Entrevista | 05-10-2022 07:00

“Tive de pedir autorização ao meu general para casar”

Coronel Correia Bernardo, agora aposentado, ajudou a planear o golpe militar de 25 de Abril de 1974

Joaquim Correia Bernardo ajudou a planear o golpe militar em 25 de Abril de 1974 que levou à queda do antigo regime. Serviu na guerra colonial, onde sofreu ferimentos graves, foi amigo e camarada de armas de Salgueiro Maia, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, e continua a intervir na comunidade. Diz que o espírito da Revolução dos Cravos deve ser lembrado todos os dias sobretudo aos jovens que não sabem o que é viver em ditadura. Actualmente, o coronel aposentado integra a comissão para instalação do Museu de Abril e dos Valores Universais em Santarém. Uma conversa a propósito do Dia Internacional da Democracia, que se celebrou este mês.

Qual a sua perspectiva sobre o estado da democracia? Sou positivista e creio que já não será no meu tempo que seremos derrotados. Acredito muito no ser humano e acredito que as democracias se vão manter, embora existam estas ameaças extremistas na Europa. Não me revejo, de maneira nenhuma, no tipo de democracias como as da América Latina ou África, mas espero que todos esses locais reúnam esforços e consigam acompanhar a evolução do mundo. Fiquei muito satisfeito com o facto de as eleições em Angola terem corrido bastante bem. Ainda há esperança.
Qual o sentimento de alguém que fez parte do acontecimento que mudou o rumo político de Portugal? Houve uma transição muito grande após o 25 de Abril, que nem todos souberam acompanhar bem. Antes do 25 de Abril a situação do nosso país era muito má. Vivíamos com medo de falar, de existir. Havia a questão da guerra colonial, que trazia alguma ansiedade às famílias porque não sabiam se o marido, o filho ou o pai estavam vivos, mortos ou com alguma perna partida. Por exemplo: eu, para casar, tive de pedir autorização ao meu general. É ridículo actualmente, mas era a realidade que se vivia naquela altura. A minha mulher para viajar para outro país tinha de me pedir autorização por escrito para poder ir, isso é inacreditável hoje. As pessoas estavam desinteressadas porque não havia capacidade de decisão, algo que também se está a passar hoje. Intervimos pouco na política. Eu e a minha mulher só começámos a votar depois do 25 de Abril; antes disso não fazia sentido votar porque havia manipulação.
Que mudanças existiram na sua vida após o 25 de Abril? As mudanças foram tantas. A primeira foi, sem dúvida, a liberdade de podermos dizer que gostávamos de uma coisa e de que não gostávamos de outra. Depois, foi o fim da guerra colonial, que durou 13 anos; a liberdade de imprensa; o fim da censura; o ensino universal, para todas as pessoas; a emancipação da mulher, o reconhecimento do papel da mulher na sociedade e com acesso a todas as profissões. Uma mulher antes do 25 de Abril não podia ser polícia ou estar nas forças armadas, passámos a ter mulheres ministras e isso é fantástico.
O 25 de Abril deve ser relembrado todos os dias? Acho que deve ser lembrado sim, no sentido de que não foi assim há tanto tempo que aconteceu e que, se não soubermos usufruir da liberdade, podemos correr o risco de passar uma situação semelhante à que se passava. Admito que recordar o 25 de Abril tem essa preocupação, alertar as gerações mais novas que no tempo dos seus avós Portugal viveu em ditadura e que sempre foi mais fácil aceitar e alimentar um tipo de discurso populista do que o contrário.
A cantiga pode ser uma arma? A cantiga pode e é uma arma. Para mim, todas as baladas de Coimbra, naquela altura, eram cantigas com uma mensagem muito forte, marcavam-nos pela sua cadência e há uma figura, o Zeca Afonso, que é uma referência muito forte e evidente. Ele conseguia transmitir o estado de espírito do povo e o apelo a determinadas atitudes. O Zeca Afonso e os The Beatles foram quem mais marcou a minha geração. Ainda que haja a barreira do idioma, os jovens sentiam que pertenciam ao grupo dos The Beatles, sobretudo pela energia que transmitiam.
Na sua opinião o nosso país tem dado valor ao 25 de Abril? Foi dado, mas vai-se esfumando. As gerações têm uma perspectiva bastante diferente em relação à Revolução dos Cravos. Por um lado, ainda há uma geração que viveu o antes e o pós-25 de Abril; e outra que já nasceu a conhecer a democracia. No fundo, é importante ser preservada a memória e aquilo que foi conquistado, para não se perder o que se conquistou.
O que é para si mais importante na democracia? A responsabilidade do cidadão, sentir-se responsável em participar e interessar-se sobre os assuntos locais e nacionais. Como cidadão, se eu não compreender um determinado assunto, como o aborto ou a eutanásia, tenho o dever de me ir informar sobre ele ou, no caso de ter de haver um referendo sobre estes assuntos, se estiver dividido entre o sim ou não, vou votar em branco. Não posso deixar de votar, o voto em branco também é um voto que tem significado.
Qual a importância de se assinalar o dia da democracia? Este dia tem de ser sempre assinalado e devia ser assinalado em todas as escolas, tal como acontece com o Dia da Árvore. Seria uma hora que se ganhava ao alertar os jovens e os menos jovens para a importância de se viver em democracia.
Acha que os movimentos extremistas têm conseguido juntar cada vez mais apoiantes? Os movimentos extremistas podem levar a regimes ditatoriais, de um lado e de outro, e isso acontece porque as coisas são feitas muito rápido não havendo um equilíbrio. Estes movimentos fazem com que as pessoas deixem de pensar, questionar e de terem uma posição na sociedade.

