Entrevista | 21-08-2022 09:59

Francisco Camilo faz arte com latas de spray

Francisco Camilo está entre os finalistas de um festival europeu que premeia várias formas de arte

Francisco Camilo dedica-se à pintura de murais, a chamada arte urbana. Está entre os finalistas de um festival internacional europeu para jovens artistas de várias áreas. Neste momento, o jovem de Santarém está a trabalhar num mural junto à Casa do Campino. Tem opinião sobre a sua cidade e diz que Santarém tem que saber atrair os turistas que visitam Lisboa e Fátima. Recentemente comprou casa perto de Abrantes, onde ensaia a sua entrada no mundo da escultura.

“Santarém está entre duas das cidades mais turísticas do país, Fátima e Lisboa, e deveria conseguir aproveitar os milhões de turistas que passam pela cidade apenas na auto-estrada e dar-lhes a conhecer o concelho”. A opinião é de Francisco Camilo, um jovem artista de 31 anos residente em Santarém, que está entre os finalistas do “Martlive Project”, festival internacional europeu para jovens artistas de várias áreas, como a música, teatro, moda e street art. Francisco Camilo é um dos finalistas na disciplina de street art. O jovem está orgulhoso pela nomeação e aguarda com expectativa o resultado do concurso.
Francisco Camilo reconhece que a Câmara de Santarém tem desenvolvido trabalho meritório na promoção turística, mas considera que é preciso apostar mais forte. “Estamos a perder turistas todos os dias, o que é uma pena. Tem que se meter Santarém no mapa do turismo e dar visibilidade à cidade”, afirma.
O MIRANTE encontrou o artista no Campo Emílio Infante da Câmara, junto à Casa do Campino, a pintar um mural, uma parceria com a Câmara de Santarém. Numa das paredes está representada, em desenho, a reconquista de Santarém aos mouros. Noutra, a pintura mostra uma caravela dos Descobrimentos e as receitas culinárias portuguesas que tiveram influência em vários países.
Junto ao mural vai ser criado um skate parque para os jovens terem um espaço onde se divertir. “Existem poucos espaços para os jovens conviverem mas acredito que este pode vir a ser um ponto de encontro importante. Está no planalto, relativamente perto das escolas, e poderá tornar-se um espaço de excelência para os jovens. Fazem falta espaços destes”, refere.
Se pudesse, Francisco Camilo pintava várias paredes na Ribeira de Santarém dando uma imagem renovada ao degradado casario. O abandono das casas e o facto da cidade estar de costas para o rio Tejo prejudica o desenvolvimento de Santarém. “Se se construísse uma zona ribeirinha, com espaços pintados, tenho a certeza que as pessoas iriam aderir muito bem. É uma pena que a Ribeira de Santarém esteja em ruínas”, lamenta.

Pintar murais em vez de estragar paredes
Desde criança que bastava um lápis e um papel branco para Francisco Camilo estar entretido a desenhar e pintar. Aos 11 anos o seu pai colocou-o numa escola de desenho e pintura no Fórum Mário Viegas, em Santarém, e ficou sob a tutela do pintor César Pires. “Ensinou-me muita coisa. Devo-lhe tudo o que sei de realismo, desenho e pintura. Evoluí muito e senti um grande avanço em relação aos meus colegas quando cheguei ao secundário”, conta.
Francisco Camilo frequentou o curso de Artes na Escola Dr. Ginestal Machado, em Santarém. Ainda fez três anos do curso de arquitectura por pressão dos pais, que queriam que o filho tivesse uma profissão estável. Passados três anos Francisco Camilo percebeu que o seu caminho não era por ali e foi para o curso de Belas-Artes, em Lisboa. Foi nessa altura que começou a experimentar arte urbana. “Comecei por ir com amigos durante a noite fazer grafitis, a que podemos chamar vandalismo, mas cedo percebi que o spray é um material muito bom para pintar murais e fazer coisas bonitas em vez de estragar paredes”, admite.
O seu primeiro trabalho foi em Lisboa, em 2012. Três anos depois pintou um mural em Almeirim, junto ao edifício do antigo tribunal da cidade. A partir daí começou a ser procurado para fazer trabalhos em toda a região. Com a pandemia comprou uma casa na Pucariça, aldeia do concelho de Abrantes, e é lá que anda a experimentar a escultura. Tem um trabalho quase terminado e que será mostrado ao público em breve. Gosta de trabalhar no Ribatejo porque tem sido muito procurado e consegue viver apenas da sua arte.

Obra preferida está na Califórnia
A obra preferida feita por si é um tritão que está desenhado em São Clemente, na Califórnia. Esteve nos Estados Unidos da América durante dois meses no âmbito de uma residência artística. O seu projecto de vida passa por trabalhar uns meses no estrangeiro e regressar a casa, em Portugal. Em Setembro vai estar cerca de um mês na Polónia para fazer dois trabalhos em duas cidades diferentes. Depois regressa a Santarém.
Confessa ter receio que vandalizem o seu trabalho e, pelo que sabe, há uma pintura estragada em Lisboa. “Assim que tiver tempo vou lá retocar. Podem estragar que sou teimoso para lá ir pintar por cima para ficar como quero”, garante. Prefere pintar de dia e confessa que a inspiração surge a qualquer momento.

Um jovem tímido que gosta de passear no campo

Solteiro e sem filhos, gosta de caminhar pelo campo. Confessa não ser muito de ler e a série Stranger Things foi a última que viu. Admite ter uma excessiva dependência dos telemóveis, como a maioria dos jovens, mas diz fazê-lo por causa das redes sociais. “Publico imagens do meu trabalho e quando as pessoas me escrevem sinto que devo responder-lhes. As redes sociais até me fizeram bem, porque era tímido. Ao conversar primeiro através da Internet, depois torno-me mais sociável”, responde com um sorriso tímido.

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