Entrevista | 14-05-2023 12:00

Olinda Sequeira: institutos politécnicos descentralizaram e democratizaram o ensino

Olinda Sequeira: institutos politécnicos descentralizaram e democratizaram o ensino
Olinda Sequeira é directora da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes desde 1 de Junho de 2022

Olinda Sequeira tomou posse como directora da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA) no dia 1 de Junho de 2022.

Assumiu o desafio com sentido de missão e vontade de fazer melhor. Tinha noção de que a escola vivia um período negativo devido à falta de estabilidade directiva. “Posso dizer que quando entrei nesta casa as pessoas estavam um bocadinho zangadas. Temos trabalhado em conjunto e hoje acho que a escola está diferente para melhor”, afirma a O MIRANTE durante uma entrevista realizada no seu gabinete nas instalações da ESTA junto ao Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes (MIAA).

O que pode o ensino politécnico trazer de diferente aos jovens?

O factor diferenciador é a capacidade de ensinar os jovens tendo em conta as realidades do mercado de trabalho e a proximidade que temos com os parceiros locais sobretudo com o tecido empresarial. Temos um ensino muito vocacionado para preparar os jovens para o mercado de trabalho. Por exemplo, estamos neste momento a implementar um projecto no IPT (Link me Up 1000 Ideias), que possibilita aos alunos investir na sua aprendizagem e competências com um parceiro local que pode ser uma empresa, associação ou instituição.

Ainda assim, o ensino politécnico continua a ser desvalorizado?

A imagem que as pessoas têm do ensino politécnico está a mudar. O preconceito em relação às universidades já não é tão evidente. Existem especificidades que os politécnicos têm que as universidades não têm, tal como existem cursos e determinadas pós-graduações que as universidades têm e que os politécnicos não têm. Mas há uma grande vantagem no ensino politécnico que é a proximidade entre alunos, professores e até direcção. Nesta escola há vários exemplos de alunos que se não estivessem a estudar no ensino politécnico jamais tirariam um curso superior, exactamente porque são acompanhados de perto.

Que argumentos utilizaria para convencer um aluno a vir estudar para a ESTA?

A ESTA tem uma oferta formativa com cursos de grande especificidade, mas quero insistir na questão da familiaridade. Não há dia em que não pergunte aos alunos, quando nos encontramos nos corredores, como estão e como lhes têm corrido as coisas. Muitos pais têm o meu número de telemóvel para me poderem ligar sempre que precisarem. Na minha tomada de posse disse que queria uma escola aberta. A ESTA hoje é uma escola aberta e tem uma direcção que tem sempre a porta aberta para quem quiser entrar.

Quantos cursos tem disponíveis?

Temos cinco licenciaturas disponíveis: Computação e Logística, Informática e Tecnologias Multimédia, Engenharia Mecânica, Comunicação Social e Cinema Documental. Os últimos dois cursos têm tido um aumento de procura significativo. Por incrível que pareça o curso de Engenharia Mecânica tem sido cada vez menos uma primeira escolha dos alunos. Há um afastamento dos jovens das engenharias e não consigo compreender porquê uma vez que as engenharias têm uma saída profissional interessantíssima, principalmente Engenharia Mecânica. O mesmo se passa com a licenciatura em Informática e Tecnologias Multimédia que também tem pouca procura, estranhamente.

Quais os aspectos que podem melhorar em relação ao posicionamento da ESTA no mercado do ensino?

A nossa forma de comunicar e chegar às pessoas. Actualmente temos um gabinete de comunicação a funcionar bem e uma pró-presidente para a comunicação e para a divulgação da oferta formativa. É um aspecto que está a ser consolidado sobretudo com a nossa presença em eventos onde há essa concentração da oferta formativa.

Assimetrias entre litoral e interior

Os politécnicos também são importantes para descentralizar o ensino?

Sem dúvida que têm essa função fantástica, a de descentralizar e democratizar o ensino. Nós contribuímos para a democratização do ensino. Se não existíssemos grande parte da nossa população activa não tinha acesso ao ensino superior. Mas continuamos a ter um grave problema de assimetrias entre o litoral e o interior. Um jovem escolhe quase sempre o litoral pela sua atractividade e por causa dos serviços disponíveis. A realidade é que hoje em dia muitos jovens não vão para determinado estabelecimento de ensino pelo curso e pela importância que pode ter no seu futuro…vão pela cidade e pela oferta de lazer que a mesma lhes pode dar.

