Entrevista | 13-02-2023 12:00

Um antigo forcado que pegou de caras a Câmara do Cartaxo

Um antigo forcado que pegou de caras a Câmara do Cartaxo
João Heitor destronou, nas últimas eleições autárquicas, os socialistas que governavam o município desde 1976

João Heitor ganhou a Câmara do Cartaxo ao PS, que desde 1976 até 2021 governou o município. Foi um resultado que até a ele surpreendeu. O gestor, antigo professor de Educação Física, ex-forcado e dirigente associativo arregaçou as mangas e entregou-se à gestão de uma autarquia falida. Garante que não faz promessas, não se refugia na herança pesada que recebeu para justificar fracassos e refere que não quer engrossar a lista de ex-autarcas do Cartaxo que tiveram problemas com a justiça.

Vai ficar para a história local como o homem que acabou com o poder socialista na Câmara do Cartaxo, que vinha desde as primeiras eleições autárquicas, em 1976. Foi uma surpresa ou já tinha sinais de que podia haver mudança? O resultado foi uma surpresa. Acreditávamos que podíamos fazer um bom resultado. Ao longo do tempo, durante a campanha, apercebemo-nos que estávamos a ser bem recebidos pela população e fomos ganhando confiança. Ainda assim, o resultado final acabou por ser uma surpresa. Tivemos uma maioria absoluta e vínhamos de muitas maiorias absolutas do PS.
A sua candidatura foi por iniciativa própria ou foi o partido que lhe disse que tinha que avançar, porque não havia mais ninguém a querer ser candidato? Era, e ainda sou, presidente da concelhia do PSD e tinha a responsabilidade, conjuntamente com a equipa, de decidir quem seria o candidato. Acabou por ser a equipa a empurrar-me um bocadinho e aceitei de bom grado.
Qual é o aliciante de gerir uma câmara falida e que tão cedo não vai ter dinheiro para grandes projectos? Posto dessa maneira não é muito. O que nos traz a este desafio é um grande compromisso com a comunidade, um grande espírito de missão, é gostarmos muito da nossa terra. Desde muito novo que senti este apelo para intervir na causa pública. Sempre me envolvi no associativismo e em projectos da comunidade, gosto muito de fazer pela população. Vamos crescendo com isto, vamo-nos revendo na necessidade de fazer acontecer e a nossa comunidade estava a precisar de uma mudança positiva.
Não é frustrante não haver dinheiro, por vezes, sequer para tapar os buracos nas estradas? Há muitas frustrações diárias e temos que saber resolvê-las. Sabemos que não vamos conseguir resolver tudo de uma vez mas temos que ser ambiciosos e também focados em resolver problema a problema, devagar mas com passo certo.
Gastou-se dinheiro na Câmara do Cartaxo como se não houvesse amanhã? Gastou, durante muitos anos…
Foi megalomania, incompetência, má gestão? Temos que aprender com o passado, com os nossos erros e com os erros dos outros. Julgo que não ganhamos nada em denegrir o passado ou aqueles que estiveram no lugar onde estou hoje. Acredito que se cometeram muitos erros, e provavelmente também vou cometeram alguns, mas espero não cometer iguais aos que foram cometidos. Houve, de facto, erros graves e más decisões que nos trouxeram à situação em que estamos hoje.
Como por exemplo? Temos 50 milhões de euros de dívida. Isso deveu-se a muitas más decisões acumuladas.
Hoje, com as regras entretanto impostas, seria impossível acumular tanta dívida. Antes era um regabofe… Sim, era um bocadinho, mas ainda assim a lei era igual para todos e muito poucos municípios estão na condição em que nós estamos. Felizmente para o país e infelizmente para nós.
Uma questão concreta: se fosse o presidente na altura, gastaria os milhões que se gastaram no parque de estacionamento subterrâneo junto aos paços do concelho e na ligação dos dois jardins no centro da cidade, fechando a EN3? Claramente que não o faria. Esse foi um erro de má gestão no que concerne ao projecto mas, acima de tudo, foi um erro estratégico para a dinâmica da cidade.
