Entrevista | 04-10-2022 15:00

A vida da professora Natália Cardoso deu um livro

A vida da professora Natália Cardoso deu um livro

Antiga professora de Educação Visual e Geometria Descritiva em Tomar lançou o seu livro de memórias. Natália Cardoso deixou o seu legado na Escola Secundária Santa Maria do Olival, o antigo liceu, que comemora este ano o 50.º aniversário. Em entrevista a O MIRANTE a autora de “Geometria Descritiva em Saltos Altos”, natural de Espite, Ourém, abre o coração e conta a história da sua vida.

“Foi bonita a festa, pá”, começa assim a canção Tanto Mar, de Chico Buarque, em homenagem ao 25 de Abril português. E foi bonita a festa na Biblioteca Municipal de Tomar, onde Natália Cardoso apresentou a sua estreia na escrita, com o livro auto-biográfico “Geometria Descritiva em Saltos Altos”, perante um auditório lotado. Pelo palco desfilaram antigos alunos e colegas com canções e sessões de leitura.
“Enquanto professora ia juntando tudo o que os alunos me ofereciam. Desenhos, caricaturas… Sendo eu professora de artes incentivavam-se eles próprios. Como eu tinha uma forma sui generis de ensinar, eles aproveitavam-se disso e fui recolhendo esses materiais ao longo dos anos. E ia dizendo: ‘qualquer dia escrevo um livro…’ Mas isto há muitos anos. Dizia que seria quando me reformasse”, conta a professora, confessando que foi a pandemia que a fez avançar: “Tive de limpar a casa durante o confinamento, como toda a gente fez. Como já não tinha mais nada para fazer a coisa foi-se processando. Escrevia quando calhava e sempre no computador. Juntei os papéis todos num saco. Não tinha nenhum diário de memórias, foi tudo de cabeça”, revela.
Voltando atrás, Natália Cardoso, após um início de adolescência onde aprendeu acordeão e tocava em bailaricos nos arredores de Tomar, foi para Lisboa estudar Belas Artes. “Sim, mas vinha cá. A Lídia Jorge era minha vizinha, na altura em que ela deu aqui aulas. E continuei a fazer os bailaricos quando vinha”, recorda, prosseguindo: “Entretanto casei, fui para a Guiné-Bissau e aquilo da música perdeu-se. Interrompi o curso também. Deu-me na veneta e lá fui”, conta a O MIRANTE a antiga professora. “Uma semana depois de casar estava na Guiné-Bissau porque o meu marido era militar. Uma menina das Belas Artes, que já naquela altura era diferente… Mete-se na Guiné. Isso é outra história. Aliás, sou uma das personagens fictícias de um livro da Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios. Eu e ela”, revela a autora.
Olhando para o sistema educativo de hoje Natália Cardoso diz que nem precisa de recuar à miúda que veio da Guiné para fazer comparações. “Basta-me ir 15 anos atrás. O ensino hoje é muito, muito diferente. Se hoje fosse professora não havia apagadores voadores nem nada parecido…”, fazendo referência a uma das suas imagens de marca enquanto docente. No entanto, apesar de irreverente não teve qualquer problema com os alunos. “Nunca expulsei ninguém de uma sala de aula. Não tive grandes atritos e se por acaso o aluno me provocava tentava e conseguia dar a volta. Quando via que havia ali qualquer problema dizia ao aluno para ir contar os degraus até à porta de entrada do pavilhão e depois para contar outra vez para cima porque dei sempre aulas de porta aberta. Tive até uma aluna, que apareceu na apresentação do livro, que estava sempre à frente e que dizia que precisava de uma mantinha para proteger as pernas”, diz, entre risos.
Aposentou-se em 2012 mas não deixou de trabalhar. “Não parei de ensinar. Ainda continuo a dar explicações de Geometria Descritiva, online e presencialmente em Lisboa. Quando veio a pandemia tive de aprender a lidar com o computador para dar as aulas online. E desenrasco-me!”, afirma, orgulhosa.

