Jorge Lacão: à minha maneira fui um cavaleiro solitário na política
Jorge Lacão é uma figura incontornável da vida política portuguesa dos últimos 40 anos. Esta conversa com O MIRANTE não pretende fazer a história da sua vida pessoal e política, mas até certo ponto quase que abordamos as questões mais pertinentes que marcaram o seu percurso, incluindo situações imprevistas que nunca foram nem são do conhecimento público. Se o título de uma entrevista pode definir a importância do trabalho editorial, fica desde já o aviso: o desabafo foi registado no caderno do jornalista numa altura em que Jorge Lacão pediu para desligar o gravador e contar dois episódios dramáticos da sua vida, a meio de duas passagens por dois governos como ministro e como secretário de Estado, que nunca foram do conhecimento público, nem sequer dos seus colegas de governação.
O encontro com Jorge Lacão decorreu em Alfragide, numa esplanada perto de sua casa, e não teve perguntas sem resposta nem desvios ao essencial das questões. Nesta conversa há matéria de sobra para avaliar o trabalho político daquele que foi, até hoje, um dos deputados do PS que esteve mais anos a representar o partido na Assembleia da República assumindo cargos que fizeram dele uma figura mediática e, muitas vezes, controversa. Reformou-se recentemente, para surpresa dos seus camaradas. Nesta conversa não faltam reflexões que explicam a sua longevidade na política portuguesa, assim como a assumpção de algumas derrotas que considera serem culpa de uma certa hipocrisia que continua a minar os principais dirigentes dos dois partidos mais importantes da democracia portuguesa.
O país conhece bem o Jorge Lacão das televisões e dos debates políticos, mas poucos portugueses sabem de si e da sua vida; se tem filhos, se é casado, se mora num palacete, que carro tem na garagem, se vive à grande e à francesa como a maioria dos políticos que enriqueceram depois de passarem pelos governos. Quase todos se deixaram fotografar em casa, na sala de estar, com as mulheres e os filhos. Nunca o vi nas revistas cor-de-rosa…
Em certa ocasião, era eu presidente do grupo parlamentar do PS, e o presidente do grupo parlamentar do PSD era Marques Mendes, apareceu uma revista a convidar-nos para darmos uma entrevista na intimidade, em casa, com os filhos, fotografando o clima doméstico. Marques Mendes aceitou e fez a entrevista. Eu não aceitei e justifiquei-me e propus que a entrevista fosse no meu gabinete de trabalho. Não aceitaram, não era isso que queriam. De facto não dei a entrevista como eles queriam. Pouco tempo depois, num jornal em sintonia com a revista em causa, sai uma notícia a dizer que eu tinha ficado roído de inveja ao ler a matéria da entrevista dada pelo doutor Marques Mendes, e que inclusive tinha feito todas as diligências possíveis para convencer a direcção da revista a entrevistar-me também a mim, mas que uma entrevista daquelas não era para todos. Aí tem uma história que tem a sua singularidade, que responde de alguma maneira à pergunta que me fez. Realmente sempre entendi que se um político quiser preservar a sua respeitabilidade pública, não tem de esconder a dimensão da sua vida privada que tenha impacto público. Refiro-me particularmente aos aspectos exigíveis da transparência de vida económica e financeira, mas relativamente a outros aspectos da sua vida pessoal e familiar, entendo que tem todo o direito em reservar-se; e eu sempre fiz isso em todo o meu percurso político.
Tem dois filhos. É casado….
Sou divorciado. Tenho uma companheira com quem vivo em regime de união de facto há vários anos. Tenho dois filhos. Curiosamente, um deles, só depois de eu ter saído da vida política activa é que está agora como adjunto de um membro do Governo, mas por mérito próprio. Foi o melhor aluno do curso de Direito do seu ano. Tem 30 anos. Estava a trabalhar num dos maiores gabinetes de advocacia de Lisboa, onde se destacava pela sua competência no plano jurídico. Orgulho–me muito disso e orgulho-me de nunca ter usado qualquer prerrogativa da minha vida pública para influenciar ou sequer valorizar a carreira dos meus filhos. O outro meu filho é mais velho, tem 33 anos, é engenheiro e é quadro da Nokia.
