Entrevista | 03-05-2023 10:00

A PIDE deixou marcas difíceis de apagar

A PIDE deixou marcas difíceis de apagar
Irene Pimentel esteve em Santarém no âmbito das comemorações do 25 de Abril

A polícia política da ditadura do Estado Novo sustentava-se numa rede de informadores que andaria pelos 20 mil quando se deu o golpe militar de 25 de Abril de 1974.

A denúncia premiada era um expediente que ajudava a arredondar o salário ou a subir na carreira e que minou muitas relações. A historiadora Irene Pimentel esteve em Santarém a falar sobre a PIDE e a sua rede de ‘bufos’ que ficou como paradigma da ditadura.

Professores e estudantes universitários, médicos, advogados, padres, funcionários públicos, mas também assalariados rurais, operários fabris e até militantes do PCP: a rede tentacular de informadores da polícia política do Estado Novo abraçava todos os sectores da sociedade e fazia inculcar a ideia de que era uma organização omnipresente e omnisciente. A intenção era dissuadir o activismo político contra o regime através do medo e da repressão.
Quando aconteceu a revolução de 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura iniciada com Salazar e continuada por Marcello Caetano, estima-se que a rede de informadores da PIDE/DGS tivesse 20 mil informadores, depreciativamente também conhecidos por ‘bufos’ ou ‘chibos’, entre outros apodos pouco simpáticos. Era muita gente envolvida na sórdida missão de delação para um país tão pequeno, mas uma realidade que, mesmo assim, estava longe da ideia feita de que nesses tempos andaria meio país a denunciar outro meio.
Isso mesmo refere a historiadora Irene Pimentel, que na sexta-feira, 21 de Abril, esteve em Santarém para apresentar o seu mais recente livro, “Os informadores da PIDE – Uma tragédia portuguesa”, nas instalações a Sociedade Recreativa Operária de Santarém. A investigação socorre-se dos dados disponíveis em arquivo e os nomes de informadores lá plasmados são aqueles que já foram tornados públicos por via de processos judiciais ou de notícias. Quanto aos restantes, fica-se pelos pseudónimos porque não há necessidade de fazer mais ‘vítimas’.
A professora universitária e investigadora, especialista em História contemporânea, reconhece que este é um tema que tem sido tratado com pinças ao longo dos anos, até pelos impactos que a revelação dos nomes da vasta rede de informadores poderia ter na sociedade portuguesa. Com o 25 de Abril, “houve uma ruptura em Portugal mas também se quis varrer rapidamente para debaixo do tapete essa ideia de que havia muitas pessoas a trair outras pessoas”, considera Irene Pimentel.
Mesmo assim, do que se conhece, abundam casos de denúncias entre familiares, amigos, colegas de trabalho ou namorados desavindos. Feridas difíceis de sarar para quem, mais tarde, soube que tinha sido denunciado por pessoas da sua confiança e intimidade aos esbirros do antigo regime, muitas vezes por situações comezinhas e não propriamente por um activismo político relevante.

Não faltavam candidatos
Outro aspecto que Irene Pimentel considera marcante na sua investigação é a quantidade de candidaturas a informador que a PIDE/DGS recebia. Gente que queria mostrar serviço à ditadura, fosse para ganhar mais algum dinheiro num país de salários miseráveis, fosse para subir na carreira profissional ou por simpatia ideológica com o regime. “Não tinha a noção que houvesse tantos candidatos, pessoas que escreviam muito mal, analfabetas, que diziam que gostavam de ser informadoras nos locais em que trabalhavam”, diz a autora.
Aos informadores recrutados eram atribuídos pseudónimos só conhecidos pelos seus “controladores” dentro da PIDE. Na revolução de 25 de Abril de 1974, a PIDE conseguiu queimar muitos ficheiros antes de ser ocupada e, com isso, terá apagado as provas que associavam nomes aos pseudónimos, pelo que muitos informadores continuaram (alguns ainda continuarão) a viver a sua vida normalmente, sem terem prestado contas pela sua colaboração com a polícia política da ditadura. “Há uma diabolização da PIDE que fica quase como o paradigma do antigo regime”, diz Irene Pimentel para ilustrar as marcas profundas que essa polícia política deixou entre muitos portugueses.

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