Como deve ser a relação entre escolas e empresas?

Sou adepta de sistemas abertos e acho sempre que temos capacidade para evoluir. Consigo compreender muito bem a linguagem do tecido empresarial porque trabalhei com empresários e fiz muitos projectos de investimento. Acho que é impensável não existir uma sinergia entre estabelecimentos de ensino e empresas. Temos excelentes relações com empresas da região; os nossos alunos desenvolvem produtos em colaboração com as empresas da região, muitos deles inovadores e estão no mercado. Há um sigilo que deve ser respeitado por isso não há esse reconhecimento público.

Considera que os jovens têm actualmente mais receio em empreender?

Continua a existir uma grande resistência ao fracasso. É uma questão cultural. Estes jovens não são tão empreendedores como os de há 40 anos, por exemplo, porque esses tinham de arriscar para terem alguma coisa e garantirem a sua estabilidade financeira. Hoje as condições de vida evoluíram e os jovens não precisam de trabalhar tão cedo. Ficam muito mais tempo em casa dos pais e, por isso, ficam muito mais acomodados, infelizmente. Por outro lado, actualmente é mais difícil empreender pelas questões burocráticas necessárias e pelas verbas que são necessárias investir logo à partida.

Hoje é mais fácil tirar uma licenciatura porque há menos exigência?

Quando entrei para a faculdade na década de 80 não havia vagas suficientes para a procura de alunos. Era difícil para quem estava em regiões mais isoladas ter acesso ao ensino superior. Actualmente o acesso ao ensino superior está muito mais facilitado no sentido em que existem mais vagas, portanto, é possível um maior número de alunos tirar um curso. O termo licenciatura deixou de ser elitista, foi democratizado e isso pode criar a imagem de que existe algum facilitismo, mas, no meu ponto de vista, não existe.

O ensino não vive demasiado dependente das notas?

O ensino não pode viver agarrado às médias dos alunos. É preciso trabalhar um conjunto de características e competências junto dos alunos. Existem alunos que podem ter uma média mais baixa, mas que podem ser fantásticos a executar. O ensino tem de ser cada vez menos teórico e ter uma vertente mais prática. O ensino não é só estar dentro da sala de aula.

A crise económica e social que vivemos pode refletir-se na procura dos estudantes?

É uma situação que me preocupa. Existem famílias que perderam o poder de compra e isso vai condicionar a disponibilidade para colocar um filho a estudar. Acresce ainda que temos um problema gravíssimo na área do imobiliário, com preços de casas que muitas vezes são proibitivos para algumas famílias.

Quantos alunos estão matriculados na ESTA?

Cerca de 465 alunos matriculados. Temos também um corpo docente com cerca de três dezenas de professores. Deixe-me dizer-lhe que temos feito um grande esforço para implementarmos na ESTA uma gestão próxima e articulada, onde a opinião de todos é importante, mas os objectivos têm de ser comuns. Nesta casa só se vai longe se existir relações de respeito, cordiais e próximas.

Uma académica com visão prática

Olinda Sequeira é casada, mãe de três filhos e tem uma irmã mais nova nove anos para quem diz ter sido uma segunda mãe. Com os seus pais tem uma relação muito próxima, “profunda e intensa”, afirma com orgulho. Natural de Torres Novas, licenciou-se em Economia pela Universidade Lusíada e doutorou-se mais tarde pelo ISEG na mesma área. Antes de ingressar na área do ensino trabalhou na Risa, uma empresa de contabilidade com sede em Vila Moreira, concelho de Alcanena. Foi por volta dos 30 anos que surgiu a oportunidade de integrar a equipa do Instituto Politécnico de Tomar, como professora do curso de Administração Pública. A partir daí o seu percurso fala por si; é investigadora na área da Eficiência e Produtividade das Organizações com aplicação de técnicas de fronteira e considera-se “uma académica com uma visão muito prática das coisas”.

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