Entrevista | 18-12-2023 15:00

“Há gente que está na política para resolver os seus problemas”

“Há gente que está na política para resolver os seus problemas”
Joaquim Banha foi autarca no concelho de Coruche entre 1976 e 2021

Joaquim Banha foi autarca entre 1976 e 2021, sempre eleito pelo Partido Socialista.

Foi presidente da Junta de Freguesia de Santana do Mato, vereador e eleito da Assembleia Municipal de Coruche e é uma figura emblemática do PS na região, que tem como imagem de marca a barba branca e o chapéu de cowboy feito em cortiça. É um apaixonado pela rádio local da sua terra, faz criação de cães de raça e participa com eles em concursos. É uma voz livre que não se refugia em eufemismos quando dá opinião, reconhecendo que o magoa ver pessoas do seu partido associadas a casos de corrupção e tráfico de influências.

O que o orgulha mais de ter feito enquanto presidente de junta de freguesia?
Quando cheguei à Junta de Santana do Mato não havia uma rua alcatroada. Hoje a maioria está asfaltada. Existe saneamento básico em praticamente toda a freguesia mas falta numa zona. É um dos investimentos que gostava de ver concretizado. A colocação de saneamento básico está projectada e esteve incluída no orçamento da Águas do Ribatejo mas acabou por não acontecer. Não faz sentido algumas pessoas não terem saneamento básico. O que mais gostei de fazer enquanto presidente de junta foi poder ouvir as pessoas, até as que não tinham razão. O presidente de junta é o primeiro contacto da população com o poder político.
O que faz falta no concelho de Coruche?
Prioridade é a construção do IC13 que vem de Portalegre e está interrompido em Alter do Chão. Deveria passar em Ponte de Sor, Couço e está previsto passar em Coruche e fazer a ligação à Ponte Vasco da Gama. Havia planeamento para isso. Também faz uma falta tremenda a ligação a Santarém através do IC10. É das obras mais importantes para tirar os milhares de camiões que todos os dias atravessam a vila.
Faz falta um hospital no sul do distrito de Santarém?
Coruche foi prejudicado com a construção de três hospitais no norte do distrito quando já havia o Hospital de Santarém. Não há necessidade de ter três hospitais com distância de 40 quilómetros. Deveriam ter feito um no sul do distrito. Aí há culpa do meu camarada Jorge Lacão, que puxou a brasa à sua sardinha por ser de Abrantes. Estamos a 40 quilómetros de distância de Santarém e a 80 de Évora. Não temos as mesmas condições de acesso a cuidados de saúde de quem está mais perto de unidades hospitalares.
As urgências do Serviço de Atendimento Permanente (SAP) de Coruche deveriam reabrir durante 24 horas?
Não havendo um hospital nas proximidades é uma necessidade ter as urgências do SAP de Coruche durante 24 horas. Se avançar a Unidade de Saúde Familiar será uma vantagem. A limitação de horários é complicada. A maioria das pessoas é idosa, muitas não têm os filhos por perto e têm que se deslocar em ambulâncias para Santarém ou outros locais mais longe.
Acredita que o destacamento territorial da GNR regressa a Coruche no final das obras do posto?
Quero acreditar que sim e mantenho a esperança que isso aconteça porque é fundamental termos as forças de segurança no nosso concelho. Se isso não acontecer vou fazer barulho, se ainda cá estiver. Os meus camaradas, se estiverem no Governo, vão ter que me ouvir.
Consegue apontar falhas ao executivo municipal do seu partido em Coruche?
Há sempre algumas falhas. Houve construção de estradas que ficaram mal acabadas, em todo o concelho, e não foi dado apoio às obras como deveria ser. A culpa ou é do executivo ou dos responsáveis técnicos. Por vezes, sinto que os técnicos estão quase a governar e não gosto disso porque quem vai a eleições são os políticos.
Quem daria um bom substituto de Francisco Oliveira na presidência da Câmara de Coruche?
Ainda é muito cedo para falar nisso. Posso ter alguma ideia mas prefiro não falar nisso por enquanto. Ainda tem que ser discutido e aprovado na concelhia do PS.
Ainda vai aos congressos do PS?
Sempre que posso vou. Há duas semanas estive em Santarém na apresentação da candidatura de Pedro Nuno Santos a secretário-geral do PS, por achar que é a melhor opção para o partido neste momento. No entanto, quem ganhar as eleições será o meu candidato a primeiro-ministro.
O que pensa da queda do Governo socialista de António Costa?
Foi um golpe de Estado porque não o conseguiam tirar de lá por votação normal. Foi a política de direita a entrar no sistema judicial, o que é muito mau. Nunca pensei que a Procuradora Geral da República se deixasse manobrar assim. Tinha muita consideração por ela.
Magoa-o ver militantes do seu partido associados a casos de corrupção e tráfico de influências?
Muito. Aí há uma falha por parte de António Costa e assim que estiver com ele vou dizer-lhe. Ter ido buscar Vítor Escária para chefe de gabinete foi um erro tremendo porque ele já tinha criado problemas no Governo de Sócrates. Mais valia ter ido buscar alguém sem experiência.
A promiscuidade entre negócios e política é uma realidade difícil de erradicar?
É capaz de não ser fácil. Enquanto eu e muita gente entrou na política a pensar em ajudar os outros, há outras pessoas que entram na política para resolverem os seus problemas. E isso há em todos os partidos. Por isso é que a classe política está tão descredibilizada. Quando digo isto não estou a falar de António Costa, que considero um homem sério.
Enquanto autarca alguma vez sentiu pressão para fechar os olhos a situações menos lícitas?
Não, porque se calhar as pessoas também me conheciam e sabiam que não era possível pressionarem-me. Não nego que posso ter assistido a algumas coisas desse género, noutros partidos, embora comigo não tenha acontecido.
Há quem diga que a classe política tem vindo a baixar de nível. Qual é a sua opinião?
Acho que há um erro a fazer política. A campanha de candidatura de Barak Obama, nos EUA, foi espectacular e deveríamos copiar os bons exemplos. Já não há jovens disponíveis a ir para Santarém apoiar um candidato, por exemplo. Tem que haver uma mudança. Com comícios já não se vai lá. Copiem o que se fez com o Obama, que teve uma grande mobilização de jovens. Aqui não há essa mobilização. Ou vão ao encontro dos jovens para irem para a política ou vai ser difícil haver mudança e inovação no nosso país.

