Entrevista | 14-09-2022 15:00

Luísa Mesquita: “Nunca permiti que me pusessem garrotes” 

Luísa Mesquita foi o principal rosto do PCP na região durante cerca de duas décadas até que foi expulsa do partido, em 2007, por não aceitar ceder o seu lugar na Assembleia da República

Durante cerca de duas décadas foi o principal rosto do PCP na região, deputada em várias legislaturas e autarca em Santarém. Em 2007 foi expulsa do partido por não aceitar ceder o seu lugar na Assembleia da República. Na última dúzia de anos Luísa Mesquita desapareceu da cena política e dedicou-se à família e à leitura. Sentiu-se traída pelo PCP que diz ser um partido sem capacidade de adaptação aos novos tempos e que corre o risco de ter o mesmo destino que o CDS.

Está reformada da política e do ensino há já alguns anos. Como tem ocupado os seus dias? Diria que há dias em que estou convencida de que não estou reformada porque tenho muito para fazer. Houve uma família que esperou por mim quase vinte anos e gozar a família, os meus filhos, os meus netos, a minha mãe, faz parte da minha vida actual. Depois, precisava de continuar a dar aulas. Optar por um cargo de natureza política jamais me passou pela cabeça, apesar dos inúmeros convites, mas dar aulas era algo que me tinha ficado no subconsciente. Fui resistindo a isso para não ocupar muito o tempo, mas acabei por ir dar aulas na UTIS – Universidade da Terceira Idade de Santarém. É um prazer imenso poder ensinar o que quero, como quero e ver crescer, desde o primeiro ano até hoje, as inscrições dos meus supostos alunos, que, acima de tudo, são companheiros de conversa. 
Saiu da política activa há cerca de uma dúzia de anos e praticamente desapareceu da vida pública em Santarém. Há um provérbio português que diz que quem não aparece esquece. Lembro-me que ouvi isso muitas vezes depois de acabar o mandato na Assembleia da República…  
Queria ser esquecida? Não. Mas ouvi isso muitas vezes como acusação e continuo a aparecer pouco. Foi por opção própria. Houve alguns seres humanos aqui da nossa praça, e também da praça nacional, que imaginaram o meu trajecto posterior: que iria ser candidata por outro partido, ou mesmo como independente, a outra câmara qualquer; e lembro-me até de uma oferta que me foi feita na altura, no mínimo estranha, do género escolha o concelho onde quer ser candidata… 
E qual foi o partido que lhe fez essa oferta? Como imaginará, isso não faz parte da nossa conversa de hoje… 
Convidaram-na também para ser directora da abortada Fundação da Liberdade, em Santarém… Não, isso é um engano que já esclareci com uma pessoa amiga, o Pedro Canavarro, porque me apercebi que toda a cidade estava convencida que isso era verdade. 
Mas foi a senhora a escolhida pelo então presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores, para discursar na apresentação pública desse projecto, já lá vai mais de uma década… Exactamente. E acho que foi essa a razão para o equívoco. Havia que agradecer o dinheiro que vinha de Lisboa, havia que agradecer aquilo que já estava garantido por Bruxelas e a própria legislação que cobria o projecto da Fundação da Liberdade. 
No entanto a fundação não existe, nada foi feito… Claro que não, tal como muitas outras coisas que desapareceram. 
