Entrevista | 11-04-2023 15:00

“Diagnóstico da doença mental é altamente estigmatizante”

“Diagnóstico da doença mental é altamente estigmatizante”
Sociólogo José Garrucho Martins lança livro "As Noites e os Dias - Como se vive com a doença bipolar"

A expressão “esse é bipolar” vulgarizou-se, mas até podemos parecer todos mais ou menos loucos ou ter alteração de humor, que isso não quer dizer nada numa doença que é grave, com riscos sociais e para o próprio desde a condução à sexualidade passando pela gestão do dinheiro.

A virilidade é um dos factores que mais interfere no controlo dos bipolares. Há doentes que conseguem desestruturar uma família, arruinar o património, entrar no mundo das drogas ou chegar ao ponto de suicídio. Os aspectos e implicações sociológicas da doença foram estudados por José Garrucho Martins, doutorado em Sociologia e investigador da Universidade Nova de Lisboa. O académico, natural de Alpiarça, que acompanhou a vida de vários doentes, lança agora um livro, intitulado “As Noites e os Dias – Como se vive com a doença bipolar”, que foi apresentado no XIII Congresso Português de Sociologia, em Coimbra, e vai ser lançado em Lisboa a 15 de Abril no Zénite bar-galeria às 17h00 seguido do concerto “Noite contra o Dia”. A30 de Março assinalou-se o dia mundial do transtorno bipolar.

Não seremos todos bipolares? Todos temos distúrbios de humor, mas isso não é bipolaridade. A doença é muito grave, é uma das grandes doenças psiquiátricas que não se consegue controlar sem apoio, sem terapias, sem sessões de psico-educação, sem medicação. A barreira que separa o dito normal do patológico é frágil, mas ser bipolar é mais que alterações de humor. O que separa não são os sintomas em si, mas a sua frequência e intensidade. A doença tem uma dimensão depressiva e outra maníaca. Há uma fase em que a pessoa está abatida, triste e outra em que está eufórica.
No mundo actual de gente agitada, irritadiça, há a tendência para se chamar bipolar a quem não tem um comportamento que esperávamos. A expressão bipolar passa para a cultura, para a sociedade e serve para ler outras realidades sociais, tal como a expressão narcisismo saiu da entidade clínica para a entidade de análise. A fase eufórica de um bipolar é muito produtiva, o que até é valorizada pela sociedade. A euforia na área cultural ou nas artes é muito criativa. A escritora Virgínia Woolf era bipolar, mas na altura chamava-se psicose maníaco-depressiva.
A sociedade tem falta de bom humor? As transformações rápidas e a imprevisibilidade do mundo actual aumentaram o mal-estar de viver. É uma espécie de depressão, vivemos tristes. A sociedade vive pior com a depressão do que com o estado maníaco porque uma pessoa nesse estado é altamente produtiva. Nessa fase consegue relacionar diferentes ideias que aparentemente não teriam muito a ver umas com as outras, não precisa de dormir muito, está em permanente actividade. Qualquer empresário gostaria que os trabalhadores fossem hipomaníacos ou seja eufóricos que ainda se controlam.
Um artista que tem doença bipolar é muito mais criativo? É um mito associar a bipolaridade ou a loucura a genialidade, embora numa concepção romântica da doença mental os cidadãos tendam a considerar que as duas coisas estão ligadas. Temos doentes que produziram, que são figuras importantes, mas que produziram numa fase em que não estão em crise. Nem todos os artistas são loucos, nem todas as pessoas são bipolares. Há duas interpretações populares e aquela que está fora da área cultural é usada como insulto.

medicamentos tornam homens impotentes
É possível curar-se a bipolaridade? Em princípio é uma doença crónica, uma doença de longa duração. Não é possível viver com bipolaridade sem medicação. Um dos problemas dos doentes na gestão da doença é em determinado período deixarem de tomar os medicamentos, os reguladores do humor. Quando isso acontece entram imediatamente em crise e essas crises são cada vez mais intensas e obrigam a hospitalização.
Qual é o motivo para deixarem de tomar a medicação? Nos homens, umas das grandes razões está relacionada com a virilidade. Os medicamentos tornam os homens impotentes. Nas mulheres é a questão de engordarem, perderem cabelo. Quando começam a sentir-se ligeiramente melhores há tendência para deixarem a medicação.
A bipolaridade pode levar a situações sociologicamente dramáticas? Em qualquer doença mental a gestão do quotidiano é muito importante. Desde que se consiga normalizar a vida do dia-a-dia sem grandes problemas a pessoa vive relativamente bem com a doença, aprende estratégias, tal como se tivesse diabetes ou um AVC. Como todas as doenças de longa duração não se curam, mas é possível tentar controlá-las.
Quais são os riscos associados à doença? Uma pessoa numa fase eufórica tem uma relação com o dinheiro que é problemática, por exemplo. Convence-se que é muito competente. Se for um automobilista convence-se que é o melhor condutor. Isto leva a comportamentos de risco. Se for um empresário tem a ideia que determinada coisa é um grande negócio e investir todo o dinheiro que tiver nisso. É aconselhado quando se diagnostica a doença, que entreguem os cartões bancários a alguém de confiança, por exemplo.