“Não avançar com a regionalização foi erro tremendo”

É um defensor da regionalização. Porquê?
Só nós é que não temos regionalização na Europa. Além de dar autonomia às regiões e uma governança directa e mais independente também teremos mais projectos apoiados pela União Europeia. Esse dinheiro está a ir para outros países da União Europeia (UE). Foi um erro tremendo do meu camarada António Guterres, que tinha a regionalização no programa e depois andou para trás quando quis fazer o referendo.
A maioria dos governos tem sido socialista. Porque é que a regionalização ainda não avançou?
Assumo que é um erro do PS e que a regionalização já deveria ter avançado há muito tempo. Lisboa continua a centralizar a governança com pessoas que não conhecem a realidade dos territórios. Com a regionalização seria tudo mais rápido e com menos burocracias. Acredito que um dia a regionalização vai acontecer mas os políticos têm que trazer o assunto para cima da mesa. Com a nova NUT que une Lezíria do Tejo, Médio Tejo e Oeste acho que vamos ser uma região mais forte, com capacidade de atrair mais dinheiro da União Europeia que contribua para o desenvolvimento do território.
Qual deveria ser a localização do novo aeroporto de Lisboa?
No campo de tiro em Samora Correia. Existem infraestruturas como a A13 que vem da A2, passa junto à carreira de tiro e as infraestruturas rodoviárias estão praticamente todas feitas. Em Alcochete só falta mesmo o aeroporto e a linha do caminho-de-ferro. Claro que essa solução iria desenvolver muito esta região, que precisa de novas empresas e empregos.
Trabalhou na TAP. Concorda com a sua privatização?
Concordo desde que o Estado fique com a maioria de percentagem para ter poder de decisão. Privatizar mas o Governo ter a maioria para controlar as empresas que se vão associar e podem querer retirar alguns voos do nosso país. Não podemos correr esse risco.