“Santarém está parada há uns anos”

Como surgiu a ideia do Museu de Abril e Valores Universais (MAVU) em Santarém? A ideia deste museu já surgiu há muito tempo, ainda quando o Salgueiro Maia era vivo. Quando em Santarém se assinalaram os 25 anos do 25 de Abril, nós, da comissão executiva, fizemos uma pequena exposição, mas queríamos mais, queríamos avançar com um museu. Nessa altura, a câmara também se mostrou interessada, mas disse-nos que não havia um espaço digno para o museu, resposta que já é habitual em diversos assuntos.
Entretanto as coisas evoluíram. Em 2015 voltámos a tocar no assunto com o presidente da câmara e houve condições para avançar e até Dezembro de 2018 reunimos com várias pessoas para construir o projecto do MAVU. Havia a ambição de, aquando dos 50 anos do 25 de Abril, as celebrações oficiais serem em Santarém e dar-se também a abertura do museu. Claramente que isso já não vai acontecer, será uma sorte se em 2024 for colocada a primeira pedra.
Do seu ponto de vista o que ainda falta fazer em Santarém a nível cultural? Santarém está parada há uns anos. Faltou pensar em Santarém, a nossa cidade é falsamente uma cidade agrícola. Há vida nas zonas periféricas, mas na cidade em si, não. Falta resolver problemas na cidade associadas à falta de vida no centro histórico, a nível dos jardins, mas não só. Santarém é a capital do gótico e só recentemente é que os monumentos e igrejas ficaram abertos sem necessidade de se fazer uma marcação prévia. É importante que os próprios escalabitanos questionem e dêem a sua opinião sobre aquilo que gostariam de ter ou não ter na sua cidade.
O que faz actualmente? Depois de me reformar de oficial, o meu dia-a-dia passou a ser muito mais parado. Fui fazer voluntariado para a Santa Casa da Misericórdia de Santarém, durante 15 anos, enquanto membro da mesa administrativa, ocupando-me das áreas da juventude e do património cultural e também ajudei no Lar dos Rapazes, onde fiz algumas amizades. Depois de 2010, ano em que saí da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, comecei a dedicar mais tempo aos meus quatro netos, Diogo, Inês, Rita e Alice, contando-lhes várias histórias, não só de livros, mas da minha vida.

O plano B do 25 de Abril que não foi preciso activar

O então jovem capitão Correia Bernardo idealizou um plano B, caso as coisas corressem mal na revolução de 25 de Abril de 1974: “Nunca tínhamos feito uma revolução, nem sabíamos como se faria uma, não tinha a menor ideia. Quando pensámos em derrubar o Governo, caso as coisas não corressem bem, Santarém estava pronta para defender as unidades militares que tinham ido para Lisboa. A nossa cidade em termos militares é muito boa, a começar pelo planalto, com um domínio muito forte sobre a lezíria. Criámos vários pontos de defesa da cidade, nomeadamente na Rafoa, no descampado que existia onde actualmente é o Santarém Hotel, na zona do cemitério, nas Portas do Sol, em São Bento e na Escola Prática. Havia uma segunda parte: Precisávamos de civis que estivessem ao nosso lado, a dar apoio logístico a nível alimentar e de apoio na gestão das pessoas e eu tinha elaborado uma lista de cerca de 40 pessoas da minha confiança que seriam chamadas em caso de necessidade. Felizmente, não houve necessidade de colocar em prática este plano B, o 25 de Abril já estava ganho!”.

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