A sua companheira é da área política?
É intérprete de língua gestual.
A sua saída da vida pública estava planeada ou não considera que saiu da vida pública?
Considero que saí da vida pública. Não abdico das minhas responsabilidades como cidadão. Seria impensável depois do percurso político que tive, mas foi uma decisão que de alguma forma surpreendeu os meus pares. É mais fácil entrar na política do que saber sair. E eu sempre entendi que devia sair pelo meu pé e não empurrado. Foi assim que surpreendi o meu próprio grupo parlamentar no dia em que os informei que não voltarei a ser candidato a deputado.
Desse longo percurso deve haver muitas histórias para contar…
Tenho uma história para contar que merece ficar registada: quando era presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista, tinha 40 anos, recebi o embaixador da China. Estava no meu gabinete quando a minha secretária informou que o embaixador tinha acabado de chegar. Abri-lhe a porta e, como manda o protocolo, convidei-o a entrar e depois a sentar-se. Recebi como resposta um não porque o senhor disse que só se sentava quando entrasse o presidente do grupo parlamentar. E eu disse, sou eu senhor embaixador. O senhor olhou para mim, mirou-me de alto a baixo e respondeu: não, o senhor não pode ser, não tem idade para isso. Aproveitei este episódio passado há muitos anos para agora dizer aos meus camaradas que não queria que me acontecesse uma situação oposta: que alguém me abrisse a porta do gabinete e me dissesse; o que é que estás ainda aqui a fazer com a tua idade?
Normalmente os políticos que foram importantes retiram-se um pouco mais cedo, para ainda terem tempo de trabalhar para o sector privado e facturar o que não puderam ganhar enquanto políticos. Ainda vai a tempo?
Estou naquilo que poderei chamar o meu ano sabático. Levei uma vida muito intensa. Fui deputado por muitos anos. Fui mesmo das pessoas que desenvolveu uma actividade parlamentar com maior longevidade. Entrei para o Parlamento em 1982. Na maior parte desse tempo fui deputado eleito pelo círculo eleitoral de Santarém até 2009 e depois por Lisboa. Fui cabeça-de-lista sucessivamente. Encontrei vários cabeças-de-lista, do principal partido político rival, com grande implantação local, desde Miguel Relvas, Mira Amaral, Pacheco Pereira e Nuno Morais Sarmento, e a todos eles ganhei na disputa eleitoral no distrito que me escolheu como cabeça-de-lista do PS. Isso dava-me uma responsabilidade particular. Era por isso um político activo não apenas no plano nacional, mas igualmente no plano distrital assumindo essa responsabilidade. E era também presidente da Assembleia Municipal de Abrantes. Isto para lhe dizer que preciso de tempo para mim, até por questões pessoais que não vêm ao caso, nomeadamente de saúde, e tenho uma pretensão agora: não é a de me envolver em actividades para ganhar dinheiro, mas a de dispor de tempo para organizar todo o acervo dos meus documentos, dos meus registos memorialistas.
Quer dizer que não vai trabalhar como consultor? Chega-lhe a reforma?
Não está nos meus horizontes. Fui professor universitário durante muitos anos e também desenvolvi alguma actividade na advocacia.
Mas por períodos muito curtos?
A advocacia durante muito pouco tempo devido às limitações temporais. Como professor durante cerca de 20 anos. O que significa que tive de facto uma vida muito estimulante. Agora acho que me posso dar direito a uma pausa e dedicar-me à vida familiar e aos projectos pessoais.
Não quer ser rico ou já é um homem rico?
Sou uma pessoa remediada, tenho o suficiente para ter uma vida tranquila. Não tenho a ambição de ser rico, aliás, nunca tive.
Está com problemas de saúde, foi por isso que se reformou?
Estou numa vida pessoal de tranquilidade, mas com o cuidado de quem teve alguns problemas complicados. Como tal, tenho de ter cuidado se quero ambicionar ter mais alguns anos de vida pela frente.