O mecânico de aviões que foi sindicalista e autarca

Joaquim Banha considera-se um homem de sorte e um privilegiado. Nasceu a 8 de Junho de 1940 em Santana do Mato onde reside. Foi criado com os avós paternos e é o único dos três irmãos que tirou um curso, na área da electromecânica, no antigo ensino industrial.
É o mais velho de três irmãos e quando o seu irmão do meio nasceu a sua mãe esteve algum tempo internada no hospital em Lisboa. Por esse motivo, a sua madrinha e tia, que o tratou como um filho, levou-o para casa dos avós paternos onde foi criado. “Com a minha mãe doente e o meu pai a trabalhar, a minha madrinha percebeu que eu teria mais ambiente familiar com os meus avós. E foi o que aconteceu. Tive sempre uma excelente relação com os meus pais e irmãos mas fui criado em casa dos meus avós”, recorda a O MIRANTE, acrescentando ter tido o privilégio de ter sido criado numa família mais abastada.
Após concluir a escola primária, aos dez anos, foi para a Escola Industrial de Santarém porque queria ser mecânico e já sonhava com aviões. Durante a semana ficava numa pensão de uns conhecidos da sua família. Com o curso de electromecânica feito, o primeiro trabalho foi numa oficina em Santana do Mato onde arranjava bicicletas. Numa altura em que não tinha trabalho foi para a agricultura mas cansou-se e arranjou emprego numa oficina da Mercedes, em Lisboa.
Entretanto, foi chamado a cumprir o serviço militar na Escola Prática de Engenharia em Tancos. Quando estava em Engenharia 1, em Lisboa, conheceu um tenente e foi com ele que teve contacto com as primeiras ideias políticas. Assim que saiu da tropa regressou à Mercedes, desta vez como electromecânico de camiões. Estava há mais de dois anos a trabalhar na refinaria em Lisboa quando abriu concurso para a TAP e começou a trabalhar na manutenção de aviões. Foi electromecânico da TAP quase 40 anos. Foi chefe de mecânicos, chefe de secção e terminou como formador. Conheceu vários países do mundo.
Ainda ingressou no ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) para tirar um curso mas nunca o concluiu porque começou com a actividade sindical e a política que lhe absorviam muito tempo. Nessa altura, casou e teve a sua única filha. Ficou viúvo por volta dos 30 anos depois da mãe da sua filha ter morrido devido a doença oncológica. “Foram tempos difíceis em que me dediquei muito à minha filha. Fiz questão de estar muito presente. Apesar de ser ateu, quando ela era mais crescida, e como eu andava muito no estrangeiro e os seus avós já tinham 70 anos, decidi colocá-la num colégio de freiras, muito bom. Foi a melhor decisão que tomei para o meu bem-estar e da minha filha”, explica. Numa viagem de trabalho à ilha da Madeira conheceu a sua segunda esposa, Rita Silva, com quem está há 42 anos.

