegas vereadores e com o presidente.

Uma enfermeira a dar os primeiros passos na política abrantina

Quais são os principais problemas sociais do concelho de Abrantes? Temos uma franja de população muito vulnerável. Pessoas que devido à pandemia da Covid-19 ficaram com mais carências económicas e com maior debilidade ao nível da saúde mental, sobretudo depressões. Houve também um drástico aumento ao nível de consumos de substâncias aditivas. Tudo isto agrava os problemas sociais.
Como se podem ajudar estas pessoas?
A pessoa tem de saber procurar ajuda. Tem de ir ao encontro dos profissionais. Temos que sensibilizar essas pessoas e demonstrar que existem ferramentas na comunidade capazes de capacitá-las para que evitem o agravamento da situação. Se não se trata a depressão a situação vai-se agravando. É fundamental pedir ajuda. Temos na autarquia uma linha de apoio psicológico para fazer face a estas problemáticas.
De que forma a pandemia prejudicou os jovens?
Tem sido um problema muito grave e difícil de resolver. O suicídio e a depressão aumentaram depois da pandemia na adolescência. São assuntos delicados que carecem de uma solução urgente. A pandemia não prejudicou a saúde mental apenas nos adultos, os jovens também sofreram com o distanciamento social e com a solidão e neste momento muitos não têm ferramentas para lidar com o problema, daí que precisem de apoio especializado.
Quando tem que resolver assuntos relacionados com saúde enquanto vereadora é uma vantagem ser enfermeira? Temos tido luz verde em quase todas as instituições de saúde, para avançar com propostas, o que considero uma vantagem. Temos uma relação muito próxima com a directora executiva do ACES do Médio Tejo e com todos os coordenadores das quatro unidades funcionais do concelho de Abrantes. Esta relação acentua a acessibilidade às organizações de saúde.
Como é estar do lado em que se tem possibilidade de resolver problemas? Até hoje ainda não senti impotência política porque temos resolvido as coisas com eficácia. A grande diferença que sinto comparativamente com a enfermagem é que aqui, no contexto das minhas funções enquanto vereadora, existem muitos normativos legais a cumprir e alguma burocracia inerente ao sistema, o que implica por vezes alguma demora. Algumas coisas não são tão céleres como eu poderia pensar.
Há capacidade dos municípios para resolver os problemas da falta de médicos? Mantemos uma sinergia muito constante com o ACES do Médio Tejo, estamos sempre a pressionar positivamente, mas neste momento não existem médicos de família que colmatem a saída dos médicos em aposentação.
Qual a sua opinião sobre os profissionais de saúde que recentemente pediram escusa de responsabilidade? Tem a ver com o excesso de horas e com a falta de recursos no SNS para fazer face às emergências que vão surgindo. Os profissionais prestam cuidados, mas salvaguardam-se no sentido de acautelarem uma eventual responsabilidade disciplinar. Com a declaração de escusa estão protegidos.
Alguma vez ponderou fazê-lo durante a sua carreira? Nunca senti necessidade de o fazer.
Desde que entrou para a vereação pedem-lhe cunhas ou favores?
Nunca senti isso. Relativamente a questões de saúde os utentes continuam a ligar-me quando faltam à vacinação da Covid-19 e querem fazer nova marcação, mas já não estou nesse processo. No entanto tento encaminhar.
Teve que mudar de número de telemóvel? Nunca foi preciso. Normalmente atendo sempre o telefone. Quando não o consigo fazer devolvo as chamadas um pouco mais tarde. À noite está sempre ligado.
As reuniões de câmara e assembleia municipal são uma seca? Estou nesta função há seis meses, aprendo todos os dias e isso não pode ser considerado uma seca. Temos uma equipa muito consistente em que os meus colegas vereadores me transmitem muito do seu trabalho e isso também é uma aprendizagem.
Passou a tomar comprimidos para dormir com o stress da câmara? Não! Se algum dia tomar, será só valeriana que é natural. Evito os cafés para não andar tão acelerada. (risos).

