Entrevista | 20-08-2022 21:00

Encerramento de escolas leva ao definhamento social e económico das freguesias

José Martins entrou na política após se reformar da GNR

José Martins está pela primeira vez no cargo de presidente de junta depois de ter conquistado a freguesia de Aveiras de Baixo aos socialistas pela diferença de dois votos. Encontrou as finanças da junta de pernas para o ar e diz não ter dúvidas que a freguesia que lidera, onde a rede móvel falha e o posto de saúde e as escolas fecharam, é a mais esquecida do concelho. Antes de ingressar na política foi militar da GNR, autoridade que devido à falta de efectivos tem vindo a perder a proximidade com as populações.

Vencer as eleições por dois votos teve um sabor agridoce? Completamente. Desesperei porque, devido a um erro, vi-me a morrer na praia pela diferença de um voto, para horas depois me informarem que afinal tinha ganho por dois votos. Obviamente que festejei mas não foi tão bom, até porque me desagrada e preocupa acontecerem erros destes em eleições. Neste caso descobriu-se que houve votos para a Assembleia Municipal de Azambuja contados como sendo para a assembleia de freguesia.
Já esperava destronar os socialistas ou foi uma surpresa? Confesso que já estava à espera, porque sabia que nas Virtudes, onde se conseguem as vitórias na freguesia, agradava às pessoas. Logo, sabia que à partida tinha condições para ganhar as eleições.
Na apresentação da sua candidatura disse que se fosse eleito seria presidente de junta 24 horas por dia, sete dias por semana. É mais ou menos assim? É isso mesmo. Nem de propósito, o meu telefone está a tocar neste momento para lhe dizer que tanto toca agora como toca às onze da noite. Como gosto de estar sempre ocupado, não me imponho limites de horário. Faço no mínimo cinco horas no gabinete por dia e depois vou para a rua, entro nos cafés para abordar a população e ouvir os seus problemas. Um presidente de junta não pode estar à espera de trabalhar só pelas horas ressarcidas, se assim fosse mal estaríamos.
Como é a sua relação com os fregueses? Até agora tem sido boa. As pessoas abordam-me, reclamam e expõem assuntos que são da minha responsabilidade e de outras entidades. Tento resolver todos, fazendo ou pressionando para quem de direito o fazer. No gabinete recebo em média três pessoas por semana mas é na rua que mais me abordam.
Desde que está no cargo já ouviu palavras azedas? Directamente não, mas rumores de que as dizem sim.
O presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, é de Aveiras de Baixo. Já se conheciam? Conhecemo-nos há mais de 30 anos e era frequente convivermos e vermos o futebol juntos, até porque somos ambos benfiquistas. Mas desde que entrei para a política que a relação não é a mesma e sofreu um pequeno toque. O que compreendo porque sempre me conheceu apartidário e de repente ingressei no PSD sem lhe ter dito que o ia fazer.
Como encontrou as finanças da junta de freguesia? Quando tomei posse a junta tinha 1.600 euros e facturas por pagar na ordem dos 3 mil euros. Posteriormente, na apresentação das contas, faltavam 8 mil euros. Com muito esforço descobrimos que facturas na ordem dos 5 mil euros não tinham sido processadas, ficando assim 3 mil euros por justificar que se mantêm até hoje. É dinheiro que nos faz falta, sobretudo agora com a subida da inflação e do preço do combustível. Para piorar, esta junta de freguesia foi agraciada com um aumento de 600% na factura da electricidade, o que fez com que em dois meses se pagasse o mesmo que se pagou no ano de 2021. Só da sede foram 600 euros. Esta situação é inconcebível, já denunciámos o contrato e fizemos uma exposição ao provedor de justiça.
Já o ouvimos dizer que a freguesia de Aveiras de Baixo é a mais esquecida do concelho. Em que se baseia? Em relação à saúde, desde que o médico se reformou nunca mais tivemos o posto médico a funcionar. Na educação, apesar de termos muitos alunos, encerraram as três escolas quando em freguesias com menos crianças, como Vale do Paraíso, continuam a funcionar. E, ainda, porque somos servidos por um apeadeiro da CP onde se paga bem mais do que nos restantes do concelho. Tenho vindo a reclamar muito sobre este assunto porque defendo que os utilizadores das Virtudes devem ser subsidiados.
A Câmara de Azambuja tem vindo a interceder junto do Governo nesse sentido mas até agora sem efeito. Demonstra esse facto que Azambuja é um município pouco influente? Neste caso do passe Navegante não é uma questão de influência mas de boa vontade. O PSD fez as contas e tratava-se de um diferencial de 8 mil euros que a câmara municipal pode suportar. Não precisa do Governo para nada.
Voltando à educação. O encerramento de escolas tem sido mal gerido? Tem de ser pensado. O encerramento de escolas faz com que os habitantes percam o sentimento de pertença à sua terra o que, por sua vez, faz desaparecer o bairrismo, o associativismo e o voluntariado. Além disso, a actividade económica também sai prejudicada. Deixámos de ter escolas na freguesia e o comércio foi desaparecendo até não termos uma única mercearia. Já não se faz vida em Aveiras de Baixo porque se está completamente dependente da sede de concelho. Por esse motivo já retomamos o transporte semanal até Azambuja, assegurado pela junta, a idosos e pessoas vulneráveis. Vão fazer as suas compras de mercearia, vão à farmácia e só tenho pena que já não possam usufruir do centro de saúde porque transitamos para Aveiras de Cima, onde também não há médicos para todos.
Tem médico de família? Não. Felizmente fui GNR durante 32 anos e por aí recorro ao privado. Mas a maior parte das pessoas não o pode fazer.
A Câmara de Azambuja criou um pacote de incentivos para atrair e fixar médicos, no entanto, no último concurso, este concelho voltou a não conseguir preencher nem uma vaga. O que não está a funcionar? O regulamento pelos vistos não está, sendo que do meu ponto de vista é um grande contributo. Só posso concluir que ou quem trabalha nestes postos de saúde ou a população não cativam. Estamos tão perto de Lisboa que nem por aí se compreende a falta de interesse.
Vê com bons olhos a majoração de 60% no vencimento de jovens especialistas que se fixem em zonas com uma média de cobertura por médico de família inferior à nacional, aplicada pelo Governo? Não. Acho que cria desigualdade. Enquanto profissional da GNR, na altura em que fui promovido a sargento-chefe, fiquei, por causa de uma alteração do Governo, a ganhar mais que um sargento-chefe com nove anos de serviço nessa categoria. Vi a instabilidade e desmotivação que criou, logo não é desta forma que se resolve bem o problema.