Como nunca escreveu um livro vai ser agora que vai virar escritor de memórias?
Tenho essa ambição. Tenho imensa coisa escrita, mas muito dispersa. A coisa mais parecida com um livro que escrevi foi uma Constituição anotada, na altura de uma revisão constitucional, em 1997, que eu de alguma maneira dirigi. É uma história ainda por contar porque até o que sabe dessa revisão constitucional está muito mal contada. Mas fui director de uma revista da Fundação Antero de Quental da qual fui presidente durante muitos anos. Escrevi muita coisa também do ponto de vista académico. Todo esse material está disperso, incluindo o acervo das intervenções que fiz no Parlamento, algumas delas de fundo, e não meramente circunstanciais. É um acervo enorme de coisas que enche muitos dossiês.
Teve o cuidado de guardar tudo?
Sim. Quando revisito certas intervenções acho que valerá a pena registar para a história alguns momentos. Alguns textos são ainda muito actuais.
“Mário Soares foi o meu mestre na política”
Quem foi o seu mestre na política?
Sem dúvida Mário Soares. De maneira completamente inequívoca o digo. Tive o gosto e até a honra de ter feito um percurso que me conduziu a chefe de gabinete de Mário Soares. Tivemos uma enorme amizade a partir do momento em que travámos conhecimento, uma amizade que durou para a vida. Curiosamente, uma amizade que nunca impediu que eu mesmo divergisse dele em termos políticos, até publicamente. Quando isto acontecia a nossa amizade não ficava em causa.
Mário Soares era um homem cruel nos relacionamentos quando lhe faziam frente?
Pelo contrário. O doutor Soares tinha algum apreço por mim ao ponto de, em certos momentos, me ter convidado para trabalhar mais próximo dele. A partir daí, quando estivemos mais próximos as circunstâncias políticas afastaram-nos mais, ele foi para Presidente da República e eu fiquei nas funções políticas que tinha no PS. Continuámos a manter o nosso relacionamento, mas cada um em lugares bastante diferenciados. Muitas vezes assumi posições de controvérsia e de divergência em relação às próprias lideranças do meu partido, em certos momentos históricos que não deixaram de ser difíceis, quer pela conjuntura política que vivíamos, quer às vezes até para mim próprio. Tenho aqui um livro que só fala de Mário Soares organizado por mim e que dá ideia de como começaram os trabalhos de proximidade entre nós.
Organizou-lhe a maior parte da agenda durante muitos anos e também alguns textos?
Esse livro tem a curiosidade de ter sido construído com textos de algumas personalidades do jornalismo da época, bastante reputados. É um documento histórico.
Já que estamos a falar de jornalistas: José António Saraiva, director do Expresso e mais tarde de O Sol, contou numa crónica que foi entrevistar Mário Soares a sua casa e quem lhe abriu a porta foi Jorge Lacão. A forma como ele contou o episódio não abonava nada a seu favor. Deu a ideia que o Jorge Lacão era uma espécie de serviçal de Mário Soares.
Esse senhor que refere, muitos factos o demonstram, caracterizou-se muitas vezes por uma arrogância e até por um insulto a pessoas de uma maneira completamente desqualificante para o próprio. O facto é tão simples como este. Disse-lhe há bocadinho que durante um período fui chefe de gabinete de Mário Soares. Trabalhávamos muito em conjunto. O doutor Soares da parte da manhã gostava de trabalhar em casa. Como chefe de gabinete só podia estar em casa dele. O facto de ter sido eu a abrir a porta permite alguma ilação de natureza moral acerca da personagem que abriu a porta? Só por muita má-fé…
Mário Soares era um homem inteligente, genial a fazer política, mas no seu reduto devia ser difícil de aturar.
Era um homem extraordinariamente culto, que tinha uma relação intensa com o seu tempo, toda a plêiade de escritores e pintores portugueses eram das suas relações pessoais. E não só em Portugal. Tinha relações com os maiores líderes políticos da época, tanto na Europa como no continente americano, relações que fizeram dele uma das personagens mais relevantes da Internacional Socialista. Claro que Mário Soares também tinha os seus momentos maus, como qualquer líder político, mas tinha uma característica: quando isso lhe passava era o primeiro a reconciliar-se com a pessoa com quem eventualmente tinha tido um momento menos agradável.