Estou na política por causa de Manuel Valamatos

Raquel Olhicas tinha 12 anos quando viu a sua avó materna sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Todo o processo da ida para o hospital, o regresso a casa, a adaptação que foi necessário fazer e a ausência de respostas marcaram-na para a vida. Na altura, para se conseguir uma consulta de medicina física e de reabilitação o tempo de espera era de seis meses. A revolta foi muita e acabou por ser uma das cuidadoras da sua avó, que faleceu cerca de vinte anos depois. Vinte anos de sequelas que podiam ter sido minimizadas se a sua avó tivesse uma intervenção mais imediata. Este episódio foi fundamental para decidir que a sua área profissional passaria pela saúde. “Queria tentar mudar um bocadinho o sistema, que era muito lento”, recorda.
Licenciou-se na Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e começou a trabalhar no Hospital de Santa Maria, também na capital. No início da carreira passou por um episódio que quase a fez desistir. Trabalhava no serviço de Medicina/Hematologia e recebiam jovens que já não tinham idade para estar na pediatria. Raquel Olhicas acompanhou o caso de um jovem, de 19 anos, que tinha cancro. “Estabelecemos uma relação próxima e acreditei que seria possível ultrapassar a doença. Foi a primeira situação de morte a que assisti e lidar com isso fez-me ponderar se deveria continuar na enfermagem”, conta a O MIRANTE.
Raquel Olhicas decidiu continuar porque percebeu a importância da relação humana entre enfermeiro e paciente e como essa relação pode ser terapêutica para os doentes. “Acompanhar os doentes no momento da morte é tão importante como acompanhar uma mulher na altura do nascimento do seu filho. É importante as pessoas não estarem sozinhas no momento da morte”, afirma.
Depois de três anos em Medicina/Hematologia passou para os cuidados intensivos de cirurgia cardiotorácica, um local muito instrumentalizado onde os doentes estão ventilados, muitas das vezes em coma induzido. “A nossa principal preocupação são as máquinas porque são estas que suportam vitalmente os doentes. Foi uma forma diferente de ganhar experiência e maturidade”, reflecte. Em paralelo com o trabalho no Hospital de Santa Maria tirou uma licenciatura em Ciências da Educação, outra das suas paixões. Fez mestrado em Ciências da Educação e deu aulas em várias escolas de enfermagem em Lisboa.
Natural do Tramagal, regressou à terra natal em 2007, onde reside. Tem uma filha com 13 anos. Passou a trabalhar no Centro de Saúde de Abrantes, onde acompanhou de perto a reforma dos Cuidados de Saúde Primários em 2008 o que fez com que quisesse contribuir para a implementação de uma Unidade de Cuidados na Comunidade no concelho de Abrantes. Algo que viria a acontecer mais tarde e onde passou a desempenhar a sua especialidade em enfermagem de reabilitação com foco nos AVC.
Sempre se preocupou com as decisões que implicavam a melhoria da qualidade de vida da sua comunidade e por isso foi convidada para a lista da Junta de Freguesia do Tramagal de 2017 a 2021. Estava no centro de vacinação da Covid-19 quando o presidente do município, Manuel Valamatos, foi ao seu encontro e a desafiou para pertencer à sua equipa e integrar a vereação. “Foi um convite que muito me honrou, não estava à espera, mas acabei por aceitar porque me revejo na proximidade que o presidente tem com a população e que tão bem o caracteriza. Tem como premissa a centralidade no cidadão, com a qual também tanto me identifico. É por ele que aqui estou e pela possibilidade de podermos mudar algo na vida da comunidade”, esclarece.
Confessa-se uma mulher madrugadora e adora caminhar à beira-rio, sozinha. É o momento que tem para si e confessa ser um auto-cuidado muito importante para a sua higiene mental. Admite ler livros muito técnicos mas “Fazes-me falta”, de Inês Pedrosa, marcou-a quando o leu no final da adolescência. Adora fazer e inventar bolos. É uma terapia que, sempre que pode, não dispensa.

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