Falta de rede móvel é inconcebível no século XXI

Reside nas Virtudes. Tem acesso à rede móvel dentro de casa? Está melhor desde há um mês mas na minha tertúlia o telemóvel nunca toca porque não apanha rede; em casa, para nos compreendermos, tenho que ir para a janela. Se passar pelas Virtudes e vir uma pessoa à janela é porque está a falar ao telefone. É inconcebível no século XXI. Primeiro criaram-nos dependência às novas tecnologias mas depois não nos dão as ferramentas necessárias para aceder.
A fraca rede móvel e de Internet é um forte desincentivo à fixação de pessoas? A par com a habitação. Em Aveiras de Baixo temos o grave problema das casas degradadas. Tenho vindo a falar com o presidente da câmara no sentido de se chegar à fala com os proprietários para se requalificar as casas e as arrendar a jovens a preços acessíveis. Outro caso é o Largo da República, que de largo tem muito pouco. Já sugeri que o município adquirisse três casas devolutas para as deitar abaixo e fazer um largo digno desse nome.
Tem-se queixado em sessões de assembleia e camarárias da falta de limpeza dos terrenos. O que está a falhar? Os lotes vazios em zona urbana são competência da câmara municipal, que tem a obrigação de notificar os proprietários atempadamente e fazer-se substituir caso não cumpram, havendo ainda a possibilidade de passar um auto de contra-ordenação e levá-los a tribunal por crime de desobediência.
Como olha para a vinda de parques solares para o concelho? Sou a favor de painéis fotovoltaicos em habitações, empresas e edifícios públicos. Agora mega centrais em terrenos que podem ser proveitosos, não. Felizmente a central para a Quinta da Cerca, nas Virtudes, já está fora de questão. Não fazia sentido um mar de painéis num espaço florestal quando temos terrenos desertos no interior e a baixo custo.
A classe política em Azambuja está de boa saúde e recomenda-se? Temos que medir a classe política por aquilo que se desenvolve ou não, a resposta está aí. Em 1989, quando vim para cá, Azambuja se não estava melhor pelo menos estava igual. Portanto, evolução não temos visto nenhuma. Temos mais emprego mas de menor qualidade, quando antes tínhamos menos empresas mas mais emprego qualificado. Se olharmos para a Estrada Nacional 3, estamos há 20 anos à espera de uma alternativa.
Há quem desempenhe cargos políticos e não saiba o que anda a fazer? Saber desempenhar um cargo é saber gerir bem. Posso dizer que caí na política de páraquedas mas vim com a ideia de servir uma comunidade e esforço-me para aprender. Mas sim, acredito que muitos não saibam o que andam cá a fazer.
O processo de descentralização de competências ficou aquém do expectável?
O que se descentralizou na Saúde e na Educação foram as infraestruturas, o que para mim fica muito aquém porque não se tem realmente poder sobre os serviços. No que toca às freguesias, o envelope financeiro é curto, precisamos de ter orçamentos maiores para podermos ter mais recursos humanos que consigam dar resposta às competências que nos são atribuídas.