E esse dinheiro, provavelmente, também nunca chegou. Algum chegou. Os objectivos já estavam na legislação produzida e aprovada em Conselho de Ministros para criar o diagrama possível, bem lato, que tinha como base os valores de cidadania e da liberdade. Posso dizer que nessa altura tinham sido feitos contactos com personalidades internacionais como Nelson Mandela e Jimmy Carter. Sei que estou a falar de coisas que habitualmente não se falam… Esses foram dois dos contactos feitos no sentido de ajudarem ao patrocínio da fundação. Não era um projecto para criar um museuzinho do Salgueiro Maia, era uma fundação para criar valores de cidadania, que não tivesse medo de existir. 
Então qual era o seu papel nesse projecto, se não era a directora e tinha toda essa informação? Pediram-me para ajudar a construir o projecto. E ajudei a construí-lo com todo o prazer. 
Sente-se desiludida com a não concretização do projecto na antiga Escola Prática de Cavalaria (EPC)? Sim, sinto-me desiludida com o facto de não ter avançado. O projecto era tão grande que ocupava toda a EPC. 
Não terá sido essa megalomania a condená-lo ao fracasso? Não. Não foi por mero acaso que o então primeiro-ministro, José Sócrates, esteve presente nessa cerimónia, no sentido de demonstrar que o Conselho de Ministros tinha assegurado esse projecto. O projecto saiu em Diário da República, não era nenhuma falsidade nem nenhuma invenção. 
Então a culpa do fracasso foi da troika? As mudanças políticas, as révanches e os ódios de estimação criam estigmas e os estigmas são destruidores da vida política, da vida pessoal e da vida pública. Não há nada mais destruidor do que isso. 
Acha que o presidente da câmara da altura foi estigmatizado depois de sair dessas funções? Na minha opinião, há projectos que desapareceram. Porque é que desapareceram não sei…  
Sente saudades da adrenalina desses tempos em que respirava política? Não lhe custou perder protagonismo? Posso dizer que, após a saída da Assembleia da República e da Câmara de Santarém, se o protagonismo fosse uma coisa muito importante para mim, eu não teria estado ausente da praxis social vigente, do aparecer, de criar um determinado ritual e style para essas coisas. Isso não faz parte da minha maneira de ser e de estar. Nos anos seguintes a adrenalina não me faltou para ler dezenas e dezenas de livros sem parar. Foi uma necessidade. Eu tinha deixado de ler; só lia o que era importante para a minha actividade política. 
É uma mulher feliz? Sou, muito! Sinto-me mais livre. Embora, pela minha maneira de ser e estar na vida nunca tenha permitido nenhum garrote. Não o permiti na minha função de professora ou nas minhas funções políticas, quer na Câmara de Santarém quer na Assembleia da República. 
É uma rebelde? Sempre fui! Já vem dos tempos de adolescência… 
Tem lidado bem com o envelhecimento? Perfeitamente bem. Primeiro, é preciso uma pessoa sentir-se assim e isso ainda não chegou cá. 
De uma vida cheia, qual considera ter sido a sua grande obra até ao momento? O nascimento, o crescimento e a educação dos meus três filhos. Vê-los crescer e construir caminhos sérios de trabalho, de capacidade de avaliação daquilo que é o mundo, de poder discutir com eles, quando estamos juntos, assuntos desde a invasão da Ucrânia… 
Invasão da Ucrânia? Não é essa a opinião do PCP… (risos) Pensei que me considerasse o suficiente para não me fazer essa pergunta. Se as pessoas tivessem dúvidas acerca do comportamento político desse tipo de discurso, bastava verem o comunicado do PCP acerca da morte de Mikhail Gorbachov. Aquilo é um discurso ensurdecedor, que não permite que outras coisas entrem. Nada impede uma força política que diga que não concorda com aquilo que foi a vida pública e política de Gorbachov, mas pelo menos que tivesse a capacidade de reconhecer que ele percorreu o Mundo na procura do entendimento, da solidariedade, independentemente dos erros que cometeu.  

