Entrevista | 28-09-2022 10:00

A clandestinidade do PSD de Abrantes e a falta de mundo dos autarcas

José Eduardo Marçal foi o fundador e primeiro presidente da Nersant e Governador Civil de Santarém

José Eduardo Marçal teve uma passagem efémera pela política em cargos públicos. Era militante do PSD, mas desfiliou-se há quase cinco anos por estar farto de ver jogos de interesses e de as ideias brilhantes não valerem nada nos partidos.

Porque é que o PSD tem tanta dificuldade em afirmar-se actualmente no concelho de Abrantes? Tem dificuldade em Abrantes como em quase todo o interior. Temos vários níveis de crescimento no distrito e no país. Há zonas que atraem um determinado nível de população, a classe média, que hoje podem votar PSD e amanhã PS ou Iniciativa Liberal. Depois temos um interior politicamente analfabeto, com uma população mais envelhecida e que se preocupa muito com coisas como o presidente da câmara deu emprego ao filho ou outro familiar. Por isso é que não há interesse em desenvolver o interior.
As quezílias internas também não ajudam… Acho que é mais uma questão de estarem na clandestinidade. Eles funcionam como uma espécie de células clandestinas como o PCP antes do 25 de Abril.
A oposição mais forte à maioria socialista na câmara, por parte do PSD, foi feita pelo vereador Santana Maia. Mas segundo se diz não gosta dele. Não gosto nem desgosto, tenho é um olhar político diferente. Sempre aprendi na vida que quando criticamos temos de apresentar uma solução. Criticar e dizer mal é o mais fácil na vida.
E o que achou da governação de Nelson Carvalho? Numa primeira fase o concelho desenvolveu-se. Renovou o centro de Abrantes que deixou de ter um aspecto decadente. Falhou na parte empresarial e de fixação de postos de trabalho. Depois caiu naquela situação de alguns autarcas que pensam que ser autarca é uma possibilidade de ascenderem ao posto seguinte.
Como analisa aqueles projectos Nelson Carvalho do cemitério à americana, o campo de basebol… Isso já entramos no humor dos Monty Python. Normalmente ele anunciava um ano antes das eleições um mega-projecto. Quando uma terra está parada, quase morta, não é um anúncio desses que resolve. Há 20 anos teria sido inovador criar uma agência de desenvolvimento de empresas de média dimensão, que fossem complementares e que levasse à criação de uma grande empresa que as aglutinasse. Mas a sua sucessora foi nitidamente muito pior.
Estamos perante um contrassenso quando ouvimos autarcas a dizerem que querem cativar mais população? Acredito que alguns autarcas dizem isso porque têm mesmo falta de mundo. Eles até acreditam no que dizem, mas o único modelo de desenvolvimento que conhecem é aquele que praticam. É fundamental que os autarcas vejam outras realidades. Se chegarmos a uma localidade do interior do país, 70% depende, directa ou indirectamente, da câmara.
Mas os autarcas devem ter consciência que a instalação de uma empresa no seu concelho é importante para todos. Quando fundei a Associação Empresarial da Região de Santarém – Nersant, alguns autarcas aceitavam bem a instalação de empresas nos seus concelhos e outros só criavam dificuldades. Chegaram a dizer-me que os empresários eram ricos e que com os ricos não queriam nada. E não eram do PCP, aliás as câmaras comunistas na altura eram as que aceitavam melhor as empresas.
O que é que leva um autarca a recusar um investimento?
Perda de poder. Se uma empresa cria, por exemplo, 200 postos de trabalho, leva engenheiros, gestores, pessoas que gostam de ler, pessoas com espírito crítico. O presidente da câmara pensa que dentro de algum tempo tem concorrentes. Isto não é racional, está-lhes no subconsciente.

Os autarcas têm falta de mundo e no interior quase toda a gente depende da câmara

José Eduardo Marçal teve uma passagem efémera pela política em cargos públicos. O fundador e primeiro presidente da Associação Empresarial da Região de Santarém – Nersant, entre 1989 e 1993, foi governador civil em 1994 e 1995 e marcou um estilo de actuação discreta a mover influências para conseguir melhores condições para o distrito. Era militante do PSD, mas desfiliou-se há quase cinco anos por estar farto de ver jogos de interesses e de as ideias brilhantes não valerem nada nos partidos. Natural de Abrantes, onde a sua família tinha uma empresa de construção que faliu devido às crises e à falta de pagamento das instituições públicas, vai à terra natal de 15 em 15 dias. Os seus filhos já não têm ligação à cidade que, no entender do engenheiro civil, está cada vez pior.

