Entrevista | 12-12-2022 07:00

“Não sou dada a exemplos morais e sou contra castigos exemplares”

“Não sou dada a exemplos morais e sou contra castigos exemplares”
Alexandra Leitão é deputada do PS eleita pelo círculo de Santarém apesar de residir e ser natural de Lisboa

Alexandra Leitão é deputada do PS eleita pelo círculo de Santarém, tendo sido a cabeça-de-lista nas últimas legislativas, apesar de residir e ser natural de Lisboa, não tendo qualquer ligação à região que representa.

A política socialista diz que isso não é o mais importante, mas sim a visibilidade e a capacidade de levantar as questões que importam à região. Considerações à parte, o distrito de Santarém continua à espera de investimentos importantes, há décadas, como é o caso do IC3. Agora há a ideia de um aeroporto neste território, mas a deputada para já não se compromete com considerações, salientando apenas que é uma boa ideia para a região. Alexandra Leitão, nascida em 1973, licenciada, mestre e doutora em Direito e professora na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa foi secretária de Estado da Educação e ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, tendo ficado de fora do Governo nas últimas eleições. Assumiu-se como comentadora de televisão e tem sido crítica em relação a algumas questões internas do partido, definindo-se como uma voz livre.

Faz sentido um político de Lisboa ser cabeça-de-lista à Assembleia da República por Santarém? Lisboa e Santarém estão na mesma zona geográfica de certa forma. Há até uma continuidade cultural. Mas mais importante do que a proveniência de nascimento ou de residência é o empenho que a pessoa coloca na defesa nacional e em especial naquilo que são as preocupações no seu território, como acho que coloco.
Como é preciso dar visibilidade a alguém ou eleger alguém que não cabe na lista de Lisboa, mete-se noutra lista. Não acho que fosse o meu caso. Acho que teria lugar na lista de Lisboa. Até que ponto é que não valoriza uma região como Santarém ter um cabeça-de-lista que tem alguma visibilidade nacional e que até por ter essa visibilidade nacional tem capacidade para colocar as questões da região na agenda.
As questões até podem ser colocadas, mas investimentos nesta região é que são cada vez menos. Temos a decorrer a residência de estudantes em Rio Maior, estão a ser feitos investimentos na ferrovia. Temos o processo já em Bruxelas da NUT 2 que vai permitir um acesso a fundos comunitários muito melhor por parte desta região.
Mas há coisas fundamentais para esta região, como o IC 3 que já devia ter sido feito em reconhecimento por aquilo que a Chamusca fez para resolver o problema dos resíduos. Esse é um problema premente. Já é premente há muito tempo e não se conseguiu ainda encontrar solução. Nunca fui de escamotear problemas e esse, de facto, é um assunto para resolver.
Ainda não a ouvi tomar posição sobre o aeroporto em Santarém. É óbvio que seria, ou será, ou é uma óptima notícia para a região. Há muitos factores a ter em conta e é uma solução muito complexa. Vamos aguardar.
Também está mais pela solução de Alcochete? Não foi isso que disse. Naturalmente que seria óptimo para esta região, para a região pela qual fui eleita. É verdade que o aeroporto de Lisboa não tem que ser o aeroporto de Lisboa.
Não está muito empenhada em bater-se por esta solução. Estou à espera de ver os estudos que serão feitos. Agora, como eleita por Santarém e tendo em conta que era importante para a região, naturalmente que acompanharei com muita atenção o desenrolar da situação.
Foi ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública mas nas últimas legislativas foi afastada de cargos governamentais. O que fez para ser afastada? Quando em Março foi público que não ficaria no Governo também recusei um outro convite que não interessa mencionar. Tenho um perfil executivo, gosto de fazer coisas e a função de deputada é uma função que não é executiva, porém, estou na Comissão de Justiça da Assembleia da República, a minha área de formação e aquela em que me sinto melhor.
O que é que aconteceu para não entrar no Governo? Ficou chateada com o primeiro-ministro? Somos aquilo que somos profissionalmente, somos muita coisa na vida. Estamos ministros, estamos secretários de Estado, estamos deputados… O que é importante é que tenha uma carreira de base para a qual voltarei sempre com muita satisfação porque gosto muito de dar aulas.