A cidade não ganhou nada com isso? Não. Já passaram muitos anos. Poderíamos achar que não e o tempo tirar-nos razão, mas neste caso isso não aconteceu. A dinâmica da cidade perdeu-se. A forma como as pessoas se movimentam, como chegam aos locais que precisam de ser animados, que precisam de ter gente para funcionar, como o comércio tradicional, foi claramente prejudicada. Não houve nenhum benefício claro para ninguém com a concretização desse projecto. E ainda hoje pagamos pelos erros do projecto, como um parque de estacionamento do qual não conseguimos tirar qualquer rentabilidade.
É possível reverter essa decisão e reconfigurar a zona que é o miolo da cidade? Se falarmos da reabertura da Estrada Nacional 3, julgo que é possível. O compromisso nesta altura é fazermos um estudo de tráfego, da rede viária, muito sério e muito abrangente, para avaliar os impactos dessa eventual reabertura e também do custo que uma obra dessas teria para os cofres do município e para a dinâmica da cidade.
Alguns dos seus antecessores tiveram que responder em tribunal em resultado das funções autárquicas que desempenharam. Parece que há quase um padrão: ser presidente da Câmara do Cartaxo significa problemas com a justiça. Acredito que não seja um padrão. O que refere são factos que aconteceram. Vários ex-presidentes de câmara tiveram que responder perante a justiça por motivos muito diferentes uns dos outros. Uns têm a ver com a forma de gestão da autarquia, outros nem por isso, mas é a justiça a funcionar. O que quero é não engrossar essa lista. Pelos actos dos meus antecessores responderão eles. Eu responderei pelos meus e espero em nenhum momento estar nessa situação.
O seu antecessor, Pedro Magalhães Ribeiro, demitiu-se recentemente do cargo de assessor do primeiro-ministro, após ter sido condenado, por violação dos deveres de neutralidade e imparcialidade, devido a uma publicação no Facebook do município antes das últimas autárquicas. Falou com ele sobre isso? Não, não falei. Não tenho uma relação muito próxima com o Pedro Ribeiro. Também não tenho nenhuma relação de inimizade. Temos relação institucional normal.
Acha este tipo de sentenças importante para os autarcas terem noção dos seus limites, nomeadamente em épocas pré-eleitorais? Primeiro deixem-me dizer que não tenho qualquer tipo de satisfação por aquilo que está a acontecer ao Pedro Ribeiro ou a outros autarcas que possam ter sido acusados do que quer que seja. É sempre lamentável e gostava que ninguém passasse por isso. Se está a acontecer deve-se ao normal funcionamento da justiça. E julgo que também não devo fazer mais considerações sobre isso, pois não iria ajudar em nada aquela que é a minha missão no cargo que ocupo.
Antes de chegar à Câmara do Cartaxo era director regional de uma empresa multinacional do sector agropecuário. Foi uma mudança radical ou há vários pontos em comum? Essa foi uma tarefa que desempenhei durante algum tempo, mas também desempenhei outras no âmbito profissional e associativo. Foi uma tarefa que me construiu, tal como as outras. Sendo uma posição de gestão tem em alguns pontos semelhanças com aquilo que tenho de fazer hoje.
Está a gostar da experiência autárquica? Estou a gostar muito da experiência, embora muitas vezes pense que gostaria de ter condições para fazer mais. Alimento-me muitas vezes de uma frustração permanente para ganhar força e desempenhar o melhor possível esta missão.
Sem dinheiro vai ser uma missão complicada... Aumenta o desafio, temos que trabalhar muito em parceria com as pessoas, com as instituições, com todas as organizações que possam ajudar a concretizar projectos importantes para a comunidade.