José Eduardo Marçal Ruivo da Silva é director na Brisa na área da segurança. Tem o doutoramento em Segurança e Saúde Ocupacionais, é professor em várias universidades nessa área e pertence ao gabinete de peritagens do Ministério Público de Lisboa onde faz a análise técnica de acidentes e é presidente do conselho disciplinar da Região Sul da Ordem dos Engenheiros. Homem de bom humor, gentleman, não gosta de criticar sem ter soluções para apresentar. Considera que quem anda na política deve ser alguém com reconhecimento na sociedade, com experiência e com uma vida própria lamentando que actualmente nasce-se na política para ser político.
Nascido a 12 de Fevereiro de 1958, esteve envolvido em grandes projectos e foi director das maiores empresas de engenharia civil. Esteve envolvido na construção do eixo norte-sul, no arranque do Metro do Porto, onde esteve um ano a viver. É benfiquista, mas curiosamente esteve nas obras do Estádio do Sporting, o que, diz em jeito de brincadeira, “demonstra a generosidade de um benfiquista em ajudar os mais desfavorecidos”. Fora a brincadeira diz que só tem elogios a tecer à então direcção do Sporting que deu liberdade para decidir.

Quando saiu de Governador Civil de Santarém desapareceu do panorama político da região. Foi porque se chateou ou porque arranjou um bom emprego? Nunca precisei da política para a minha vida. Sou feliz com a minha carreira na engenharia. Quando fui para governador fui de alguma forma coagido porque dois anos antes já tinha sido convidado e tinha recusado. Portanto foi uma passagem efémera pela política.
Quem é que o coagiu a aceitar o cargo? O primeiro-ministro de então, Cavaco Silva, porque a pessoa que eu tinha indicado, José Ribeiro dos Santos, demitiu-se
para ir para outras funções. Como eu era o presidente da distrital (1991-1995) tive de assumir a responsabilidade da substituição.
Na altura os presidentes das distritais eram sempre os cabeças-de-lista às eleições legislativas. Foi outra coisa que nunca quis, recusei sempre ser deputado. Tenho uma ideia da política um pouco esquizofrénica ou chamem-lhe antiquada. Entendo que quem vai para a política deve ter vida própria, deve ter uma forma de estar independente, de não necessitar da política para decidir com a sua livre consciência e os seus pensamentos. Os partidos, já desde 1995, foram afunilando a liberdade de pensamento. Deixei de ser militante do PSD há uns anos, precisamente por causa disso.
Não se sentia bem no partido? O PSD, seja a nível nacional, distrital e mesmo local, pauta-se por um jogo de interesses, mas isto é transversal aos outros partidos. Pode aparecer a pessoa mais brilhante, mas se não tiver o saco de votos e tiver só o saco de ideias não vale nada no partido.
A extinção dos governos civis foi uma boa medida? Os governos civis tinham coisas boas e coisas más. Se acertassem com a pessoa certa o governador podia ser como um provedor do cidadão. Tentei fazer isso, que era perceber o que acontecia no distrito, em que era importante investir, até porque havia um desperdício grande de dinheiro, que ainda acontece, porque várias entidades públicas sobrepõem as suas acções e misturam-se de tal maneira que às vezes não apoiam ninguém e outras apoiam triplamente a mesma coisa. Neste momento não há ninguém no distrito com uma visão holística do que se passa e que possa informar o Governo. As associações também não conseguem chegar a determinados apoios, que podiam com o Governo Civil porque não têm lóbi suficiente para chegar a quem dá os apoios.
O governo civil também tinha a coordenação da protecção civil. É uma área que funciona melhor agora? Não negando as alterações climáticas e a desertificação cada vez que passa um Verão ouve-se falar mais em desorganização, ciúmes entre corporações…
A sua família teve uma empresa de construção que foi à falência. O que aconteceu? O mesmo que a todas as empresas de média dimensão no país. No distrito de Santarém praticamente não ficou nenhuma. Neste momento os donos de obra não arranjam empresas para construir porque houve uma política de destruição da construção civil em Portugal. Não há um sector que resista a um ciclo que seja feito de picos. As empresas dimensionam-se para um determinado volume de construção e de repente cai a pique durante anos e depois não lhes pagam, sobretudo as organizações públicas, o que é tenebroso.
Vai com frequência a Abrantes. A cidade ainda o surpreende? Pela negativa. Gostava de encontrar alguém que me dissesse onde é que posso beber um café. A grande maioria consegue ser mais idosos do que eu e os mais novos são alunos da minha mulher, não encontro o meio-termo.
Não encontra pessoas em Abrantes com quem conversar e debater ideias, é isso? Não. Talvez a culpa seja minha que não procuro nos sítios certos, mas também não tenho muito tempo. Nem é para debater ideias, pode ser para discutir um bom copo de vinho.
Mas até tem facilidade de falar com qualquer pessoa… Faço o possível por isso. Aliás, faço questão de cumprimentar e estabelecer mais relações com os pobres do que com os ricos. Os ricos às vezes são mais ocos. Falta-lhes qualquer coisa no coração e isso para mim é terrível. Gosto de me sentar nos meus momentos de lazer a discutir um bom vinho, uma boa refeição, um bom livro.
É do Benfica. É amigo de Luís Felipe Vieira? Está completamente excluída a hipótese de termos qualquer contacto em qualquer momento da vida. Nunca cheguei a ter, recusei-me sempre que me convidaram. Não é pelo senhor estar em desgraça agora, mas realmente aquilo é como tantos outros que andam aí. Foram criadas nos últimos 20 anos uma teia de interesses, geridas por pessoas, algumas que nem sequer estão em Portugal, ou seja, isso tem ramificações internacionais e que condicionam a vida no nosso país. Isso é muito preocupante.

