Entrevista | 20-09-2023 15:00

Há um complexo de esquerda que faz mal ao serviço público de saúde

Há um complexo de esquerda que faz mal ao serviço público de saúde
Fernando Afoito, médico há quatro décadas, foi coordenador da saúde no distrito de Santarém entre 2003 e 2008

Fernando Afoito, médico há quatro décadas, foi coordenador da saúde no distrito de Santarém, entre 2003 e 2008, quando os dirigentes ainda mandavam e tinham orçamento, diz que há serviços onde os médicos ganham menos com mais qualidade, do que em serviços em que os profissionais são mais bem pagos.

Nesta entrevista, na cozinha da sua casa em Mação, o clínico diz que as medidas das autarquias para fixar médicos não são atractivas porque não permitem perspectivar uma carreira. Critica a burocracia que inunda os centros de saúde com atestados para tudo e mais alguma coisa, a falta de qualidade dos serviços de urgências que estão cheios, não porque há muitos mais utentes mas porque a mesma pessoa tem de lá ir duas e três vezes para resolver o seu problema. Diz que as Parcerias Público-Privadas vieram mostrar que é possível gerir bem o sector público da saúde, com menos gastos mas, como aconteceu com o Hospital de Vila Franca de Xira, o país continua a ser vítima de um complexo de esquerda desde 1974 com a revolução do 25 de Abril.

Há unidades de cuidados de saúde personalizados, unidades de saúde familiar de dois tipos, cada uma com condições e remunerações diferentes. Isso é que desmotiva os médicos? Há uma zona comum, que é actualmente os médicos serem mal pagos. Conheço unidades de cuidados de saúde personalizados com mais qualidade que algumas unidades de saúde familiar e com médicos a ganharem bastante menos. São os profissionais que fazem as casas e é preciso haver algum espírito de trabalho e dedicação.
Como é que vê a saúde com a nova geração de médicos? As novas gerações de médicos pretendem ter mais tempo para eles. Pretendem viver mais a família, o lazer, e não estarem tão entranhados na profissão. Por um lado é bom. Por outro, assiste-se a uma coisa espectacular, que é o país ter um rácio de médicos por habitantes que é dos melhores da Europa e parece que não há médicos em Portugal. Se neste momento acabasse o curso e estivesse a morar em Lisboa ou no Porto certamente não viria para Mação ganhar 1.500 ou 1.800 euros, ter de me deslocar, de arranjar alojamento. Os médicos, bem como outros profissionais de saúde, não são aumentados há mais de 10 anos.
O problema não está em formar mais médicos? Em Portugal não faltam médicos, o Serviço Nacional de Saúde é que cada vez tem menos médicos. Cada vez há mais oferta no privado. A questão está em distribuí-los, em incentivá-los a irem para a província dando-lhes condições. Há municípios da região que dão incentivos à fixação de médicos, como casa e até transporte, e mesmo assim eles não vêm. Estamos a falar de algo por dois ou três anos e as pessoas não se estão a ver a fazerem vida e carreira nessas zonas. O isco é bom, mas é curto.
Um dia destes a medicina deixa de ser uma profissão atractiva? Neste momento já há alguns cursos em que a média é mais alta que em Medicina, em algumas engenharias. Acho que as coisas vão mais tarde ou mais cedo equilibrar-se porque nem os privados podem absorver tudo nem o Serviço Nacional de Saúde pode ficar sem nada.
As empresas fornecedoras de mão-de-obra médica são vantajosas para o serviço público? É uma forma de se dizer que se gasta menos com recursos humanos, porque essa verba não entra nas contas como despesas com pessoal, mas como prestação de serviços. Nota-se bem nos serviços de urgência em que os prestadores de serviços, que vão hoje a Castelo Branco, amanhã a Vila Franca de Xira e no outro dia a Abrantes ou a Santarém. As urgências não são o que eram há 20 anos, em que havia os internistas do hospital a fazer a gestão do serviço. Por isso é que as urgências têm cada vez mais gente, porque as pessoas têm de ir lá uma, duas e três vezes para resolver a sua situação.
A direcção executiva que o Governo criou pode alterar este cenário? Há um problema no país, que já no meu tempo havia, que é a centralização da gestão no ministério. A delegação da gestão numa direcção executiva, não é mais do que um amortecedor do que vai acontecendo ao ministro porque o ministério sempre leva muita pancada.
E como é que vê as medidas que têm sido propostas por essa direcção? A direcção executiva tem um modelo de gestão praticado na zona do Porto. Mas o Alentejo, o Algarve, ou mesmo Lisboa, são coisas completamente diferentes, que não têm a mesma lógica de funcionamento. Fui director de um centro de saúde na década de 1990 e na altura tinha mais autonomia do que têm actualmente os directores dos agrupamentos de centros de saúde.
Concorda que sejam extintas as administrações regionais de saúde com a implementação das Unidades Locais de Saúde? Parece que voltamos atrás 30 anos, às administrações que eram distritais. Mas há um problema, que é o político. A decisão está sempre em Lisboa. Nos anos que levo de carreira nunca vi descentralizar de uma forma objectiva e em que os dirigentes possam decidir.
Os dirigentes das estruturas intermédias são meros peões decorativos? Não têm qualquer autonomia, a começar pelo dinheiro. Um director de um agrupamento tem um orçamento menor do que tinha um director de um centro de saúde. O utente não quer saber se há direcção ou qual é o orçamento, quer ter serviços de saúde atempadamente e com qualidade. Mas para isso acontecer a gestão tem de estar mais perto da decisão.
Vai mudar alguma coisa com as transferências de competências na área da saúde para os municípios? Basicamente é a gestão de auxiliares e dos edifícios. É o Estado a livrar-se do que é mais chato, das despesas de manutenção. Constroem-se grandes centros de saúde, edifícios espectaculares, mas depois ninguém mantém o espaço.
As câmaras deviam assumir um papel mais interventivo na gestão dos centros de saúde? Acho que os municípios não querem isso. A área da saúde é tão complexa que a maior parte dos presidentes de câmara ficavam muito mais desgastados.