Consigo foi sempre cordial?
Sempre. Na altura em que fui para deputado pela primeira vez, em 1982, na lista do PS pelo círculo eleitoral de Santarém, era chefe de gabinete do doutor Soares. Tinha 29 anos. Entrei no gabinete dele e disse-lhe: Ó Mário aceitei candidatar-me a deputado. Olhou-me por cima dos óculos, interrompeu o que estava a fazer e exclamou: “Isso é que é um atrevimento. Então estás tão ciente da protecção do padrinho que já nem vens pedir, vens informar”. Entre sorrisos, disse-lhe que a única coisa que lhe pedia era que não se metesse porque eu tinha sido escolhido pelos militantes do PS para cabeça-de-lista por Santarém. A conversa acabou com ele a reafirmar o desejo que eu continuasse e eu a dizer-lhe que precisava de seguir a minha vida política e que estava na altura de fazer as minhas escolhas.
O senhor é a cara de um partido que teve um secretário-geral e um primeiro-ministro que escreveu um livro e que mandou os amigos ricos comprar todos os exemplares para o livro ter várias reimpressões e ele aparecer como a revelação do ano. Como é que é possível haver na política, nomeadamente num partido como o PS, um Mário Soares e um José Sócrates?
Não sou a cara do partido onde isso aconteceu. Sou apenas uma pessoa desse partido que partilha de uma grande perplexidade sobre muitos aspectos, entre os quais o que acabou de referir em relação à pessoa que acabou de mencionar. Permita-me que diga só duas coisas, e por pudor não quero dizer mais. A primeira: quando não conseguires dizer bem em público dos teus amigos não digas nada. A segunda: enquanto houver um processo judicial em curso, como todos os cidadãos portugueses, gostaria muito que esse processo chegasse ao fim e aclarasse definitivamente todas as dúvidas e perplexidades que continuam a existir por todas essas matérias que estão implícitas na sua pergunta.
Esmagadora maioria das pessoas que anda na política é séria
O PS é o partido mais endividado da democracia portuguesa. Segundo sei, há um senhor, chamado Luís Patrão, que comanda as contas do PS há uma eternidade. O PS não devia ser um exemplo nesse capítulo para que pudesse ter o respeito dos eleitores? Ou tem à mesma porque toda a gente acha normal os políticos serem uns malabaristas quando não uns gatunos?
Tenho que lhe dizer com muita veemência que acho que a esmagadora maioria das pessoas que desempenharam e desempenham funções políticas no nosso país são pessoas sérias. Ao longo do tempo bati-me pelos princípios da transparência da vida pública. Acabei, aliás, o meu desempenho político enquanto parlamentar como o presidente da comissão que trata da matéria de transparência. Honro-me de poder dizer, sem bazófias, que quando terminei o meu mandato e me despedi dos parlamentares boa parte despediu-se de mim de pé, e não apenas o meu grupo parlamentar, o que significa que pude granjear o reconhecimento e o respeito próprio de quem desempenhou, com probidade todos os cargos da sua vida pública. Quanto à forma como o PS gere as suas finanças nunca fiz parte dessa área de administração e não me sinto responsável por decisões tomadas nessa matéria e, sinceramente, não é dos temas que ocupem o meu espírito.
Há muita malandragem na forma como os partidos prestam contas. Uma vez que foi responsável por muitos anos pela comissão de ética na Assembleia da República não se sente derrotado?
Tenho de responder por mim próprio e ver-me ao espelho. Fui durante cerca de sete anos presidente de uma fundação que geriu uma parte significativa de um orçamento ligado à dinamização do poder local do nosso país, não houve um cêntimo de descontrolo nas finanças desse organismo. Pude sair dele tal como entrei, em condições de responder inteiramente pelas responsabilidades que desempenhei. Posso responder por mim não posso responder por mais ninguém. Dito isto sublinho: há órgãos de fiscalização que devem desempenhar plenamente as suas funções, nomeadamente no controlo das finanças dos partidos políticos.
