Entrevista | 09-09-2022 15:00

Não me dá jeito morrer agora, tenho tanta coisa para fazer

Para José Alberto Gomes Pereira, nunca ter frequentado uma escola de artes, nem como aprendiz, nem como mestre, não é defeito, é feitio vincado.

Excerto da entrevista de José Alberto Gomes Pereira, o pintor de horizontes amplos, aos 79 anos garante ainda não perder tempo a pensar na morte, vivendo a arte com tanta ou mais intensidade do que na juventude.

Nasceu em Riachos em 1943. Que retrato pinta desses tempos de infância? 

Tive uma infância fantástica. Tenho duas irmãs, sou o filho do meio. O meu avô, José Pereira Cingeleiro, tinha uma casa agrícola e era muito amigo do José Martins Castello Lopes. Um dia, o Castello Lopes convida o meu avô para ser sócio dele numa distribuidora e produtora de filmes. O meu avô ficou muito espantado e recusou a proposta, dizendo: “Eu sou agricultor. Filmes? Isso são fitas!” Essa frase marcou-me e até chegou a inspirar um quadro. 

Aos 11 anos vai com os seus pais para Moçambique, onde se forma. África moldou-o? 

É evidente. Com 16 anos comecei a perceber que já desenhava com intenção de transmitir uma mensagem e isso tem a ver também com a vivência em África. As formas das figuras humanas que retrato e as cores que privilegio são muito africanas. Há na minha obra uma importante influência africana, não especificamente deste ou daquele artista, embora tenha privado com muitos artistas africanos, como Malangatana, Alberto Chissano ou Blimundo Alves. 

Falava da mensagem artística. O início do seu percurso tem uma mensagem política forte. 

Tem indirectamente, porque não podia fazê-lo explicitamente. Quando estava na tropa, pintei um quadro que dizia: “Lutamos pela Paz”. Mas toda a gente sentiu que, naquele quadro, não era eu quem dizia lutamos pela paz, mas aqueles que lá estavam representados.  

A um ano de completar 80 anos, como é que se vão compondo os seus dias? 

Ainda estou no grupo dos temporariamente imortais. Até aos 75 anos, fui imortal, embora nunca acreditasse que passava dos 50. A partir dos 75, tornei-me temporariamente imortal. Só não sei por quanto tempo. 

Mas também não o preocupa? 

Nada. O tempo para mim é sempre uma coisa lá ao longe. E é como dizia um amigo meu: não me dá jeito morrer agora, tenho tanta coisa para fazer. 

*Leia a entrevista completa na edição semanal em papel desta quinta-feira, 8 de Setembro

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