Não tem lógica manter extensões com médico uma vez por semana

Há unidades de saúde a mais na região? Não faz sentido haver extensões de saúde em que o médico vai uma vez por semana. Muitas deviam fechar. Quando fui para a sub-região de saúde de Santarém havia 167 extensões e fechei algumas. Estamos a dizer às pessoas que são cidadãos de segunda. E o argumento da distância não colhe porque há situações em que a pessoa sai da extensão e vai à farmácia mais próxima que é a uns quilómetros, perto do centro de saúde. Politicamente é sempre difícil reduzir esta dispersão.
As câmaras enganam as pessoas ao fazerem extensões de saúde sabendo que não há médicos? Não estão a prestar um bom serviço à população dizendo que têm uma extensão em que o médico só vai uma vez por semana. Estão a induzir uma procura que não é satisfeita pela oferta.
Como classifica o facto de o Governo ter acabado com a Parceria Público-Privada do Hospital de Vila Franca de Xira? Esta situação e outras acontecem por causa do complexo de esquerda que o país continua a manter, quase meio século após o 25 de Abril, e que é prejudicial à saúde! As Parcerias Público-Privadas vieram mostrar que é possível gerir bem a saúde. Houve uma pressão enorme do PCP e do Bloco de Esquerda. Há um entendimento que o Estado tem de ser tudo, o financiador, o prestador, o gestor… em algumas áreas não pode ser assim.
Esse modelo de gestão privada seria benéfico aos hospitais públicos do Médio Tejo? Não me chocaria. Se bem que o privado iria propor acabar com dois hospitais ou com os três e fazer só um, para os médicos não andarem a correr de um lado para o outro.