Uma burguesa no partido do proletariado

Foi expulsa do PCP em 2007 por recusar abandonar o Parlamento, como lhe pedira o seu partido. Para uma militante comunista esse apego ao poder e às mordomias parlamentares não foi uma atitude demasiado burguesa? Uma sobreposição do individual ao colectivo? Quanto a ter características burguesas não tenho dúvidas nenhumas acerca delas, nunca fui operária de fábrica. Lembro-me que uma pessoa que muito respeitei, que já cá não está, chamada Carlos Pinhão, de Alpiarça, convidou-me um belo dia, a seguir ao 25 de Abril, para eu ser funcionária do PCP. Disse-lhe que era impossível. Primeiro, porque não estava de acordo com o funcionalismo partidário, e eu tinha 21 ou 22 anos, e em segundo lugar devido às minhas características como ser humano, de pequeno-burguesa, que não me permitiam aceitar de ânimo leve todas as características de um partido que se vocaciona exclusivamente para o operariado. O Carlos Pinhão olhou para mim e disse que entendia e não me incomodava mais. Sou a mesma pessoa que depois foi convidada para ser deputada pelo PCP.  
E quanto ao apego ao poder? Diria que houve um apego, mas não ao poder. Porque, se fosse, concretizar-se-ia tudo aquilo que o PCP tinha supostamente adivinhado, que era: assim que eu saísse de uma entrava logo noutra. Primeiro seria a segunda na lista do Moita Flores, depois talvez fosse na do Bloco de Esquerda, na do PS e até admitiriam que eu, no meu apego ao poder, aceitasse o CDS ou o PSD. Tudo era possível. A verdade é que não houve esse apego ao poder. Fiz questão de demonstrar que a única coisa que houve foi o cumprimento de um mandato que me foi dado. Nunca aceitei ser cabeça-de-lista pela CDU, desde 1995 até sair, sem questionar à pessoa da comissão política do PCP como é que era. Deixei claro que se fosse candidata a deputada e eleita seria para cumprir o mandato de 4 anos. No Verão de 2006 soube que me queriam substituir… 
Foi apanhada de surpresa? Perfeitamente. Desconhecia totalmente. 
Sentiu-se traída pelo PCP? Completamente. Traída pelos compromissos assumidos, mas os compromissos assumidos por boca ao PCP não interessam. O que interessa é o papel e o que os estatutos dizem. A guerra, a pressão psicológica e as ameaças duraram desde o Verão de 2006 até Novembro de 2007. 
A sua vida política era no PCP. Perdeu muitos amigos com essa cisão? A seguir tive gente que me pediu, apesar da injustiça da decisão, para eu a aceitar, porque também eles já tinham passado por isso em momentos diferentes, quer antes quer depois do 25 de Abril, e que eu tinha que aguentar. Expliquei-lhes que não ia aguentar e que essa era a grande diferença entre eu e eles. 
Perdeu muitos amigos? Por exemplo, a minha assessora, que era uma grande amiga, foi proibida de me cumprimentar. Telefonava-me às escondidas. À advogada do grupo parlamentar, casada com um grande amigo meu também, foi-lhe chamada a atenção de que não caíam bem os nossos encontros… 
Presumo que nunca mais foi à Festa do Avante… Já não ia! 
Por alguma razão em particular? Tenho alguma dificuldade em aceitar as festas quando não se tem mais nada para dizer. Para mim, aquilo que acontece na Festa do Avante ou o que acontece nas comemorações do 25 de Abril é falta de ambição. Uma vez fiz uma intervenção no 25 de Abril em que disse que falta cumprir o 25 de Abril. E não estando cumprido o 25 de Abril estamos a comemorar o quê? E a Festa do Avante é a mesma coisa. Fala-se da importância do 25 de Abril, do fim da censura, do fim da repressão… 
Mais alguma vez votou na CDU desde que foi expulsa do PCP? O voto é secreto, mas como me conhece há muitos anos, e admitindo que será capaz de me reconhecer características como a integridade e coerência, rapidamente concluirá qual o meu posicionamento. 
Deixou de acreditar nos “amanhãs que cantam”? Aí é que está a história! Acredito nos amanhãs que cantam. Ainda estas férias ouvi os amanhãs a cantar na Dinamarca, na Noruega e na Suécia, não acredito é nalguns cantores que os cantam. Até o nosso físico vai mudando com a evolução do tempo e não somos capazes de evoluir mentalmente?.