“Uma doente dizia-me que qualquer homem a tentava”

Em que medida os prazeres da vida se relacionam ou interferem com a doença? Quando não estão controlados e entram numa fase eufórica, tanto homens como mulheres, são hiperactivos sexualmente. As taxas de divórcio são elevadas nestas pessoas porque não conseguem ter uma relação monogâmica. Uma doente dizia-me, por exemplo, que andava na rua e que qualquer homem a tentava.
Quais são os riscos para os doentes e para quem lhes está próximo? Uma doente bipolar que entrevistei, advogada, casada, com filhos, confessava-me o mal-estar que sentia pelo facto de ter de pedir ao marido dinheiro, que ela ganhava e que era dela, até para beber café. Outro doente contou-me que tinha uma conta conjunta com a mulher, onde juntavam dinheiro para o casamento do filho. Um dia ele achou que tinha a oportunidade de fazer um grande negócio e sem a consultar levantou todo o dinheiro para investir. Entretanto entrou em fase depressiva com o receio da reacção da mulher quando ela descobrisse que não havia dinheiro e que o negócio foi ruinoso.
Estes doentes correm sérios riscos de suicídio? As taxas de suicídio são extremamente elevadas. Na fase depressiva pode suicidar-se porque, segundo os psicólogos, há uma grande falta de auto-
-estima. Na fase eufórica alguns suicidam-se por excesso de confiança. Por exemplo um bipolar na euforia que esteja com um carro na mão circula a grandes velocidades.
Sendo uma doença com fortes implicações sociais é conhecida e valorizada pela sociedade? O diagnóstico, às vezes, é feito ao fim de uns anos porque as pessoas vêem determinado comportamento e dizem que é a maneira de ser de alguém. O diagnóstico da doença mental é altamente estigmatizante. É qualquer coisa que se cola à identidade do indivíduo e cola-se para sempre.
O que é que a sociedade pode fazer? Há multifactores que causam a doença bipolar. Pode ser hereditário, mas pode ser uma aprendizagem pela socialização, por exemplo de um filho de um bipolar que acaba por responder da forma como estava habituado a ver. Há condições sociais que facilitam o desenvolvimento da bipolaridade, como o desemprego, o divórcio, o falecimento de alguém próximo, o luto amoroso… Os grupos de auto-ajuda para a doença ensinam estratégias para minimizar os efeitos dos stressores sociais. Por isso, é importante estudar a vida destes doentes na sociedade, saber como organizam a que vida, como é que aprendem a viver com algumas limitações.
Os bipolares conseguem amar? Conseguem amar muito intensamente, de paixão e até de forma doentia. Falei com um doente que foi até à Escócia atrás de uma jovem que tinha conhecido em Lisboa, sem dinheiro, passando dificuldades e que acabou por ser internado naquele país. Não era correspondido e entrou em depressão.
O que é que uma pessoa próxima de um doente tem de fazer? É fundamental que exista uma formação. Muitas vezes as pessoas aprendem passando pela experiência e não procuram conhecimento técnico para saberem lidar com as situações. Quem recorre às associações e grupos de ajuda são indivíduos altamente escolarizados, habituados a irem à procura de informações.

Antidepressivos podem revelar doença

Quais são os principais problemas dos familiares dos doentes? Um bipolar consegue desestruturar uma família, desestabilizar as pessoas que lhe estão próximas e que começam a viver em tensão permanente. Um doente destes é incerto e imprevisível. Enquanto o bipolar não tenta regrar a sua vida tem tendência para comportamentos aditivos como o alcoolismo ou o consumo de drogas que lhe causam um estado de euforia, que alivia a pressão.
Como é que se percebe que uma pessoa é bipolar? Às vezes descobre-se a bipolaridade por causa da reacção aos antidepressivos que são receitados quando uma pessoa vai ao médico pensando ter uma depressão comum. Porque passa rapidamente do estado depressivo a um estado eufórico, o que não acontece numa depressão unipolar.
Quais as implicações para quem passa grande parte da sua vida medicada? Uma das coisas que se toma muito para a bipolaridade é o lítio, que é uma substância altamente tóxica, que obriga a fazer análises ao sangue com regularidade. A margem entre a toxicidade e a dimensão terapêutica é muito apertada. Uma mulher que pense engravidar tem de saber que o lítio pode influenciar o feto, que pode ter malformações, o que é uma situação muito difícil de gerir. Ou abdica de ter o filho ou decide ter, deixa de tomar o lítio e é internada a seguir. Estes dilemas são de difícil resolução.

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