Entrevista | 25-01-2023 10:00

Sandra May: de bailarina a escritora com uma passagem marcante pelo Exército Português

Sandra May: de bailarina a escritora com uma passagem marcante pelo Exército Português
Sandra May foi bailarina profissional, sargento no Exército Português e está a dar os primeiros passos no mundo dos livros

Sandra May, nome artístico de Sandra Barbosa, está a dar os primeiros passos no mundo dos livros.

É natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1994, mas foi na cidade do Porto que cresceu como mulher. Formou-se como bailarina profissional, estudou criminologia e, mais tarde, abdicou da sua criatividade e espírito livre pelo método e disciplina do Exército Português. “A tropa deu-me muito, mas também me tirou muito”, afirma em conversa com O MIRANTE. Actualmente vive na aldeia ribeirinha do Arripiado, concelho da Chamusca, onde diz querer passar o resto da vida a contemplar o Tejo e a inspirar-se para fazer a diferença no mundo.

A célebre música dos GNR, “Pronúncia do Norte”, é o primeiro tópico da conversa com Sandra May que, embora viva na região ribatejana há alguns anos, continua a pensar em tudo e a dizer tudo o que pensa, próprio de quem é do Norte do país. A leveza e o sorriso constante no rosto reflectem de forma inequívoca o seu estado de alma; está grávida pela primeira vez e feliz pelo local que escolheu para viver com a sua família. “Sou apaixonada pelo Arripiado e pelo rio Tejo; comprei a casa dos meus sonhos e quero fazer a diferença nesta que é uma das aldeias mais bonitas do nosso país”, afirma.
A conversa com O MIRANTE decorre num dia chuvoso com vista privilegiada sobre o rio Tejo, cujo leito transborda as margens. O pequeno-almoço é servido no café central da aldeia do concelho da Chamusca e a poucos metros tocam os sinos da Igreja de São Marcos; são 11 da manhã.
O percurso de vida de Sandra May, embora tenha 28 anos, é diferenciado. Nasceu em Viana do Castelo, viveu em Valença, no Minho, e Santa Maria da Feira, mas foi no Porto que cresceu enquanto mulher. A sua primeira paixão foi a dança e, por isso, não hesitou na altura de escolher o seu futuro. Formou-se como bailarina profissional durante três anos, mas a entrada no mercado de trabalho mostrou-lhe uma realidade diferente. À época ficou sem auto-estima e decidiu mudar de rumo. Ingressou no curso de Criminologia, mas não o terminou porque um professor de Balística, ex-militar, aguçou-lhe a curiosidade para se inscrever no Exército Português. Fê-lo sem dizer nada a ninguém. “Nunca tive medo de mudanças repentinas porque a minha vida é toda ela uma mudança constante. Só contei aos meus pais no dia em que apanhei o comboio para as Caldas da Rainha. A minha mãe ficou triste porque não queria que me tornasse demasiado masculina”, partilha.
A independência de ideias e comportamentos é uma das características que mais admira em si. Não faz fretes por ninguém e não decide com base no que os outros pensam. “Sigo sempre os meus instintos, faço quase sempre tudo sozinha, portanto sinto que tenho autoridade para partilhar só o que entender”, sublinha.

Assédio moral e sexual
Em Mafra escolheu ser Sapador de Engenharia. Foi para o quartel de Tancos onde se viria a apaixonar pela aldeia situada na outra margem do Tejo, onde vive. No entanto, os tempos de tropa não foram um mar de rosas. “A tropa deu-me muito, mas também me tirou muito. Quando somos formatados acabamos por esquecer quem somos. Perdi criatividade, sensibilidade, empatia. Assustei-me comigo própria”, confessa, acrescentando que, em casa, com o actual marido, tinha comportamentos autoritários. Sandra May quer também deixar claro que nem tudo foi mau: “aprendi a ser líder e forte mentalmente. Hoje dificilmente me vou abaixo por coisas sem significado”, garante.
A viver num mundo de homens, a ex-sargento assume que foi vítima de assédio moral e sexual. Conta que a primeira experiência negativa foi durante a recruta, quando um oficial com posto elevado a assediou sexualmente. “Fiquei calada como todas as mulheres ficam. Não ia estragar a minha carreira que estava a começar. Comecei a perceber que um sorriso ou um gesto simpático era, para alguns elementos, uma mensagem de que poderia acontecer mais alguma coisa, quando era simplesmente a expressão da minha forma de ser”, afirma, acrescentando que o assédio moral é ainda mais traumatizante. “Mais tarde comecei a vê-los a fazer o mesmo a miúdas acabadas de entrar e pensei, ‘há uns anos era eu’”, recorda.

O começo da escrita
Foi ainda na tropa que Sandra May começou a estimular novamente a sua parte mais criatividade. Para se voltar a ligar à sua veia artística começou a escrever alguns textos sobre desenvolvimento pessoal e auto-ajuda. Percebeu que ainda não tinha a maturidade para escrever nesse registo e decidiu ir pela via do romance. “Ainda não é desta” é o título de uma comédia romântica da vida real que retrata a realidade dos jovens de hoje. “Lara, personagem principal, sempre teve tudo e ouve o primeiro não muito tarde na sua vida. Nas novas gerações acontece o mesmo e isso torna os jovens mais ansiosos, deprimidos e sem poder de encaixe. Basta um ‘não’ num emprego para colocarem tudo em causa”, considera. O livro tem 325 páginas e vendeu mais de 600 exemplares em menos de um ano.
Sandra May também editou um livro de contos infantil, “Herói Boa-Ação”, e dois e-book, “Minha querida ansiedade” e “O diário da Estrada Nacional 2” (ver caixa). “Escrever é mesmo o meu trabalho e levo-o com toda a seriedade. Tenho rituais para escrever e muita disciplina, como se ainda estivesse no exército. Só que agora posso ser quem sou”, afirma.

O diário da Nacional 2

A maior aventura na vida de Sandra May foi ter percorrido de bicicleta a Estrada Nacional 2, que liga Chaves a Faro, para promover os seus livros. A aventura resultou num livro (e-book) com o título “O diário da Estrada Nacional 2”. É um diário que partilha a ansiedade, os medos, inseguranças, mas também as vitórias, a transformação pessoal e histórias com as pessoas que vivem nas localidades por onde passou. Foi sozinha e levava os livros nos alforges de uma pasteleira de seis mudanças e de 20 quilos. Ao terceiro dia teve exaustão e adormeceu em cima da bicicleta. Com a ajuda do marido e de corporações de bombeiros e câmaras municipais, conseguiu cumprir o desafio em 20 dias. “Foi a melhor e a pior experiência da minha vida”, confessa a O MIRANTE.

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