“Estamos a criar boas condições para que as empresas se instalem no Cartaxo”

O parque de negócios do Cartaxo, junto à A1, continua sem grande procura, apesar da localização privilegiada. Tem faltado capacidade para atrair empresas para o Valleypark? É um facto que o parque só lá tem instalada a Tagusgás. Entretanto, no mês passado, assinámos um contrato promessa de compra e venda com uma empresa que está instalada no Cartaxo e contamos fazer a escritura em breve. Há outras empresas interessadas. Não fazemos grande publicidade do que já foi feito mas queremos dar nota às pessoas que estamos a criar boas condições para que as empresas se instalem no Cartaxo. Durante alguns anos não conseguimos atrair para ali negócios, esperamos que com o trabalho que estamos a desenvolver se inverta essa tendência. É uma zona com um potencial extraordinário.
Como se explica que em duas décadas não se tenha conseguido atrair investidores para uma área junto ao nó da A1? Tem que haver determinação e atitude para concretizar o que quer que seja. Temos que ser persistentes, temos que ser focados e estamos a tentar ter esse tipo de atitude.
O parque de negócios do Casal Branco, em Pontével, está em situação semelhante. Está pior ainda, porque não tem infraestruturas. Temos aí também um desafio para concretizar. É uma área com características diferentes do Valleypark, para outro tipo de empresas. O Casal Branco é mais vocacionado para indústria.
A Câmara de Santarém anunciou a criação de uma grande plataforma logística em Almoster, no limite com o concelho do Cartaxo e perto do nó da A1. O município do Cartaxo também está envolvido? Sim, embora o projecto esteja no território do município de Santarém o terreno é detido pela sociedade do Valleypark, da qual o município do Cartaxo faz parte. O que está a ser tratado é um grande empreendimento na área da logística e que vai ser também transformador para a nossa região. Obviamente, queremos que corra tudo muito bem. Primeiro, porque ficamos muito satisfeitos com os sucessos dos nossos vizinhos; e também porque sabemos que vai ter um óptimo impacto no desenvolvimento do nosso concelho.
Há uma dúzia de anos a Câmara do Cartaxo investiu milhões na construção do nó da A1 no Cartaxo. Essa infraestrutura não foi o catalisador de desenvolvimento que se esperava e, passados estes anos, percebe-se que as acessibilidades, só por si, não fazem milagres. É verdade, mas estamos no momento de provar que aquele nó é importante e faz sentido. Julgo que é isso que vai acontecer por via não só daquilo que se vai instalar no lado de Almoster como do desenvolvimento que vai acontecer no Valleypark. Sem esse nó não teríamos a mínima hipótese de promover o desenvolvimento como estamos a tentar.
O que pensa da possibilidade de ser construído um aeroporto internacional no concelho vizinho de Santarém? Parece-me honestamente que é a melhor solução para o país. Não é só para Santarém e para os municípios vizinhos. A cola e o equilíbrio que pode trazer a um território tão vasto, desde Coimbra até Portalegre, passando por Leiria e toda a zona Oeste, vão criar condições de desenvolvimento únicas. Por outro lado, não vejo que alguma outra zona do país possa perder com isso. Penso que a margem sul não vai ter nenhum retrocesso mesmo que o aeroporto não vá para lá. Mas também é certo que há uma segunda opção na Lezíria do Tejo, em Benavente.
Quando o seu executivo entrou em funções, em Outubro de 2021, encontrou os serviços de urbanismo da câmara com muito trabalho acumulado, cerca de 1.800 requerimentos sem resposta e 950 processos pendentes, alguns deles já com décadas. A capacidade de resposta entretanto melhorou? Melhorou bastante.
Qual foi o remédio? O remédio foi trazermos mais pessoas e reorganizarmos os serviços. Sempre com o foco de resolução de problemas dos nossos munícipes e também dando nota muito clara às empresas que aqui querem investir que somos amigos do investidor e queremos ser muito rápidos na resposta. Muitas coisas que estavam para trás têm vindo a ser resolvidas e este novo modelo, que obviamente não é perfeito, permite-nos responder mais depressa e a mais processos do que antes.
Essa situação não denota também algum laxismo da liderança política à época? Pode demonstrar alguma acomodação. Às tantas, quando estamos muito tempo a fazer a mesma coisa deixamos de ter capacidade para ver soluções novas. Quando estamos no mesmo sítio há muito tempo temos que ter a capacidade de trazer outras pessoas, com um olhar fresco. Talvez não fosse isso que estivesse a acontecer. Nós procuramos ter esse olhar fresco sobre os problemas, sempre na perspectiva da solução.