Dirigentes que são figuras decorativas, burocracias e os processos na nuvem

Quando foi o responsável pela Sub-região de Saúde de Santarém mandava alguma coisa? Mandava, porque tinha orçamento. Hoje não aceitaria um cargo do género porque não tenho jeito para representação.
Na altura provocou algumas polémicas, como o cancelamento do contrato com o Hospital de Alcanena. Não tive grandes problemas, foi mais barulho que outra coisa. Na prática, o centro de saúde dava a resposta necessária.
Em 2005 começou a agudizar-se a questão da falta de médicos com a saída de médicos de Rio Maior, recorda-se? Mesmo assim mantivemos uma boa capacidade de resposta. Em comparação com a actualidade estamos a falar de trocos. Mas não deixou de me preocupar porque as pessoas têm de ter uma resposta atempada e de qualidade.
O que fez que acha que marcou a saúde na região? Conseguimos ser dos primeiros distritos do país e o primeiro da região de Lisboa e Vale do Tejo a ter a informatização completa. Isso foi feito com a autonomia que permitia fazer algumas alterações no orçamento.
Foram pioneiros na informatização, mas os centros de saúde devem ter parado nessa altura em termos de uso das tecnologias que facilitem a vida aos utentes. Esse é outro problema e está ligado à cada vez maior centralização dos serviços. Nessa altura tínhamos em Santarém um bom gabinete de informática que desapareceu e agora as situações são resolvidas a partir do Porto.
O que é que as tecnologias da informação podem vir a mudar a saúde? Daqui a uns anos vamos ter, espero, os processos clínicos na nuvem e o utente vai dar a chave para os médicos terem acesso ao seu historial clínico em qualquer parte do país ou do mundo. Neste momento, por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde não tem acesso aos dados clínicos do utente no privado, e assim isso pode mudar.
E a burocracia? Continua! Os centros de saúde continuam a ser altamente sacrificados com papéis e papelinhos, atestados para faltar, para trabalhar, para ir caçar, para navegar… isto não tem lógica alguma.
Os médicos pensam mais em dinheiro ou em resolver os problemas dos doentes? Há gente que pensa assim.

“Continuo a trabalhar porque gosto da minha profissão”

Reformou-se e decidiu continuar a trabalhar, mas no privado, porquê? Porque não quero perder a mão, porque me sinto bastante capaz. Faço três períodos por semana. Vou deixar a medicina quando perceber que estou a mais. Continuo a trabalhar ainda porque gosto da minha profissão e porque há pessoas que continuam a procurar-me.
Alguma vez se sentiu impotente? Sinto-me algumas vezes desiludido por não ter conseguido fazer um diagnóstico mais atempado, mesmo que isso seja só uma sensação. Desiludido por ver pessoas a sofrerem. Tenho a consciência tranquila porque nunca contribui para que as coisas corressem mal.
Concorda com a eutanásia? Concordo se for num caso limite, em que a pessoa não tem problemas de iliteracia, que sabe o que está a fazer e quando a medicina esgotou todas as suas capacidades.
E o aborto? Também concordo, desde que seja medicamente viável, seja por razões óbvias, por razões sociais também. Sou contra o aborto quando não estando esgotadas todas as outras hipóteses como o planeamento familiar. Continua a haver muita iliteracia nesta área somada ao facto de as novas gerações começarem a ter relações sexuais muito cedo e muitas vezes não estão preparados para serem pais. É esquisito num mundo em que a informação corre tão depressa que ainda existam situações destas.

Criação da unidade pioneira que lançou os cuidados continuados em Portugal
Como é que criou um centro de cuidados a dependentes e apoio domiciliário pioneiro numa zona de interior? Foi um desafio que me lançaram e à enfermeira Helena Belo, que já morreu com um carcinoma. Na década de 80 Mação tinha um hospital em que a maior parte das camas estavam ocupadas por doentes crónicos. Colocou-se a hipótese de fechar o hospital e criar um serviço de apoio integrado, que acompanhasse o utente no domicílio e quando fosse necessário passasse para o centro de apoio a dependentes. Criámos os primórdios dos cuidados continuados em Portugal e até recebemos um prémio da Misericórdia de Lisboa.
O que é que aconteceu para a unidade ter fechado? Neste momento é um lar de idosos. Acabou ao fim de cinco anos por falta de capacidade. Uma unidade destas precisa de médico e enfermeiros em permanência.
Não tem pena de ter visto morrer um projecto que foi um modelo para o país? Fiz o que tinha de fazer, que era desenvolver o projecto que correu muito bem, que mostrou que era possível haver uma articulação entre municípios, segurança social e serviços de saúde.
Como é que estão os cuidados continuados no país? Estão curtos, o país precisa de mais unidades. Há muitos utentes nos hospitais à espera de uma vaga. E não há mais unidades porque o Estado comparticipa com verbas que não contribuem para uma boa qualidade de serviço.