Faço muita publicidade a Tomar
Apesar de viver em Lisboa e de ter nascido no concelho de Ourém, Tomar é a cidade que sente como sua. “Venho com muita regularidade a Tomar, sempre que há festa. Adoro a minha cidade e faço muita publicidade a Tomar. Gosto da cidade em si, da beleza do rio Nabão e da maneira como sou recebida e tratada”. Apontando depois os aspectos negativos: “Se se faz é porque não se devia fazer. Se não se faz é porque deveria ser feito”.
E prossegue: “As pessoas queixam-se de que não existem actividades na cidade, mas discordo. Há tanta coisa. Neste momento, não é estar a ser simpática, mas existe muita oferta cultural. Não é só abrir sapatarias… O aspecto material também é bom, para o dinheiro andar, para os comerciantes, mas Tomar tem neste momento muita oferta de cultura”.
No entanto, nem sempre tudo foram rosas: “Nos anos 70 havia a diferença entre a designação tomarenses e ‘tomarestes’. Tomarenses eram os naturais e os ‘tomarestes’ eram os que vinham de fora. E os de cá é que eram os ‘melhores da rua deles’, os ‘tomarestes’ nem pensar”, lembra Natália Cardoso, que se mudou para a cidade do Nabão “para fazer a quarta classe”. “Morava na rua da estação dos caminhos-de-ferro, que não tinha nada a ver com a rua que é hoje. Chamavam-lhe o Bairro da Champigni…”.
E o futuro? Mais livros? “Para já, não. Consegui concretizar o projecto que tinha há muitos anos. Estou feliz da vida, como disse na apresentação. Consegui-o com a ajuda de todos os meus alunos espalhados pelo mundo”, admite, focando-se agora finalmente no que mais gosta, as belas artes: “Se calhar vou-me virar para a minha área. Aguarela e azulejo. Já fiz uma exposição há uns anos, na Casa Vieira Guimarães e fiz outra na Biblioteca. Temos um tema tão bonito, que quero explorar, que são os Tabuleiros. Já participei seis vezes na festa”.

Uma acordeonista que não parou de aprender música

“O meu pai tocava realejo e eu tinha para aí uns 12 anitos quando ele decidiu que eu aprendesse acordeão. Fui ter aulas com o senhor Chico, da Casa Cuco, um homem que não sabia ler nem escrever”, conta a antiga professora do “Liceu” de Tomar. “É então que o senhor Cardoso me compra um Honner, um acordeão pequenino. Fui aprendendo porque tenho bom ouvido e o meu pai decide comprar-me um acordeão maior. Um Paolo Soprani à quarta voz”, reaviva. “Até que me convidaram para começar nas festas. Teria uns 13, 14 anos. Aceitei. Os bailaricos começavam às 21h00 e terminavam à meia-noite. E assim comecei a tocar ao vivo nos arredores de Tomar”, conta, prosseguindo com orgulho: “Tocava e cantava ao mesmo tempo. E tinha uma procura que faz favor… Chegava a fazer casamentos no sábado e no domingo e ganhava muito dinheiro! Então no Verão… Tinha de dizer não muitas vezes.” Não deixou de aprender música, até aos dias de hoje. “Quando vim da Guiné fui para a Gualdim Pais ter aulas. Continuei depois de me reformar com o professor Bruno Gomes, que é hoje o presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere”.

A experiência da Guiné-Bissau e o 25 de Abril

Ainda catraia, como a própria diz, largou tudo por amor e rumou até Bissau. “Fui para lá dar aulas, o meu marido era oficial graduado da Academia e arranjou-me lá um lugar nas escolas. Recebia muitos telefonemas de boas-vindas das senhoras “capitoas” e “coronelas” que lá estavam. Tinham empregados para tudo e mais alguma coisa, não faziam nada. Nunca fui “capitoa” nem “coronela”, afirma sem papas na língua. “Dava aulas a miúdos mais velhos do que eu, desenho de agricultura, desenho de máquinas, desenho de bordados… Chegava a ter 50 alunos dentro da sala de aula. Ganhei ali um certo traquejo. E então dá-se o 25 de Abril”, um momento que ditou o seu regresso a Portugal.
“Quando o 25 de Abril fez 40 anos fui fazer o meu depoimento ao Quartel do Carmo. Por ser mulher, ter sido esposa de um militar… O que é que me aconteceu quando se deu a revolução? Ia a caminho da escola e há um colega meu, o Chauky Danif, filho de mãe guineense e pai libanês, que era sub-alterno do meu marido, que me diz: ‘Ó Natália, volta para trás, houve uma revolução em Portugal.’ Eu sabia lá o que era a revolução. E continuei o caminho para a escola…”.

“Tenho alunos que não percebem os enunciados”

Continuando a dar aulas Natália Cardoso considera muito difícil incentivar os jovens à leitura. “Mas é necessário”, considera, dando um exemplo: “Na minha disciplina tenho alunos que não percebem os enunciados. E porquê? Porque não sabem ler. E porque é que não sabem ler? Porque não lêem. É fundamental saber ler”, diz a autora de “Geometria Descritiva em Saltos Altos”, sem saber a solução.

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