Mas se pudesse intervinha mais, como é evidente. Só que não pode. O partido é uma máquina que pode esmagar qualquer outra pessoa que tenha intenção de corrigir seja o que for?
A vida dos partidos políticos é uma vida complexa, toda a gente sabe isso. Não alinho de maneira nenhuma numa espécie de campanha generalizada contra os partidos políticos porque ou se é democrata ou não; e se é democrata tem que compreender que os partidos políticos são essenciais à democracia. Mas se queremos contribuir para a revalorização da qualidade da vida política há algumas áreas onde considero que era importante intervir e era corajoso tomar posições, nomeadamente a reforma dos nossos sistemas eleitorais que tal como existem não concorrem francamente para esse objectivo. E aqui tem, já que queria uma opinião crítica da minha parte, uma matéria em relação à qual me bati muito, sempre com vista à possível reforma desses sistemas de representação. Disse a nível nacional, mas também poderia dizer o mesmo ao nível autárquico. Infelizmente são reformas que ainda não viram a luz do dia e que acho que tardam para a requalificação da nossa vida democrática.
Foi isso que disse no último fim–de-semana quando participou num seminário com autarcas do PS?
Não sabia que tinha conhecimento desta minha participação. Sim participei no fim-de-semana numa conferência da recém criada Academia do PS para o Poder Local, e pediram-me para tratar de um painel do enquadramento constitucional das autarquias. Tive ocasião de chamar a atenção para a importância que teria a reforma do nosso sistema de governo das autarquias locais, e devo dizer que tive um acolhimento praticamente unânime de todos aqueles que tiveram a paciência de me ouvir.
E foi crítico?
Naturalmente tive a ocasião de explanar as razões pelas quais essa mudança é exigível. Sim, nesse sentido sou crítico do sistema vigente.
Vai aproveitar o seu novo estatuto de senador e vai ser mais contundente? Vai ser mais à Mário Soares?
A necessidade da reforma do nosso sistema de representação democrática não vem de agora. Não falei disto depois de me ter aposentado. São reformas que foram estabelecidas na nossa Constituição, precisamente na revisão constitucional em que estive mais directamente e intensamente ligado. Vêm desde 1997. São objectivos que exigem um largo consenso entre PS e PSD. Podemos perguntar-nos porque é que os partidos maioritários resistem ao longo de ciclos diferenciados a que estas reformas se concretizem. As pessoas são unânimes em reconhecer a importância destas reformas, mas depois ao nível das cúpulas partidárias não há modo de se porem de acordo. Espero que não decidam tarde demais. Por mim sempre contribuí para essa evolução e disso dei provas durante todas as vezes que tive que assumir promessas eleitorais nomeadamente no distrito de Santarém ao nível autárquico.
O seu camarada Nelson Carvalho, quando foi presidente de Câmara de Abrantes, fez uma negociata vergonhosa em favor de um empresário manhoso; e depois ainda anunciou que ia trabalhar para ele já que tinha ficado sem emprego. A vida política portuguesa está cheia destes exemplos, de políticos que usaram e abusaram das fragilidades do sistema democrático.
Não me compete a mim fazer apreciações de casos concretos que presumo até que possam ter tido alguma avaliação do ponto de vista de investigação judiciária. Mas há uma coisa que retiro em termos gerais das suas considerações. Hoje há mais escrutínio sobre os políticos. Eu próprio, daqui a 3 anos, terei que voltar a fazer a minha declaração de rendimentos e património, exactamente para que se possa avaliar qual foi essa variação depois de ter deixado a vida política. Temos vindo a procurar aperfeiçoar cada vez mais essas regras e essas exigências. Estas medidas também resultaram do meu contributo enquanto parlamentar, portanto, sempre procurei que as instituições se fossem aperfeiçoando cada vez mais e que a experiência nos ensinasse a cuidar da democracia.