Dos casos chocantes do bebé prematuro e do homicídio à história picante do rabo

Em quatro décadas de medicina quais foram as situações que o chocaram? Uma vez bateram-me à porta a meio da noite. Uma senhora tinha tido um aborto espontâneo e o bebé ainda estava vivo, acabando por falecer. Quando durante uns anos também fiz autópsias, porque não havia quem as fizesse, houve um caso de um senhor que matou a mulher e o filho com tiros de caçadeira à queima-roupa e depois suicidou-se. Ficaram os três sem as faces.
Também deve ter histórias mais curiosas, mais engraçadas… Uma vez apareceu-me um homem a queixar-se que tinha um problema no rabo. Fui observar o que se passava e vi algo branco e com uma pinça puxei e saiu um bocado de plástico. Pensei que estava resolvido, mas reparei que tinha mais alguma coisa. Era um pau envolto num saco de plástico que servia de preservativo.

43 anos de medicina com dificuldade em dizer não e dando pouca saída a políticos

Nasceu no Cartaxo, tirou Medicina em Coimbra por influência de um primo que estava no curso e de um tio que era o chefe da secretaria dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Fez tropa em Tomar e fez carreira de médico de família em Mação. Fernando Manuel de Almeida Afoito, 69 anos, começou a carreira em Alcobaça, onde esteve poucos meses até ser chamado como médico para o serviço militar. Nesse ano entraram 75 médicos, recorda, para o Exército. Esteve no Regimento de Infantaria de Tomar e depois prestou serviço no presídio militar de Tomar, onde se cruzou com o preso Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega do 25 de Abril e que ficou recluso por causa do grupo FP25.
Quando voltou a Alcobaça um colega de curso que estava em Mação propôs-lhe trocar de centros de saúde. Assentou arraiais na vila do norte do distrito. Ainda vai às vezes ao Cartaxo, menos desde que a mãe morreu há quatro anos, para visitar os primos ou ir ao almoço da inspecção militar. É uma pessoa que está na vida de uma forma calma com dificuldade em dizer não. Reformou-se do Serviço Nacional de Saúde ao fim de 43 anos para ter mais tempo para ele e para a família apesar de ainda dar umas consultas no privado. Antes assegurava com mais dois ou três médicos o funcionamento do centro de saúde sete dias por semana. Ultimamente só restava ele e outro colega. Foi das poucas unidades do distrito que conseguiu manter-se a funcionar aos fins-de-semana. O desgaste obrigou-o a parar.
Ao longo da carreira criou muitas amizades e uma relação de proximidade com a população, que lhe levava ovos, laranjas ou outros produtos como forma de agradecimento. Acorda sempre cedo, por volta das 6h30. Um hábito que tem dificuldade em largar. Quando estava a dar consultas era geralmente o primeiro a chegar antes das 8h00. Aos políticos deu pouca saída e foi o único coordenador de uma sub-região de saúde, a de Santarém, que abrangia todo o distrito, que na altura sobreviveu a dois governos, um do PSD outro do PS. Só teve dois problemas com políticos, um com o então presidente da Câmara de Torres Novas, António Rodrigues, que queria correr com ele do lugar. O outro com Correia de Campos por causa das obras no Centro de Saúde do Cartaxo, que o ministro queria que se fizessem num mês quando eram precisos seis meses.
Diz que esteve em cargos de gestão da saúde mostrando que estava lá para trabalhar. Considera que o país está mergulhado numa “partidarite aguda”, que está na moda o politicamente correcto e que tem havido na saúde uma “política de apagar fogos”. Acabou o curso de Medicina com 14 valores dizendo que essa nota hoje valeria 19.

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