Cresceu sem pais e foi vítima de xenofobia

José Martins nasceu há 58 anos na aldeia de Castanheira, no distrito da Guarda. Filho de pais emigrantes, foi criado pelos avós maternos. A avó foi quem o amparou quando teve que enfrentar a dor de ter perdido a mãe aos 14 anos e de lidar com o facto de ter o pai internado num hospital psiquiátrico, onde viria a falecer. Sendo o único na aldeia sem pais para o amparar e defender, quis provar a si e a todos que essa condição não o impediria de ter um futuro próspero. Entrou para a Marinha Portuguesa onde ficou dois anos até decidir emigrar para a Alemanha em busca de uma vida financeiramente desafogada. Ficou dois anos e arrependeu-se. “Os anos em que estive emigrado foram os piores da minha vida. Por ser moreno achavam que tinha nacionalidade turca e lá têm aversão aos turcos. Fui vítima de xenofobia, todos os dias era ofendido, tratado abaixo de cão”, conta.
Regressou ao seu país e às fardas, desta vez como militar da Guarda Nacional Republicana. Serviu durante 32 anos, alguns dos quais como comandante dos postos de Azambuja e Aveiras de Cima e como elemento do Núcleo de Investigação Criminal de Alenquer e Secção de Investigação Criminal de Santarém. No seu tempo, lembra, tinha apenas uma folga e trabalhava-se mais de 40 horas por semana. Também havia, sublinha, patrulhas apeadas e maior proximidade entre a GNR e as pessoas. “Hoje um carro faz uma patrulha e só dali a cinco dias é que volta a passar”. O motivo? “Não há efectivos e os poucos que há é para responder a ocorrências”, diz.
Numa altura em que no concelho de Azambuja, e em particular na sua freguesia, têm ocorrido furtos de metais, nomeadamente tampas de esgoto e postes de sinais de trânsito, o autarca do PSD diz ver com bons olhos a cedência de bicicletas eléctricas do município à GNR. Isto, salienta, se houver militares para as utilizar em patrulhas. Sobre as queixas de abuso de poder que vieram a público e foram notícia em O MIRANTE, o ex-militar entende como necessária, neste e noutros casos, o apuramento da verdade no terreno por parte das chefias.
Depois, entrando num momento de introspecção, reconhece que enquanto exerceu a profissão foi autoritário e por vezes prepotente. Características que “nasceram na GNR e ficaram lá” quando despiu a farda, garante, dizendo-se defensor da troca de militares de posto para evitar que se “ganhem vícios maus” resultantes da autoridade que se tem.
José Martins casou aos 28 anos em Azambuja e tem duas filhas. Sentiu, desde muito novo, o desejo de ser pai para poder transmitir os valores herdados pelos seus pais e avós. Confessa-se protector, talvez, justifica, por no exercício da sua profissão ter presenciado cenários e vítimas de crime. Agora, num novo cargo há 10 meses, mantém o foco para conseguir deixar promessas feitas, nomeadamente a requalificação de Aveiras de Baixo e a reabertura de uma das escolas.
Na lista de afazeres para quatro anos já marcou um visto na contratação de uma equipa de limpeza, de medicina no trabalho, seguro de responsabilidade civil, obras na sede da junta no valor de 8 mil euros, pintura das delegações, colocação de lombas redutoras de velocidade, actividades para os seniores, arranjos nos parques infantis e aumento do subsídio atribuído às cinco colectividades da freguesia, duas das quais, reconhece, estão “moribundas”.

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