As reformas na Justiça do anterior Governo de António Costa foram muito criticadas por deixarem de fora o escrutínio sobre os autarcas. Concorda com as críticas?
Não. Neste caso não estou de acordo. Tive de facto alguns desentendimentos com as políticas de justiça em vários momentos. Até cheguei a escrever alguns artigos de opinião sobre as reformas da justiça e também aí creio que deixei o testemunho da exigência sobre o que considerava certo e o que considerava menos certo relativamente a estas matérias.
Isso dá um livro?
Não, pode dar um capítulo de um livro (risos).
Os nossos vizinhos espanhóis dizem que Portugal nunca vai sair da cepa torta enquanto os portugueses se continuarem a tratar como nos tempos de Salazar. Dou um exemplo que já ouvi gozado várias vezes: “como está senhor doutor?”, “passou bem senhor doutor?”, “dá licença senhor doutor?”. Revê-se neste tipo de comportamento?
Vou contar uma atitude que responde à sua pergunta: cada vez que assumia um cargo, qualquer papel que me era dirigido pelos serviços era sempre dirigido a sua excelência e a vossa excelência. Vezes sem conta chamava os colaboradores, ou as pessoas que na hierarquia da administração trabalhavam comigo, e dizia que queria ser tratado pelo cargo que ocupava. Dizia que era uma pessoa republicana, laica e modesta, e é assim que todos nós nos devíamos saber tratar uns aos outros. Muitas vezes levei este testemunho até ao limite da paciência, mas por mais que insistisse não consegui convencer muita gente para que a excelência desaparecesse do topo de cada ofício.
Deu tudo pela regionalização mas acabou vencido
Vê com bons olhos a possibilidade de a região de Santarém receber um aeroporto Internacional?
Não tenho opinião. Não tenho a presunção de saber dar opiniões pertinentes sobre todas as matérias. Como muita gente limito-me a esperar que a decisão chegue rapidamente.
Mas ter o Ribatejo…
Não vou cair no bairrismo de dizer porque é no Ribatejo é que está sempre certo. Não caio nessa.
Mas concorda que o país precisava de uma atitude política que rompesse com o passado; somos um país de lisboetas…
Olhe, sabe que está a falar com uma cara vencida? Aí tenho que reconhecer e dar a mão à palmatória. Vencida na tentativa da criação das regiões administrativas em Portugal. Bati-me arduamente por essa possibilidade. Infelizmente tivemos um referendo que deu um resultado negativo e a regionalização não se fez. Mas dei tudo o que podia ter dado para poder levar à frente esse objectivo que considero que é certo se for bem organizado e planeado. Hoje é mais difícil de concretizar do que no final do século passado se as forças políticas se tivessem entendido como acho que deviam.
O que é que falhou?
Muita coisa. Vou dizer uma coisa que é muito pouco ortodoxa nos tempos que correm. Boa parte destas reformas de que lhe falei, a reforma para a revisão do sistema eleitoral nacional, a reforma do sistema de governo das autarquias locais, a regionalização, poderiam ter ocorrido. Um entendimento entre PS e PSD, na altura em que o PSD era liderado por Marcelo Rebelo de Sousa, que infelizmente, do meu ponto de vista, para cada uma destas reformas resolveu pôr paus na engrenagem, no fundo dificultando, para não dizer mesmo impedindo, que cada uma delas tivesse concretização possível. Hoje estamos a pagar a factura desse imobilismo, mas cada um retirará daí as ilações que politicamente achar mais adequadas.
No seu livro vai escrever as peripécias nas subidas e descidas do Tejo na luta por esse Portugal diferente?