Hoje parece que não se ouve falar tanto da Nersant

Quando era presidente da Nersant, na mesma altura em que foi governador civil, o tecido empresarial da região era mais forte? Os empresários ainda não tinham sofrido o grande embate da União Europeia. Algumas regras não eram muito favoráveis à competitividade. Os empresários recorreram à banca para fazer investimentos, com juros altíssimos. Em Minde, por exemplo, na altura entravam cinco mil pessoas para trabalhar nas fábricas. Muitas daquelas empresas endividaram-se e acabaram por falir.
Como é que vê a evolução e o papel que hoje tem a Nersant? José Eduardo Carvalho foi um extraordinário presidente da Nersant e consolidou tudo o que tinha sido iniciado. Os tempos mudam, as circunstâncias mudam. Hoje parece que não se ouve falar tanto na Nersant, mas poderá ser um problema de comunicação.

Hoje a ideia é desregular as profissões

É perito do Ministério Público de Lisboa na área dos acidentes de trabalho. Não o choca que morra tanta gente por falta de segurança? A sinistralidade é terrível. Muita dela nem sequer é participada e é dada como sendo uma outra coisa qualquer. Tenho muita pena da desarticulação, quase de propósito, dos vários governos, quer PSD, quer PS, que criaram em relação à Autoridade para as Condições de Trabalho. Sou amigo do Pedro Braz, colegas na ordem, convidei-o para estar comigo na minha equipa exactamente por isso porque ele é um auxílio precioso para o que nós fazemos. Sei que o Pedro tentou fazer um trabalho extraordinário quando foi inspector-geral e ganhou muitos inimigos à conta de ser honesto.
O seu trabalho é descobrir aqueles que escondem o acidente de trabalho? Tenho de descobrir, em função da legislação e das regras técnicas porque é que aconteceu o acidente. Descobrir quem é que foi responsável pelo que aconteceu. Produzo depois um parecer para se fazer a acusação e levar as pessoas a julgamento.
Como é que é possível esconder a morte de um operário? Há várias técnicas, mudam o cenário. Fui aprendendo com advogados. Nos últimos anos tenho a assistido a coisas do género: Ele estava ali, morreu ali a fazer aquilo, mas ninguém lhe tinha dado ordem para isso. Se não houver testemunhas a dizer que ele ia para ali, com ordem, ele suicidou-se. Esse é um dos truques.
Mas também pode haver irresponsabilidade do trabalhador… É mais difícil porque a legislação aperta mais e obriga a um determinado tipo de formações, está tudo muito evoluído nessa matéria. Mesmo nós, na Ordem dos Engenheiros, temos tomado acções disciplinares contra engenheiros, mas temos tentado algo inovador que é pedagogia. Vamos lançar uma campanha sobre qual é a postura de um engenheiro. Sabem que há determinadas legislações que não são dadas nas universidades? Se eu chegar ao Politécnico de Tomar e falar de qualquer legislação que se aplica a qualquer engenheiro que se forma lá, ele não sabe.
Se calhar os professores também não sabem. Exactamente, começa logo por aí. Mas isto acontece em todos. Disse Tomar como poderia dizer outro qualquer. Eles não sabem. Não sabem os estatutos, não sabem que só podem praticar determinados actos.
Cada vez há engenheiros menos preparados. Hoje a teoria liberal, que está mesmo no PS, é a de que o mercado escolherá. Vamos meter toda a gente a poder fazer qualquer coisa. Se me apetecer agora passo a ser jornalista, sem carteira profissional, sem nada, vocês passam a ser médicos ou engenheiros e depois o mercado escolherá.
Mas são profissões reguladas… São, mas a ideia é desregulá-las. A ideia agora é desregular todas as profissões.
Isso dá mais poder ao capital, não é? Claro. O que é espantoso é que mesmo os partidos de esquerda e até os de extrema-direita então a embarcar nisto, com uma ligeireza fantástica. Nós que tínhamos uma reputação inatacável na engenharia, hoje em dia já não é assim.
As ordens profissionais têm aqui um papel importante… Neste momento temos um caso único no mundo. Somos a única profissão que tem duas ordens, a Ordem dos Engenheiros e a Ordem dos Engenheiros Técnicos, porque no tempo do primeiro–ministro José Sócrates tiveram uma ideia para satisfazer as suas necessidades. Apresentaram aquela coisa, que ninguém deu por isso e passou a haver mais uma ordem. O engenheiro sénior necessitou de 15 anos de experiência, o especialista tem de ser reconhecido pelo colégio de especialistas, tem de ser votado, tem de ser aprovado. Já um engenheiro técnico basta ter 13 anos de experiência em qualquer coisa, nem que seja só em vivendas.
Quando o seu avô fundou uma empresa de construção havia mais acidentes…
Na altura, nos anos 60, era normal haver muita morte. Apesar de tudo o regime fascista foi o último que publicou legislação destinada a proteger os trabalhadores dos acidentes de trabalho. Foi o decreto-lei de 1958. Depois disso só aparece legislação sobre a construção.

