Entrevista | 04-02-2023 10:00

Carina Graça: a terapeuta que passou pela construção civil e é oleira em Tomar

Carina Graça: a terapeuta que passou pela construção civil e é oleira em Tomar
É através da arte que Carina Graça se sente realizada profissionalmente

Carina Graça apaixonou-se pela olaria depois de ter um filho e de lançar um livro de poesia. Natural de Tomar, com 32 anos, é formada em terapia ocupacional, mas é na arte que se sente realizada profissionalmente. Actualmente é artista residente na Moagem - Fábrica das Artes no Complexo Cultural da Levada de Tomar e dá workshops a crianças.

Carina Graça começou a trabalhar muito cedo ajudando o pai na construção civil até aos 13 anos. Afirma que o seu gosto por trabalhar o barro começou aí. “No outro dia fiz um candeeiro e quando olhei para ele estava mesmo a rever o meu pai a betumar as paredes e a trabalhar com cimento”, conta a O MIRANTE recordando que gostava de acompanhar o pai nas empreitadas.
A conexão com o barro deu-se quando saiu de Lisboa, onde era Terapeuta Ocupacional, após a conclusão do curso da Escola Superior de Saúde do Alcoitão. Entretanto foi morar para a zona de Alvaiázere para trabalhar numa estufa. “Queria ligar-me à terra e à agricultura, também pelo facto de ter sido mãe. Quando cheguei à estufa reparei que tudo era plástico e as coisas acabavam por secar e quebrar. Pensei que seria interessante trabalhar com o barro e comecei à procura de oleiros”, explica. Em 2021 teve conhecimento de um curso em Tomar onde conheceu o mestre Celestino Marques, que a cativou pela sua simplicidade. “Na primeira vez que entrei na olaria do Celestino Marques, na Charneca da Peralva, fiquei apaixonada pela sua simplicidade. Deu-me motivação e vontade de aprender”, recorda.
Carina começou por fazer peças em Alvaiázere. Apesar da ligação com o mestre Celestino não pretende seguir com o processo tradicional da olaria. “Quero abraçar o tradicional como nosso antepassado, mas de uma forma mais criativa”, vinca. A artesã tem uma forma singular de encarar o seu processo criativo; “comecei a sentir que o barro falava mesmo comigo, a nível sensorial através das mãos. Cada peça tem uma mensagem. Quando começo não sei o que vou criar”, confessa, admitindo que a sua arte não é final. “A minha arte funde-se com quem a recebe. É como se expandisse a consciência”, considera.
Carina Graça lançou em 2021 o livro de poesia “Dançando Despida”. É a dança entre o corpo, a alma e o espírito, diz sobre o livro. Os poemas, à semelhança das peças de cerâmica que cria, foram também “canalizados”. Nunca na vida imaginou escrever um livro, muito menos de poesia, mas recorda que essa foi uma fase em que a escrita a ajudava no processo de tomada de consciência. “Escrever era o meu primeiro exercício. Primeiro os poemas eram uma orientação pessoal, mas comecei a perceber, até por conversas com amigos, que deveriam ser partilhados”. A pintura surgiu na mesma altura. A capa de “Dançando Despida” é um quadro feito por si. A pintura assumiu um processo semelhante ao que tem actualmente com a cerâmica. “Quando me colocava à frente da tela não sabia o que as minhas mãos iriam pintar. Ao início só conseguia fazer a curva do ponto de interrogação”, recorda, dizendo que usou a pintura para seu próprio auto-conhecimento depois da pós-graduação em arte-terapia.
Carina Graça tem dado workshops a muitas crianças no Centro Cultural da Levada de Tomar. “Alguns pais dizem-me que vêm aqui porque não conseguiam encontrar um espaço onde os filhos pudessem ser criativos. A escola condiciona de certa forma em alguns aspectos”, considera. Quanto à residência artística na Moagem do complexo cultural, Carina diz que vai ali ficar pelo menos até ao Verão.

Fazer a diferença e o legado para o filho

Carina Graça concluiu o curso de Terapia Ocupacional na Escola Superior de Saúde do Alcoitão. “Sempre soube que queria esta proximidade com as pessoas e de alguma forma fazer a diferença nas suas vidas”, conta, acrescentando; “fascinou-me o facto de a terapia ocupacional ser tão abrangente nas suas áreas. Podemos trabalhar com crianças, prevenção precoce, com idosos...”. Começou a trabalhar em reabilitação física em Lisboa, fazendo domicílios, mas sentia-se muito incompleta. Em 2013 esteve nos Estados Unidos da América. “Foi um percurso muito importante, deu para perceber o fascínio que tenho pela diversidade. Em Los Angeles há pessoas de todo o lado e eu era só mais uma ali”, recorda.
Foi mãe em 2019 e diz que o filho teve o poder de a obrigar a ter consciência daquilo que está a deixar como legado. “O que conta não é aquilo que dizes ao teu filho, mas aquilo que fazes. É isso que ele vê”, conclui.

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