“Não posso usar o passado como desculpa”

Quando assumiu o cargo tinha noção da dimensão da herança pesada que o PS lhe ia deixar? Nós achamos sempre que temos e de facto não posso dizer que desconhecia a situação do município, nem pouco mais ou menos. Intervenho nesta temática há tempo suficiente para perceber a dimensão dos problemas que aqui existiam. Mas quando nos deparamos diariamente com a necessidade de os resolver percebemo-los de outra forma.
Ainda vai tendo algumas surpresas de vez em quando? Já me surpreendo pouco, mas não deixo de, por vezes, ficar estupefacto com algumas coisas que vamos encontrando. Mas temos que encontrar soluções para essas situações.
Não é daquelas pessoas de apontar o dedo aos antecessores e deitar-lhes as culpas por tudo o que está mal. Acho que não vale a pena. Todos fazemos as nossas avaliações mas isso acaba por ser uma perda de tempo. Temos é que olhar para a frente, aprendendo com o passado, com os nossos erros e com os erros dos outros, e procurar evoluir sempre a partir daí. Não posso, hoje, usar como desculpa o passado para ter sucesso ou não ter sucesso.
Não é um político belicista. Não sou. Não faz muito sentido. A energia que pomos na causa pública tem que ser muito bem gerida e ao desperdiçarmos tempo com coisas que são pouco produtivas não estamos a fazer bem o nosso trabalho.

Um homem do associativismo que pegou toiros e pratica karate

João Heitor, 43 anos, é natural de Vale da Pinta, concelho do Cartaxo, onde nasceu em 24 de Março de 1979. É casado e tem três filhos, duas meninas e um rapaz, com idades entre os três e os oito anos. É licenciado em Educação Física e tem um mestrado em Gestão. Antes de assumir funções autárquicas era gestor numa empresa multinacional ligada ao sector dos adubos.
O associativismo está-lhe no sangue. Foi presidente da Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta até 2021 e ainda é presidente da Associação Nacional de Karate – Portugal. Desde jovem que esteve envolvido no desporto e sempre gostou de dar o seu contributo à comunidade. Praticante e instrutor de karate, já não tem muito tempo para dedicar a essa arte marcial que o ajuda a ter as energias bem orientadas. “Quanto mais a tensão aperta, mais frio e racional consigo ser”, diz, referindo que é uma pessoa com emoções à flor da pele, seja com actos de amor seja perante injustiças.
João Heitor foi também forcado, no Grupo do Aposento da Moita, habitualmente como primeiro ajuda. Nas lides tauromáquicas levou algumas marradas e ficaram-lhe marcas nos dedos de uma mão, feridos por uma bandarilha. Diz com algum humor que era mais fácil enfrentar um toiro na arena do que a situação financeira da Câmara do Cartaxo.

“As pessoas estão fartas das promessas dos políticos”

Mudou de número de telemóvel depois de ser eleito presidente? Não.
Telefonam-lhe ou batem-lhe à porta a reclamar ou a pedir para resolver problemas? Muitas vezes.
E o que costuma dizer?
Que vou tentar ajudar e vou tentar fazer. Umas vezes consigo logo, outras não...
Não é homem de fazer promessas e dizer que sim só para despachar? Não faço promessas. Nós definimos objectivos e trabalhamos para os atingir. As pessoas estão fartas das promessas dos políticos. Hoje estou político e não quero ser acusado de ser mais um que promete e não cumpre. É importante ter esse respeito pelas pessoas, para que não se sintam enganadas.
Já lhe pediram emprego na câmara? Algumas vezes. A função pública já tem muitas regras e limitações e nesta câmara ainda tem mais, pelo que temos de ser muito criteriosos.
Os dias passaram a ser maiores e as noites mais curtas? Sim.
A família não protesta pelo pouco tempo que passa em casa? Protesta e é um exercício de gestão também aí. Tento ter um bocadinho para deitar os filhos à noite, para os levar de vez em quando à escola, procuro arranjar tempo para conversarmos ou cedendo quando me pedem para ir andar de bicicleta. Vamos tentando gerir, mas confesso que aí acho que estou sempre a dever.

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