Estado deveria apoiar mais as rádios locais e a imprensa regional

Gosta de estar actualizado, está atento às notícias e diz que a sua vida poderia ter passado pela comunicação social. Foi um dos fundadores do já extinto jornal O Ribatejo e da Rádio Voz do Sorraia, em 1986.Tem um gravador no carro e uma carteira equiparada à de jornalista para quando é necessário substituir alguém. Foi eleito no mês passado presidente da direcção da cooperativa A Voz do Sorraia – Emissor Regional do Concelho de Coruche mas já integrava os órgãos sociais como tesoureiro.
Garante que a rádio Voz do Sorraia não está em risco de fechar portas nem vai ser vendida. Na última assembleia-geral ficou definido que vai ser estudada a hipótese de continuar como cooperativa ou passar a empresa. “Acho que é mais viável funcionar como empresa. Somos mais de 20 cooperantes e há uns que se interessam mais pela rádio do que outros, como é normal. Se a cooperativa se transformar em empresa acho que a rádio pode evoluir e ficar mais segura financeiramente”, refere.
A cooperativa tem conseguido reduzir as suas dívidas. Actualmente deve cerca de 33 mil euros às Finanças e nove mil euros à Segurança Social. Há 15 anos a dívida à Segurança Social era de 178 mil euros e de 42 mil euros à Segurança Social. A rádio vive da publicidade e do apoio da Câmara de Coruche e de algumas juntas de freguesia. Há cerca de dois anos mudou de sede, onde pagava 400 euros mensais, e agora está num espaço do município, onde paga um valor simbólico de menos de 100 euros.
Joaquim Banha defende que deveria haver mais apoios do Estado às rádios locais e à imprensa local e regional. “O Estado está a falhar com a comunicação local e regional. A publicidade do Estado deveria também ser divulgada nestes órgãos de comunicação social. É uma falha grotesca não haver estes apoios. É assim que vão fechando rádios e jornais pelo país”, lamenta.

Um homem da rádio que faz criação de cães

Joaquim Banha viveu mais de 60 anos em Lisboa, onde tem casa, mas garante que a sua residência oficial foi sempre Santana do Mato. Actualmente já não vai tanto a Lisboa, apenas para visitar a filha e as duas netas. Diz, com um sorriso, que o que Lisboa tem de melhor é a estrada para Coruche. Começou a sua actividade sindical na metalurgia. No 25 de Abril de 1974 ia para o trabalho mas não o deixaram entrar nas instalações da TAP. Depressa ouviu falar na revolução e dirigiu-se, com o seu megafone e alguns colegas, para o Largo do Carmo para apoiar o movimento que iria mudar o rumo do país. Concorreu às primeiras eleições constituintes, em Santarém, pelo Movimento de Esquerda Socialista.
Foi autarca de 1976 a 2021, sempre pelo Partido Socialista tendo-se tornado militante no início dos anos 80 do século passado. Começou como membro da Assembleia de Freguesia de Coruche; passou pela Assembleia Municipal de Coruche e foi vereador da oposição em todos os mandatos de maioria CDU. Quando o PS conquistou a Câmara de Coruche, em 2001, Joaquim Banha foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Santana do Mato, onde cumpriu três mandatos, sempre com maioria absoluta. O último cargo político foi enquanto eleito da Assembleia Municipal de Coruche.
Está reformado há quase 20 anos mas mantém o bichinho da política. É uma figura reconhecida e acarinhada no concelho de Coruche e é conhecido em todos os congressos e iniciativas do PS por não largar o seu chapéu de cortiça, que é a sua imagem de marca, e a bandeira do partido que faz questão de empunhar.
Começou a criar cães quando trabalhava na TAP porque muitos cães iam ter ao aeroporto perdidos ou abandonados. Uma vez apanhou um dálmata que levou para a sua casa em Santana do Mato. Entretanto recebeu um telefonema de uma senhora que dizia ter perdido um animal daquela raça. “Ela foi até Santana do Mato com um motorista e quando percebeu que era o seu cão deu-me um cheque de 50 contos”, recorda. Devolveu muitos cães aos donos e também a outras pessoas que queriam cães.
Já teve dezenas de cães que participaram em diversos concursos e conquistaram títulos mundiais mas já deixou de vender animais. Ainda faz criação de cães, de raça boxeur, e participa em concursos mas neste momento tem apenas duas cadelas. A mais velha, de nome Santa Clara, venceu concursos internacionais e não vai ter mais ninhadas. “Não faço disto negócio, é só porque adoro cães e passei essa paixão à minha esposa. Custa muito quando morrem, fazem parte da família, e por isso é que já não tenho tantos”, confessa.

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