O PCP corre o risco de seguir o caminho do CDS 

Na última dúzia de anos o PCP nunca mais teve assento na Câmara de Santarém, e também noutros municípios da região, e tem perdido representatividade no poder local. Como tem visto esse fenómeno? Pode acontecer-lhe o mesmo que ao CDS? Acho que pode. Não sei como seria neste momento, se houvesse eleições em Portugal, com as tomadas de posição do PCP e a incapacidade de reconhecer que há um país invadido e que há um invasor – o que qualquer criança percebe – e continuar a entender que tudo está a acontecer porque a NATO, os Estados Unidos da América ou os ocidentais são os culpados… Parece uma daquelas histórias da carochinha em que há sempre uma fada má que é culpada de tudo.  
O PCP parou no tempo? Não sei se parou, se continua a andar… É um partido político que respeito, com uma história fabulosa de combate à ditadura e com vidas e vidas entregues a esse combate. Agora, uma velha pessoa que comete um conjunto de erros não tem que ser igual à jovem pessoa que um dia conheci. Mas em Portugal isto é tão difícil de aceitar que lhe dou um presente se me disser que alguma vez foi a um funeral em que se dissesse mal do defunto. Mesmo a pior pessoa, aquela a quem seria fácil apontar uma dúzia de defeitos, no dia do seu funeral até nem era má pessoa. Esta é a nossa leitura da vida. 
O PCP devia mudar de liderança? Esse não é um problema meu. 
Calculo que os seus ex-camaradas não devem ter ficado muito satisfeitos com a sua aproximação política a Moita Flores que era o presidente da Câmara de Santarém eleito pelo PSD quando Luísa Mesquita foi expulsa do PCP em 2007. Moita Flores aproximou-se de mim no sentido de perguntar se queria pelouros, ainda eu era militante do PCP. E deixei claro numa reunião da CDU, com vozes a levantarem-se que eu poderia muito bem aceitar pelouros pois seria uma mais valia para a CDU e para o concelho, que não aceitaria pelouros pois o meu poder seria diminuto e não conhecia o senhor suficientemente bem. Fui eu que recusei, mas claro que estas coisas são esquecidas de imediato quando alguma comadre se zanga. A animosidade dos ex-camaradas só apareceu em 2007.  
Com Moita Flores ganhou um amigo ou foi mais uma desilusão da política? Ganhei um amigo! Não tenho dúvidas quanto a isso. Ainda hoje nos continuamos a dar e a conversar sobre os seus livros. 
Como vê estes casos que Moita Flores enfrenta na justiça? Os que restam? É que de cinco processos restam dois, três já foram arquivados. À justiça o que é da justiça, à política o que é da política. Acho que o tempo vai esclarecer as coisas. 
Trabalhou com o actual presidente da Câmara de Santarém, Ricardo Gonçalves, no executivo, então ambos como vereadores. Que ideia tem dele? A ideia que tenho do poder político escalabitano é de apatia e de uma ausência de objectivos de médio e longo prazo. Uma comunidade, por mais pequena que seja, e Santarém nem sequer é uma pequena comunidade, não pode ser gerida como se gerem pequenos espaços. E temos que tomar decisões sabendo que nem sempre as pessoas estão de acordo. Dou o exemplo da variante ferroviária a Santarém: os projectos existem, havia acordo com proprietários de terrenos na zona onde deveria passar o traçado e o que é que fizeram desde que Moita Flores foi embora? 
Essa é uma obra da responsabilidade da Infraestruturas de Portugal, não é da câmara. Está a sugerir que faltou capacidade reivindicativa dos autarcas para que o projecto se concretizasse? Falta de capacidade reivindicativa e falta de projectos em carteira. Pergunte a alguns presidentes de câmara do PS, uns no activo outros já não, que construíram coisas fabulosas aqui perto de nós, como em Almeirim ou Rio Maior. Continuamos com o Campo Emílio Infante da Câmara por requalificar, com o Tejo por recuperar, não temos um espaço municipal para eventos….

A voz do PCP na região que acabou expulsa do partido  

Maria Luísa Raimundo Mesquita nasceu em 10 de Abril de 1949. É bacharel em Literatura, licenciada em Filologia Românica e mestre em Literatura e Cultura Portuguesa Contemporânea. Foi a primeira portuguesa a fazer uma tese de mestrado sobre a obra de José Saramago, no início da década de 1990. Foi professora do ensino secundário e do ensino superior. A nível político, destacou-se como deputada pelo círculo de Santarém eleita pela CDU durante seis legislaturas. Política combativa e de discurso fácil e contundente, acabou o seu último mandato, em 2009, como deputada não inscrita, após ter sido expulsa do PCP em 2007. Entrou na política autárquica em 1976, como eleita da Assembleia Municipal de Santarém, onde foi das principais vozes da oposição. De 2005 a 2009 foi vereadora na Câmara de Santarém, eleita pela CDU. No seu mandato como vereadora acabou por ser o fiel da balança no executivo entre PSD e PS e aproximou-se politicamente do então presidente da câmara, Moita Flores (PSD), nalgumas áreas. Saiu da política activa há cerca de uma dúzia de anos e praticamente desapareceu da vida pública em Santarém.  
Mãe de três filhos e avó de dois netos, Luísa Mesquita é hoje professora na UTIS – Universidade da Terceira Idade de Santarém – e sente-se realizada nessa missão. Considera que o desenvolvimento dos territórios não se faz só de investimento económico e vinca que a cultura e a educação são vertentes que Santarém devia explorar melhor aproveitando a ligação do concelho a figuras marcantes dos últimos séculos como Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Passos Manuel, Bernardo Santareno, Mário Viegas ou Salgueiro Maia. “Temos a sorte de possuir um conjunto de individualidades que aqui estiveram presentes e que poderiam constituir um roteiro cultural imprescindível ao desenvolvimento da cidade”, diz. Quando lhe perguntamos como gostaria de ficar recordada, responde: “Simplesmente como Maria Luísa Raimundo Mesquita”.

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