Já não é uma coisa que seja muito usual na política, ter uma vida para além da política… Cada um tem o seu percurso de vida. O que sou é professora universitária.
É por isso que é uma voz crítica até para o seu partido? Não! Isso é porque sou assim. Não sei viver sem liberdade.
No caso do secretário de Estado Miguel Alves não se escusou a comentários bastante críticos. Faz isso porque quer ser conhecida como a voz crítica dentro do PS? Nunca procurei ser uma pessoa inteiramente consensual. Quem gostará menos de mim dirá que queria isto ou queria aquilo. A verdadeira razão é que sou uma mente livre, uma pessoa livre. Sou filha de uma mulher que no antigo regime esteve presa 10 meses na PIDE e nessa altura havia razão para ter medo. Agora medo? Medo de quê? Medo de desagradar a alguém? Eu digo o que penso.
Essa voz livre nunca lhe trouxe alguns engulhos políticos? É capaz, é capaz.
E como é que lida com isso? Bem, muito bem, porque quando dizemos as coisas temos de estar cientes das consequências. Essa é a diferença entre inconsciência e coragem. Inconsciente é aquele que diz o que lhe sai da boca para fora, mas quando vêm as consequências fica aflito. Ter coragem é ter noção que o que se diz terá consequências, mas diz-se na mesma.
Actualmente é comentadora televisiva. As televisões não estão cheias de políticos? Há espaço para toda a gente. No tempo da pandemia eram médicos de saúde pública e biólogos por todo o lado, agora com a guerra são militares. Há espaço para tudo e cada pessoa vê o que entende. Essa é a maravilha de haver concorrência e cada pessoa vê o que quer ver.
É presidente da Comissão de Transparência Estatuto dos Deputados. Sente-se confortável quando se ouve falar de problemas de deputados, de políticos de “negócios”, de ligações? A Comissão de Transparência é uma comissão diferente das outras 13. Encarei a minha ida para esta comissão por achar que é útil que seja um jurista o presidente. Por outro lado, quero acreditar também ser importante que fosse alguém, apesar do que as pessoas achem, que tenha alguma ética.
Há duas situações com um ex-deputado do seu partido, também eleito por Santarém, António Gameiro, indiciado de corrupção. Qual é o seu sentimento em relação a isso? Vou responder em abstrato. Nunca se podem nem se devem fazer generalizações. independentemente dos casos não se pode tirar ilações para a classe toda. Uma classe que tem os mesmos direitos que os outros cidadãos, à privacidade, ao bom nome, a não ser difamado, à defesa, à presunção de inocência, mas tem mais deveres. Porquê? Porque usa dinheiro público ou prossegue o interesse público porque quem o elegeu lhe pôs confiança.
Têm de ser um exemplo para a sociedade, é o que está a dizer? Não sou muito dada a exemplos morais, tal como sou contra castigos exemplares. É preciso que existam três condições para que essas pessoas possam continuar a exercer funções: prestar esclarecimentos que sejam suficientemente claros e transparentes, não porem em causa a sua utilidade no exercício da sua função e que haja coerência no tratamento dos casos. Ninguém gosta de ver casos no âmbito da política como em qualquer classe, porque isso contribui para um certo descrédito do exercício da política.
Vivemos numa sociedade que cultiva a imagem. Como é que se sente neste tipo de sociedade? Se a pergunta significa que pode haver pessoas que na política em função da sua imagem física têm uma vantagem, acho que sim. Mas o maior trunfo que um político pode ter é o da identificabilidade, é o povo identificar--se com ele e o povo não é todo elegante, alto, esbelto, espadaúdo e de olhos azuis. Uma das coisas que as pessoas me dizem agora quando me vêem na televisão é que percebem o que eu digo. Nunca me senti prejudicada por alguma característica física, mas se sentisse, não mudaria.
Quem é o seu interlocutor aqui na região? Naturalmente, até pela proximidade, é o Hugo Costa, que não só é meu camarada deputado como é presidente da Federação de Santarém do PS. A seguir são os meus camaradas deputados. Depois, dou-me muito bem como todos os presidentes de câmara de todos os partidos.

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