Entrevista | 08-09-2022 10:00

Para o PCP os compromissos assumidos por boca não interessam

Luísa Mesquita foi o principal rosto do PCP na região durante cerca de duas décadas até que foi expulsa do partido, em 2007, por não aceitar ceder o seu lugar na Assembleia da República

Excerto da entrevista a Luísa Mesquita, que durante cerca de duas décadas foi o principal rosto do PCP na região. Em 2007, foi expulsa do partido por não aceitar ceder o seu lugar na Assembleia da República.

Foi expulsa do PCP em 2007, por recusar abandonar o Parlamento, como lhe pedira o seu partido. Para uma militante comunista, esse apego ao poder e às mordomias parlamentares não foi uma atitude demasiado burguesa? Uma sobreposição do individual ao colectivo?   

Quanto a ter características burguesas, não tenho dúvidas nenhumas acerca delas, nunca fui operária de fábrica. Lembro-me que uma pessoa que muito respeitei, que já cá não está, chamada Carlos Pinhão, de Alpiarça, convidou-me um belo dia, a seguir ao 25 de Abril, para eu ser funcionária do PCP. Eu disse-lhe que era impossível. Primeiro, porque não estava de acordo com o funcionalismo partidário, e eu tinha 21 ou 22 anos, e em segundo lugar devido às minhas características como ser humano, de pequeno-burguesa, que não me permitiam aceitar de ânimo leve todas as características de um partido que se vocaciona exclusivamente para o operariado. O Carlos Pinhão olhou para mim e disse que entendia e não me incomodava mais. Sou a mesma pessoa que depois foi convidada para ser deputada pelo PCP.   

E quanto ao apego ao poder?  

Diria que houve um apego, mas não ao poder. Porque, se fosse, concretizar-se-ia tudo aquilo que o PCP tinha supostamente adivinhado, que era: assim que eu saísse de uma entrava logo noutra. Primeiro seria a segunda na lista do Moita Flores, depois talvez fosse na do Bloco de Esquerda, na do PS e até admitiriam que eu, no meu apego ao poder, aceitasse o CDS ou o PSD. Tudo era possível. A verdade é que não houve esse apego ao poder. Fiz questão de demonstrar que a única coisa que houve foi o cumprimento de um mandato que me foi dado. Nunca aceitei ser cabeça de lista pela CDU, desde 1995 até sair, sem questionar à pessoa da comissão política do PCP como é que era. Deixei claro que se fosse candidata a deputada e eleita seria para cumprir o mandato de 4 anos. No Verão de 2006 soube que me queriam substituir…  

Sentiu-se traída pelo PCP?  

Completamente. Traída pelos compromissos assumidos, mas os compromissos assumidos por boca ao PCP não interessam. O que interessa é o papel e o que os estatutos dizem. A guerra, a pressão psicológica e as ameaças duraram desde o Verão de 2006 até Novembro de 2007.  

Perdeu muitos amigos?  

Por exemplo, a minha assessora, que era uma grande amiga, foi proibida de me cumprimentar. Telefonava-me às escondidas. À advogada do grupo parlamentar, casada com um grande amigo meu também, foi-lhe chamada a atenção de que não caíam bem os nossos encontros…  

Deixou de acreditar nos “amanhãs que cantam”?   

Aí é que está a história! Eu acredito nos amanhãs que cantam. Ainda estas férias ouvi os amanhãs a cantar na Dinamarca, na Noruega e na Suécia, não acredito é nalguns cantores que os cantam. Até o nosso físico vai mudando com a evolução do tempo e não somos capazes de evoluir mentalmente?  

*Leia a entrevista completa na edição semanal em papel desta quinta-feira, 8 de Setembro

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