Entrevista | 27-03-2024 15:00

Saúde na Lezíria tem uma nova líder que não vem da política e está a arrumar a casa

Saúde na Lezíria tem uma nova líder que não vem da política e está a arrumar a casa
Tatiana Silvestre é a primeira presidente da Unidade Local de Saúde da Lezíria que entrou em funcionamento a 1 de Janeiro deste ano

Tatiana Silvestre é a primeira presidente da Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria), que entrou em funcionamento a 1 de Janeiro e que integra na mesma gestão o Hospital Distrital de Santarém e os centros de saúde dos concelhos de Almeirim, Alpiarça, Cartaxo, Chamusca, Coruche, Golegã, Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém.

Lidera um conselho de administração com mais cinco elementos, já era funcionária de gestão intermédia do hospital e nunca tinha tido funções políticas ou de nomeação. Ela própria se surpreendeu com o convite do director executivo do Serviço Nacional de Saúde. Iniciou funções a 1 de Fevereiro e já está a tentar implementar os projectos que pretendem melhorar o acesso aos cuidados de saúde e rentabilizar recursos.


Sentiu-se confortável com a forma como foi implementada a ULS no final do ano à pressa, com um início em gestão corrente?
Não há nenhum processo de transformação que seja fácil. A alteração para o modelo de Unidade Local de Saúde já vinha sendo falada desde o início de 2023 e tinha feito parte, com o anterior conselho de administração do Hospital Distrital de Santarém, da elaboração do plano de negócios em Maio e em Dezembro na elaboração de desenvolvimento e organização. Já tínhamos delineado estratégias e projectos. A questão da nomeação dos dirigentes, que não foi imediata e que obrigou a um período de gestão corrente pelos anteriores administradores hospitalares, foi transversal a várias unidades.
Já previa ser escolhida para o cargo por estar enquanto quadro do hospital que estava envolvida na planificação…
Confesso que foi uma surpresa, total! Não sei como surgiu o meu nome. Nunca tinha feito parte de algum conselho de administração. Não tomei nenhuma acção para estar neste cargo. Recebi um convite inesperado num dia de Janeiro. O professor Fernando Araújo (director executivo do SNS) ligou-me e deu-me um dia para pensar. Estou com 45 anos e se recusasse agora passaria ao lado de uma oportunidade única. Aceitei também, depois de falar com a família, por entender que a minha experiência me permitia aceitar este desafio.
A anterior administradora do hospital, Ana Infante, trocou impressões consigo, deu-lhe algum conselho?
Falámos um pouco da transição. Não muito porque foi inesperado. Só houve um dia entre a nomeação e a saída dela. Aconselhou-me perseverança.
Está há pouco tempo em funções, mas já deve ter definido algumas mudanças.
Estamos a tentar implementar os planos que tiveram a aprovação da tutela e esse tem sido o nosso trabalho. E é emergente substituirmo-nos nas funções que a Administração Regional de Saúde desempenhava nos cuidados de saúde primários, em que assegurava todo o funcionamento das unidades. A transição não é possível fazer de uma forma muito rápida, mas estamos já a arrumar a casa organizando o armazenamento, material clínico, medicação. Estamos também a dialogar com os nove municípios que passaram a ter competências na área das instalações, assistentes operacionais e gestão de viaturas. Estamos a definir elos de ligação e organização.
O que é mais premente?
Temos projectos que consideramos prioritários, como as requalificações da farmácia hospitalar e da unidade de cuidados intensivos. Queremos absorver no laboratório do hospital, de forma faseada, as análises clínicas dos centros de saúde. No âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência vamos adquirir um novo aparelho de TAC e temos um projecto para a beneficiação do serviço de psiquiatria. Também vamos precisar de requalificar a nossa cozinha hospitalar.
Os centros de saúde continuam com os mesmos problemas, o que é que a ULS afinal pode mudar?
A região de Lisboa e Vale do Tejo é muito carenciada em médicos. Muitos dos nossos internos são do norte e quando terminam os internatos querem regressar a essa região do país. Ao nível dos centros de saúde tivemos a aprovação de cinco vagas carenciadas. Temos a passagem de Unidades de Saúde Familiar a modelo B, que é mais atractivo para os médicos. Temos também o apoio de alguns municípios para incentivos à fixação de médicos. Ao nível hospitalar temos 10 vagas carenciadas aprovadas. Lançámos o desafio aos serviços para a criação de centros de responsabilidade integrados, que permitem incentivos aos profissionais. Entretanto alguns médicos já solicitaram a adesão ao regime de dedicação plena.
O bastonário da Ordem dos Médicos disse recentemente, numa entrevista a O MIRANTE, que o Hospital de Santarém é um dos que levanta mais preocupações pela falta de médicos e por má organização. Já identificou o que é preciso mudar na organização?
Não diria que há falta de organização. O que há é falta de recursos humanos. Não é possível a ULS Lezíria dar resposta a uma lista de espera com uma antiguidade crónica de dois ou três anos com dois ou três médicos. Sobretudo em especialidades como, por exemplo, a dermatologia, em que é muito difícil encontrar médicos disponíveis, mesmo em regime de prestação de serviços. Ou na especialidade de ortopedia em que o grupo é pequeno e tem uma carga muito grande de urgência.
O bastonário também disse que a trajectória do hospital tem sido descendente e que não havia vontade de resolver as situações. O que é que tem a dizer?
Não comento as palavras do senhor bastonário porque se referem a um anterior mandato. Não me revejo nas suas palavras. A nossa equipa tem muita vontade de trabalhar. Somos todos jovens e abraçámos este projecto porque acreditamos que podemos fazer algo de bom. Somos pessoas da casa e conhecemos bem a instituição.
Pessoas da casa conseguem gerir melhor do que pessoas que venham de fora?
As pessoas da casa têm mais facilidade em iniciarem os processos de mudança ou de gestão. O tempo de implementação de projectos e iniciativas será mais rápido, mais rentável.
A ULS vai conseguir mesmo fazer com que, num país de capelinhas, se consiga fazer a verdadeira articulação entre hospital e cuidados primários?
Tenho essa esperança e acredito no modelo. Toda a mudança tem resistências. Faz sentido que trabalhemos todos juntos em prol do doente, que os recursos sejam optimizados. Por exemplo, uma grávida é seguida nos cuidados de saúde primários até ao parto e se tiver pedido de consulta de alto risco é referenciada para o hospital e é seguida num lado e no outro. Não há necessidade desta duplicação de recursos.
Há muitos anos que se tenta instituir a urgência básica em Coruche. Agora pode ser uma realidade?
Enquanto tivermos dificuldades de recursos humanos não é possível. Vamos ver se conseguimos cativar médicos para isso. Apesar disso o centro de saúde dá uma boa resposta.
Para se melhorar o desempenho na saúde é essencial uma rede de cuidados continuados que permita libertar camas do hospital e diminuir custos e volume de trabalho.
A articulação com o sector social é fundamental. É verdade que o internamento do hospital distrital necessita muito de libertar as camas ocupadas pelos casos sociais. Embora não sejam muitos, alguns perduram muito tempo, um ano em algumas situações. Quando temos pressão na urgência com necessidade de internamento e temos as camas ocupadas com estes casos não podemos internar esses doentes e isso gera descontentamento na comunidade.
Como é que se sente quando tem de dizer que determinado serviço ou área das urgências não está a funcionar ao fim-de-semana ou em determinados dias?
Infelizmente temos essa situação a ocorrer algumas vezes. Não é o desejável, mas tem havido um trabalho na definição de redes. Se não há em Santarém há em Vila Franca de Xira ou em Torres Novas, por exemplo. O final de Dezembro e o início de Janeiro, ainda não estávamos em funções, foram muito complicados. O pico de afluência, quer nas urgências quer no internamento, foi superior ao pico da pandemia de Covid-19.