Recorda-se que por volta do ano de 1995 propus que se fizesse um pacto no distrito de Santarém que, na minha extrema ambição, falava até da navegabilidade do Rio Tejo? Fui muito criticado por isso. Poderíamos não ter alcançado a navegabilidade, e esse poderia ser um objectivo eventualmente demasiado utópico. Evidentemente quando falava de navegabilidade não falava de cruzeiros no Tejo, falava da possibilidade de o Tejo poder servir como meio de transportes fluvial para vários tipos de circulação de mercadorias ou turismo. Mas, dito isto, se esse tipo de entendimento pudesse ter sido feito, a possibilidade de combate pela regularização do Rio Tejo poderia ter avançado em melhores circunstâncias do que avançou. O que é que ainda assim conseguimos fazer? Avançar à época a Convenção para a regularização do caudal do Tejo com os espanhóis. Essa Convenção revela-se hoje insuficiente como, aliás, temos constatado. De então para cá não vi mais ninguém a trabalhar sobre o assunto.
É mais uma derrota da sua vida política …
Sim, mas nem tudo foram derrotas. Foram muitas as vitórias que se conseguiram para a valorização daquele território e muitas outras a que me orgulho de ter estado ligado e que marcaram muito a alteração qualitativa do nosso distrito.
Dá a cara por um novo referendo à Regionalização?
Naturalmente, mas para haver um novo referendo tem que haver um prévio consenso sobre o enquadramento legal da Regionalização. Não se pode fazer um referendo a perguntar se as pessoas querem a Regionalização em abstracto. Tem que ser em função de um modelo previamente estabelecido e é esse consenso que continua a fazer falta.
O que faz adivinhar que não há referendo tão depressa.
O que faz adivinhar que provavelmente não haverá referendo tão depressa.
Vamos continuar a viver num país cada vez mais litoralizado e centrado no Terreiro do Paço?
Esse é o preço que eventualmente teremos que continuar a pagar, embora o movimento para a descentralização com reforço de poderes das nossas autarquias seja muito positivo.
Não tem remorsos das viagens que não fez, dos filmes que não viu, dos livros que não leu por causa da vida política?
Falou-me há bocadinho da minha atitude de manter a distinção entre vida pública e vida privada, portanto não sabe muito bem o que fiz na minha vida privada. Se estivesse na minha casa veria as minhas estantes cheias de livros. Sou uma espécie de leitor compulsivo. Tenho que me deitar com um livro, ter um livro à cabeceira, e gosto de ler todos os géneros literários. Se tenho remorsos em alguns aspectos? Tenho. Os meus filhos de vez em quando lembram-me disso porque não acompanhei como devia o crescimento deles. Mas temos uma excelente relação afectiva, uma excelente relação de proximidade. Apesar de tudo não posso falar de remorsos.
Os seus filhos nunca lhe pediram nada, nunca precisaram de si para subirem na vida?
Os filhos precisam sempre dos estímulos dos pais, mesmo quando, na sua atitude psicológica mais irreverente, não querem assumir. Reafirmo o que já disse na nossa conversa, nada na vida profissional dos meus filhos ficou a dever-se à influência do pai.
“Fui sugado pela vida política”
Quem é o Homem da sua vida?
Na vida pública Mário Soares. Quanto às pessoas da minha pessoal peço licença para manter isso também sobre a reserva, como sempre fiz.
Nunca tremeu, no verdadeiro sentido da palavra, a discutir o país que se deixou enganar por pessoas com responsabilidades, que enriqueceram à custa da política?
Quem faz um percurso de 40 anos de vida pública, fá-lo tendo consciência de que é através do exemplo, através da atitude pessoal, que se pode contribuir para que a vida seja melhor à sua volta. Responsabilizo-me por mim, não me posso responsabilizar pelos outros. Foi assim que actuei, foi assim que sempre procedi.
Algum funcionário do BES lhe vendeu gato por lebre nos tempos em que tudo era permitido aos bancos?
A sua pergunta deixa-me perplexo.
Não é um dos milhares de cidadãos portugueses lesados do BES?
De todo, de todo. As minhas contas sempre foram e só foram na Caixa Geral de Depósitos.
E tirou-lhe o sono alguma vez viver num país que permite a alguns empresários roubarem as pessoas à descarada?
Houve muitas coisas que me surpreenderam ao longo da vida e realmente me deixaram perplexo. Para utilizar uma expressão sua prejudicaram tanta gente que nos deixaram de boca aberta. Sem dúvida que sim.
