Entrevista | 16-11-2022 15:00

Rui Carvalho é um homem do associativismo que fez renascer o Teatro Clube Ribeirense

Rui Carvalho é um homem do associativismo que fez renascer o Teatro Clube Ribeirense
Rui Carvalho tomou a iniciativa de voltar a dar vida a uma associação com 151 anos

Rui Carvalho é um rosto conhecido em Santarém por ser comandante dos Bombeiros Voluntários há uma década. Agora está a fazer história por ter conseguido reerguer a centenária associação Teatro Clube Ribeirense, que está sem actividade há 15 anos. É responsável de oficinas da Super Bock há 30 anos e quer devolver à Ribeira de Santarém o dinamismo de outros tempos.

Rui Carvalho ganhou uma nova missão quando, há quatro anos, se mudou do planalto da cidade de Santarém para a Ribeira de Santarém. Todos os dias, sempre que saía de casa, batia com os olhos no imponente edifício do antigo Teatro Clube Ribeirense, caído em desgraça há cerca de 15 anos. “Custava-me ver um espaço que traz tão boas recordações à população da Ribeira a definhar. Andou meses a mexer comigo até que num jantar de família revelei que tinha intenção de o reabrir”. Assim foi: arregaçou as mangas, formou uma equipa de trabalho e a 7 de Maio assinou um compromisso de honra com a União de Freguesias da Cidade de Santarém, a fiel depositária das chaves, em como iria requalificar o imóvel e reactivar uma associação com 151 anos de história.
A vontade de fazer acontecer tem sido o combustível para depois do trabalho como responsável das oficinas da Super Bock - que por vezes implica viagens de ida e volta ao Porto - abrir a porta do Teatro Clube Ribeirense e deitar mãos à obra. Algumas das paredes já voltaram a ser brancas, há novo mobiliário e novo piso, e o entulho, mais concretamente quatro toneladas dele, já não faz parte do recheio do edifício. O maior desafio tem sido a remodelação do majestoso salão, que na sexta-feira, 11 de Novembro, vai acolher uma peça de tributo a Bernardo Santareno.
Rui Carvalho fala a quatro dias do esperado regresso do teatro à Ribeira de Santarém, a antiga freguesia que “foi rotulada como um lugar onde vivem pessoas más”. Um rótulo, diz sem rodeios, colado por “entidades com responsabilidades sobre a Ribeira e que se esqueceram dela”. No fundo, aquela associação e o edifício deixado cair em ruína são o reflexo de boa parte do casario do lugar que fica para lá da linha de comboio e para onde a cidade olha hoje com pouco entusiasmo. “Muitas dessas [ruínas] são camarárias e da junta, não podemos atribuir as culpas só ao cidadão comum. E esses até poderão ser os mais degradados”, diz, lamentando que para uma simples pintura exterior seja preciso apresentar um projecto de arquitectura.

São precisos mais e melhores incentivos para os bombeiros voluntários
O espírito de missão, a energia e a determinação contagiosa que transportou para este projecto são características se foram acentuando na última década, enquanto comandante dos Bombeiros Voluntários de Santarém. Porque “quando há regras e se está determinado tudo se faz”, mesmo nos momentos mais conturbados e difíceis como aquele que se vive na corporação que comanda que tem tido um volume de ocorrências anormal, desde que os Sapadores de Santarém estão a meio gás.
“Estão-se a começar a cansar e vamos começar a ter dificuldade em conseguir cativar estas pessoas, porque não podemos ter bombeiros dois ou mais dias a entrar ao piquete às 21h00, fazerem 12 ou 13 ocorrências por noite e irem trabalhar no dia seguinte sem ir à cama”, lamenta o comandante, o único do distrito que não recebe vencimento pelas funções e que defende mais e melhores incentivos para os bombeiros voluntários, quer da parte do Estado quer dos municípios.
Rui Carvalho é bombeiro desde os 15 anos. A entrada, conta, deveu-se ao fascínio e admiração com que olhava para o vizinho que saía de casa a correr para ir prestar socorro ou apagar um incêndio. Em quase quatro décadas de bombeiro voluntário as histórias e memórias perdem-se no tempo, mas há algumas que ficam: “da primeira que me marcou, claro que não me esqueço. Tinha 17 anos quando fui chamado para um embate frontal entre dois comboios; foi um grande acidente, morreu muita gente e andei a apanhar os restos mortais que estavam na linha”. Mas memórias felizes também as há, como aquelas que ganha em todos os jantares de Natal que juntam à mesa os operacionais, as suas famílias e todos aqueles que acolhem os seus filhos quando têm que saltar da cama e vestir a farda.
A conversa volta a ir parar ao Teatro e ao lugar que já lhe diz tanto que quem o ouve pensa que os seus 53 anos foram vividos na Ribeira de Santarém. “Tenho a convicção que vou trazer as pessoas do planalto cá abaixo e mostrar que é possível estar na Ribeira e viver na Ribeira com qualidade. O rótulo que ainda existe vai cair”. Ainda em gestão administrativa, a associação Teatro Clube Ribeirense vai realizar eleições para os órgãos sociais no primeiro trimestre de 2023. Até lá, Rui Carvalho espera conseguir recuperar algum do espólio que “estará distribuído por antigos associados”.

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