De assistente técnica a presidente do conselho de administração

Tatiana Silvestre foi nomeada em Janeiro de 2024 presidente do conselho de administração da nova Unidade Local de Saúde da Lezíria, que integra o Hospital Distrital de Santarém e os centros de saúde da área territorial da Lezíria do Tejo. Nascida em Santarém a 12 de Fevereiro de 1979, casada e mãe de uma menina com dez anos, fez grande parte do seu percurso profissional na área da gestão e planeamento no Hospital Distrital de Santarém.
Segundo as notas curriculares divulgadas pelo Serviço Nacional de Saúde, Tatiana Filipa Palão Silvestre é licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, mestre em Gestão da Saúde – Gestão das Organizações de Saúde e conta com uma pós-graduação em Administração Hospitalar. Antes de ser nomeada para liderar a administração da ULS Lezíria, era directora do Serviço de Gestão e Planeamento do Hospital Distrital de Santarém desde Junho de 2019. Antes tinha exercido outros cargos ligados à gestão hospitalar como técnica superior.
É uma conhecedora profunda da realidade do HDS, por ali ter trabalhado em múltiplas áreas e projectos desde que, em 2003, entrou para desempenhar funções de assistente técnica nos serviços de gestão de doentes, o que diz ter constituído uma grande aprendizagem. O seu trabalho começou a destacar-se, começou a ter funções de gestão em 2006 e acabou por ir ganhando novas responsabilidades, até chegar ao topo. Pelo meio, em 2017 e 2018, esteve fora como técnica superior na Unidade de Acompanhamento dos Hospitais da Administração Central do Sistema de Saúde, o que lhe permitiu ganhar uma visão macro do sistema.
Tatiana Silvestre considera-se, sem falsas modéstias, uma profissional completa e uma apaixonada pela área da saúde. Diz que gosta muito do que faz e sente-se em casa no Hospital Distrital de Santarém. Por isso não surpreende que tenha aceitado com entusiasmo e sentido de responsabilidade o convite que lhe foi endereçado pelo director executivo do Serviço Nacional de Saúde para liderar a administração da ULS Lezíria, que tem sede precisamente no HDS.

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