Entrevista | 07-07-2024 07:00

José Santos trabalha há 71 anos na Alorna e evitou as ocupações

José Santos trabalha há 71 anos na Alorna e evitou as ocupações
José Santos é o funcionário mais antigo da Quinta da Alorna com 71 anos de serviço

A história de José Santos confunde-se com uma parte da história da Quinta da Alorna e dos seus proprietários.

São 71 anos de serviço que vão continuar até poder. O funcionário mais antigo da sociedade agrícola e talvez do país, é tão importante para a Alorna que os patrões mantiveram muitos anos o escritório em Lisboa onde estava José Santos sem precisarem do espaço e é o único funcionário que pode dormir no palácio da família. Pela sua dedicação que evitou que a propriedade fosse ocupada após a revolução do 25 de Abril e pelo arrojo que evitou a possível falência na crise do vinho, José Santos vai ter o seu nome num edifício da quinta.

Dia 1 de Maio de 1953 num país empobrecido pela ditadura de Salazar, um rapaz de 14 anos, com o seu irmão gémeo, saem da aldeia onde os pais eram moleiros no Portugal profundo da Serra da Lousã para trabalhar em Lisboa. Pela mão de um tio, José Santos entra para o escritório da sociedade agrícola Quinta da Alorna para fazer recados, para fazer o que fosse preciso. A proximidade com a família foi aumentando ao ponto de ser chamado a controlar as tentativas de ocupação da quinta no após 25 de Abril; ou de acreditarem na ideia arrojada para contornar a crise do vinho, quando o ordenado dos trabalhadores estava em risco e havia quintas a falirem.
Os donos da quinta histórica de Almeirim, mantiveram o centenário escritório no número 71 da Rua do Comércio em Lisboa em respeito à dedicação de José Santos, até ser vendido há seis anos para se fazer um hotel no prédio. Desde então aproveita o escritório na Casa do Concelho de Góis em Lisboa, da qual é presidente, para se manter ligado à Alorna. O funcionário mais antigo, com 85 anos de idade, diz que continua a trabalhar para manter o cérebro activo. Começou a ganhar 350 escudos (1,74 euros). Ele e o irmão, que foi trabalhar para a Companhia de Seguros Nacional, dos donos da Alorna, andaram cinco anos a almoçar bacalhau com batatas cozidas num quarto alugado na Rua dos Correeiros. Era o mais barato. Fez a contas e degustaram 203 quilos do “fiel amigo”.
Quando havia problemas, o patrão Lopo Manuel de Carvalho telefonava-lhe e lá ia ele para Almeirim, como daquela vez em que meteu no bolso os sindicalistas numa reunião com trabalhadores da Alorna em que o objectivo era dominá-los para ocuparem as terras. A questão ficou resolvida com a firmeza de: “vocês aqui não entram”. Em outra tentativa naquele período quente após 25 de Abril de 1974, o capitão Salgueiro Maia mandou um tenente e um aspirante miliciano à quinta para se colocarem ao lado de José Santos para dizerem: “Aqui não há ocupação”.

O privilégio de dormir no palácio
José Santos era (e continua a ser) o único funcionário que dormia no palácio da Marquesa da Alorna quando era preciso ir para Almeirim uma semana ou duas ajudar no escritório, depois de aprender a fazer desde contratos a contabilidade. No ano de 1975 foi um grande protagonista da história da Alorna, que tal como as outras quintas não estavam a conseguir vender o vinho aos armazenistas. Havia casas a falirem. Aos bancos que tinham sido nacionalizados dava jeito as falências para se apoderarem das propriedades e, por isso, não emprestavam dinheiro. José Santos mandou tirar os dossiês, papelada e os diários do Governo dos armários do escritório em Lisboa para colocar garrafões que mandou levar da adega de Almeirim. Começou a fazer propaganda no quarteirão de que estava a vender vinho directamente do lavrador. Conseguiu meter o vinho no restaurante ao lado, depois começaram a chegar os merceeiros da zona.
Em pouco tempo havia filas de gente com garrafões de várias zonas como do Cacém ou da Parede. Por causa do trânsito e como já era precisa uma camioneta maior para transportar os garrafões, a venda passou a ser feita à noite. Foi assim que começou a venda ao público de vinho da Alorna e assim se conseguiu pagar ordenados e evitar o colapso financeiro. No jardim do palácio de Almeirim, com vista sobre os campos até ao Tejo, olha o horizonte e diz: “Estou cá há mais tempo que os actuais administradores”. Fecha os olhos para ver as imagens de quando levava o agora presidente do conselho de administração, Pedro Norton, e o irmão Tiago, falecido com uma leucemia, a ver os jogos do Benfica no seu Ford Escort.
José Santos é admirado pelos trabalhadores e uma referência para a sociedade que vai fazer uma sala de eventos à qual vai dar o seu nome. Em casa, o funcionário tem as fotografias de Pedro e Tiago Norton e da sua primeira patroa D. Fernanda Caroça que lhe ofereceu a fotografia com moldura.

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