“Hoje nascem na política para a política”

Qual é a sua relação com os políticos da sua altura? O Miguel Relvas, o Mira Amaral? O Mira Amaral encontro-o várias vezes na Ordem dos Engenheiros. Ele era presidente da mesa da assembleia-geral da Região Sul, eu era do conselho fiscal, agora sou do conselho disciplinar. Com o Relvas de vez em quando troco mensagens.
O Relvas enriqueceu, o Mira Amaral sempre foi um homem rico… Sou rico em amigos, mas vivo muito confortavelmente. Quando se está nestes postos, director de multinacionais, não enriquece, mas vive-se muito bem. Também conheço pessoas que vivem muito bem, trabalham muito bem e estão completamente depenadas. Depende muito como gerimos a nossa vida. Acho que deveríamos gerir essencialmente para sermos bons seres humanos e sermos felizes e por fazermos bem aos outros.
Sabe os nomes dos deputados do distrito? Não, não sei (risos).
Nem está interessado em saber ou não precisa deles? Nem sequer tenho grande interesse em conhecer, muito sinceramente. Se me tivesse aparecido uma ideia de qualquer um deles, se calhar eu era capaz de já ter tentado marcar um encontro para discutirmos qualquer coisa. Antigamente havia deputados que tinham vida própria, tinham já uma carreira feita, eram pessoas com importância na comunidade, sabiam bem do que estavam a falar. Hoje nascem na política para a política. A profissão é a política. Hoje temos casos em que eles ficam quase sem-abrigo quando saem.

Aeroporto em Santarém pode ser plataforma de Singapura na Europa

Acredita que a região de Santarém pode ter um aeroporto? Ainda há tempos ouvi um político local dizer qualquer coisa sobre transformar a pista militar de Tancos em aeroporto. Juro que ia morrendo a rir. As pessoas não têm noção. Tenho especialização de aeródromos e tenho bem a noção do que implica o aeroporto. Toda a logística. E a ligação a Lisboa? Faz-se como?
Esse é também uma das questões desta ideia do aeroporto em Santarém. Como é que se levam as pessoas até Lisboa e a quantidade de terrenos que têm de comprar? Eles nem são capazes de acabar a Linha do Norte (risos). Há quantos anos andam a fazer obras na Linha do Norte? Não são capazes de fazer e terminar passagens de nível. Como é que querem fazer isso?
Nesta nova proposta de aeroporto parece haver alguma consistência dos privados. Acredito que possa ter a ver com a Aeroportos de Singapura, que é um monstro, porque é a plataforma de toda a Ásia, e queriam fazer em Portugal, em Santarém, a plataforma deles para toda a Europa e para a América do Norte.
Isso é viável? O mundo vai mudar. Com estas coisas todas da pandemia, da guerra da Ucrânia, das questões da China já não consigo equacionar como estaremos daqui a 10 anos. Em três, quatro anos a nossa realidade é totalmente diferente. Mas gostaria que o distrito de Santarém perceba a mudança e antecipe a mudança.

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