A política estragou-lhe uma vida profissional de professor ou de advogado, sente que podia ter feito outro caminho?
A política trocou-me algumas voltas, sem dúvida que sim. Fiz o curso de Direito em Coimbra, na minha juventude. Nessa altura, no tempo em que tirei o curso, ainda havia a figura do bacharelato, e fui o melhor aluno do curso. Depois fui sugado pela vida política. Ainda assim terminei o curso com uma média muito razoável para a época. A minha ambição nessa altura, ou melhor, a minha perspectiva nessa altura era seguir a carreira académica. A intensidade da vida política não permitiu. O secretário-geral do Partido Socialista na época, Jorge Sampaio, pediu-me para tomar conta do departamento autárquico do PS com toda a responsabilidade que isso tinha e que me levou à presidência da Fundação Antero de Quental.
Se não fosse a política tinha como viver da sua profissão?
Embora confesse que a política me trocou as voltas à vida, sempre me senti confortável no sentido em que se tivesse que deixar a política tinha uma profissão da qual podia viver.
O trabalho de advogado é muito mais lucrativo que o de político?
Fiz parte de uma geração para quem a política foi uma paixão. Assumo que as conjunturas políticas posteriores não proporcionam esse tipo de paixão tão integral à adesão à vida política como aconteceu comigo, como aconteceu com várias pessoas da minha geração. Foi o meu caso, que tem a sua singularidade.
O senhor é um homem de oratória fácil. Lembro-me de alguns dos seus discursos que enervavam os políticos da oposição. Herdou isso de alguém, considera-se um homem genial?
Recordo-me de no liceu liderar naturalmente a vida académica antes do 25 de Abril, de coordenador a atividade dos finalistas, desempenhar funções já bastante interessantes ao nível da imprensa, era correspondente em Abrantes do jornal República. Se tenho a palavra fácil? Eventualmente, sim, mas procurei sempre não ser demagógico e respeitar os meus adversários políticos. Não me lembro, na minha vida política, de ter tido relações ofensivas com os meus adversários políticos.
E a sua relação com os jornalistas foi sempre de político para jornalista?
Tive algumas amizades com profissionais do jornalismo. Nem sempre, para não dizer muitas vezes, o político fica satisfeito com a maneira como é tratado pelo jornalista. Mas você pode ser testemunha de que nunca tentei influenciar jornais e jornalistas.
Teve muitos anos de tarimba nessa relação difícil entre interesse político e interesse jornalístico…
Sim, vivi muitas coisas que considero profundamente injustas. Muitas vezes somos injustiçados, não compreendidos, e muitas vezes também apanhados na voragem cruzada das contradições políticas que uns e outros prosseguem cada um à sua maneira. Tudo isso faz parte, digamos, da sociedade aberta, pluralista e consequentemente contraditória em que vivemos. É preciso depois ter a pele dura para suportar tudo isso. O António Colaço, que trabalhou comigo muitos anos, tinha uma relação de grande afectividade com os jornalistas e pelo que sei era respeitado e sabia dar-se ao respeito.
A seguir a Mário Soares, António Costa é o melhor secretário-geral do PS de sempre? É o melhor primeiro-ministro de sempre?
É certamente aquele que tem tido mais êxito.
E só tem isso para dizer?
Só, só tenho isto para dizer.
Quando sai de Lisboa vai mais para Abrantes, mais para Portalegre ou mais para a praia?
Sou pouco de praia. Quando saio de Lisboa refugio-me mais no Alentejo. Sou alentejano de natureza e de nascença. Não sei se conhece essa realidade sobre mim…
Conheço. Por isso lhe perguntei sobre Portalegre.
Mas não é para Portalegre propriamente que vou. Aqui há tempos dei conta, e fiquei muito contente por as pessoas da minha aldeia terem feito este livro (mostra um livro que publica um perfil sobre todas as pessoas importantes de Alagoa) e terem encontrado aí um motivo para me homenagearem. Sou muito alentejano, gosto muito do Alentejo e é na minha aldeia que gosto de me refugiar.


